Impressões de Almada V

Verdade ou consequência?

Canções i Comentários
Rui Catalão
Maria Matos, 6 de Julho, 15h

Os Negros e os Deuses do Norte
João Garcia Miguel
TMJB, 16 de Julho, 19h30

Prémio de dramaturgia

As mortes de uma acompanhante de luxo

A acompanhante
Cecília Ferreira
Teatro Aberto, 13 de Julho, 16h

Impressões de Almada IV

O plano inclinado do desejo

O Tempo Todo Inteiro
Romina Paula
CCB, 9 de Julho, 21h

Fauna
Romina Paula
CCB, 12 de Julho, 19h

Impressões de Almada III

Cliquem para ver um bocadinho de La Reunification des Deux Corées.

Um espectáculo magnífico que – se fosse eu que mandasse – toda a gente devia ver. Hoje há La Zaranda, com O Regime da Ração.

Impressões de Almada II

Teatro de metralha, som e fúria

Cais Oeste
Bernard-Marie Koltès
TMJB, 6 de Julho, 16h

Macbeth segundo Shakespeare
Heiner Müller
Incrível Almadense, 10 de Julho, 18h

Impressões de Almada

Festival de Almada, amigo, o público está contigo!

Filas para levantar bilhete, filas para tomar café, filas para entrar na sala. É uma ligação especial, esta que Almada tem com os seus espectadores. A crónica do primeiro sábado do festival.

 

Teatros vivos

{na foto, Protocolo, da Mala Voadora]

Descubra as semelhanças: lamentos sobre a república, adultério, política e amor. Os jogos de poder condicionam os jogos de cama, ou vice-versa? A intimidade esclarece os grandes desígnios colectivos, ou o contrário? (Alguém está a ler este texto?) Existe vida nos palcos portugueses, de Lisboa a Guimarães, passando pelo Porto e por Coimbra, com produções nacionais e estrangeiras a fazerem provocativas reflexões sobre… sobre o que quiserem. Há para todos os gostos.

No espaço de uns meses, uma fileira de obras e experiências muito diferentes: O Regresso a Casa (Pinter, pelos AUs), Ocidente (Rémi de Vos, enc. Victor Hugo Pontes), Penal de Ocaña (enc. Ana Zamora), O Doido e a Morte (ópera de Alexandre Delgado, enc. de Rodrigo Francisco), Nós Somos os Rolling Stones (Rui Pina Coelho, enc. Gonçalo Amorim), Um Fio de Jogo (Carlos Tê, enc. Luísa Pinto), Traições (mais Pinter, pelos STAN), O Capital (Sylvain Creuzevault, a partir de Marx), Bovary (Tiago Rodrigues, a partir de Flaubert), Protocolo (Mala Voadora com Victor Hugo Pontes), Demónios (Lars Norén, enc. Nuno Cardoso)… Penal de Ocaña e Um Fio de Jogo ainda poderão ser vistas em Julho, no Festival de Almada; Protocolo, Demónios e Bovary só depois do Verão; O Regresso a Casa, Ocidente e O Doido e a Morte infelizmente já não.

No plano escolar, os exercícios finais do 1º ano da ESMAE (dirigido por Patrick Murys) e do 3º ano da ESEC (dirigido por Ricardo Correia) eram muito bons. Esta semana estreia o espectáculo do 3º ano da ESMAE, com encenação de Nuno Carinhas, que promete.

As estrelas:

Demónios * * * * *

Bovary * * * *

O Capital * * * *

Penal de Ocaña * * * *

O Regresso a Casa * * * *

Corpos de baile

Esquerda, direita, dançar, dançar

Somando o som, a luz, o cenário, o figurino, os intérpretes, o guião, fazendo as contas a tudo, o número final é de ouro, e o Midas desse toque é o encenador, claro, Ricardo Pais

this way, please

… da dramaturgia à crítica e de volta à casa de partida sem passar pela prisão – os textos a partir de agora estão todos AQUI.

O MELHOR DE 2013

Os cinco melhores espectáculos deste ano (para mim) são estrangeiros, tirando um, que é meio. Diz do crítico, mas também dos espectáculos.

Imagem

Velório Chileno, Cristián Plana, visto na Gulbenkian (Proximo Futuro) 
Dois casais festejam num apartamento de Santiago do Chile o bombardeamento da sede governamental e o ataque a Salvador Allende, com champanhe, frases feitas e hinos militares, até que a violência que celebram lhes bate à porta. Reestreado em 2012, o texto foi escrito imediatamente após o golpe de estado de 1973, e trazido agora de volta à vida graças a um método de reanimação teatral que se diria típico do teatro chileno, pelo menos a julgar pelas escolhas que Antonio Pinto Ribeiro nos tem dado a conhecer desde há alguns anos, na Gulbenkian. O método: a acção dramática no seio da família ecoa o conflito político dentro da nação, a relação entre pais e filhos espelha o conflito de gerações, e as disputas entre amigos, vizinhos ou colegas reflecte a luta de classes. A fábula é ao mesmo tempo particular e alegórica, e dessa contradição vem a sua potência. O método aplica-se quer à dramaturgia quer, relação necessária, à encenação e à interpretação, ambas muy setenteras, como se diria, que compõem uma cena vintage, mais que retro, indo do cenário ao som, aproveitando o melhor do texto e o requinte dos actores para caracterizar o momento histórico e a situação dramática, no meio das quais irrompem notas de pura energia sonora e visual, dadas pela luz forte dos projectores e pelo ruído estridente que representam o exterior, na ficção, e o palco, na vida real – forma de tentar acordar o espectador para a sua circunstância. A encenação mostra a génese das formas de propaganda e espectacularidade do poder que permaneceriam dominantes por muitos anos.

Ping Pang Qiu, Angélica Liddell, visto no Temporada Alta e no CCVF
Uma aventura na China, ou pelo menos na China que há que dentro de Angélica Liddell, mulher cujo corpo alberga um espelho do mundo, de topografia distorcida e formas tão gritantes quanto se podia esperar de uma mulher espanhola do séc. XX, testemunha da virulência, memorialista do presente, profeta da desgraça, paliativo do nosso tempo, excursionista do futuro, quebra-cabeças do teatro contemporâneo, de onde se volta para reconhecer melhor o dito Ocidente.

Kitchen, Gob Squad, visto na Culturgest
A Pop Art da Pop Art, ou como a dialéctica pode ser um entretenimento para as massas, ao serviço do Big Brother, e ao mesmo tempo parte de uma teoria crítica da arte, ao serviço da emancipação e desprendimento. O grupo refaz os filmes de Andy Warhol para mostrar como o passado se vive hoje e qual foi o destino das revoluções culturais dos anos sessenta. No fim das contas, o espectáculo proporciona uma experiência de comunhão e ironia que, se não é o futuro, é, pelo menos, o presente do teatro.

Class enemy, Nuno Cardoso, visto no TNBA e no Teatro do Bolhão 

Que histórias tem contado Nuno Cardoso? Histórias de Portugal e da Europa, certamente. Nesta versão francesa, um dos alunos é árabe, e a sua especialidade na área do vandalismo, atirar pedras contra vitrinas, é uma espécie de intifada particular. A parede alta da sala de aula, ao fundo, que tanto pode ser uma lousa gigante como um bloco de concreto é uma alusão ao muro que rompe a Palestina. O retrato de uma turma de repetentes no coração da Europa ocidental é um espelho da geração do encenador, dispersa e revoltada contra um muro abstrato.

Melancolia y Manifestaciones, Lola Arias, visto na Culturgest

Em BsAs ou se é terapeuta ou teatrista, terapeutizado ou espectador, ou tudo ao mesmo tempo. Este espectáculo procura o elo perdido entre golpe de estado e trauma, ditadura e depressão, manifestação e cura, que possa refazer a relação da autora com a própria mãe e contextualiza-la na história recente da Argentina, dando respostas, ainda que provisórias, a quem as busca no teatro e na terapia. Para a filha, porém, não há cura possível. A manifestação política será a última das terapias? Se sim, então contam-se histórias para sobreviver e o teatro é a salvação.

Uma série chamada Crise Política

As notas editoriais da Folha Informativa publicada durante os quinze dias do Festival de Almada 2013, escritas durante uma das partes do festival que tem sido a governação do país (na foto, o espectáculo E se nos metêssemos ao barulho?! – a arte de fazer da verdade uma arma manejável, obra escolhida pelo público para voltar ao Festival em 2014):

 

Obviamente, o teatro é público

Quando o toner destas frases tiver pousado na folha, já o Restaurante do Teatro e a Esplanada da Escola D. António da Costa terão servido centenas de pratos apetitosos, bebidas frescas e cafés fortes. O Festival tem programação: peças engajadas da Escandinávia; espectáculos rebeldes dos Balcãs; estreias arrojadas de portugueses; regressos esperados de franceses, alemães e austríacos; criações raras dos chamados PIIGS (o acrónimo de Portugal, Italy, Ireland, Greece, Spain em inglês); e até a aguardada presença de um argentino. Mas é sobretudo um lugar de encontros: obras-primas de grandes mestres vistas lado-a-lado com experiências de jovens talentos; actores da periferia da Europa cruzando os bastidores com encenadores do centro da Europa; textos contemporâneos, obras clássicas e partituras musicais no mesmo cartaz. Não é só. Haverá versos, insultos e seduções em cada ribalta; treze línguas que partilham as mesmas salas; espectadores e artistas à mesma mesa. Um mundo de olhares curiosos em cada plateia. É dessa intimidade que o Festival é feito – pública.

 

Reanimação cardíaca da Europa

Nos anos noventa, quando a Europa ocidental se tentava unir a todo o custo, o Leste e o Sudeste do continente desfaziam-se a cada dia que passava. Com o coração na Alemanha e os olhos postos na cicatriz do muro de Berlim, os europeus tinham como destino costurar os órgãos e membros da grande península num único corpo. De preferência, uma euromoça que não se parecesse muito com a noiva de Frankenstein. Nos balcãs, o Frankenstein de Tito era esfacelado pelos próprios braços. Nos anos zero do novo milénio, parece ser a vez do oeste desabar, com as periferias a fugirem do centro geo-monetário europeu em direcção… ao passado. A Jangada de Pedra é hoje em dia quase todo o continente e leva atrelada cada vez mais escolhos, o último dos quais sendo a Croácia, recém-nascida para a União. Nacional croata, mas natural bósnio, o senhor Oliver Frljic abriu ontem as hostilidades do Festival, com um espectáculo esloveno, lembrando-nos que até Frankenstein tinha alma e, talvez, bom coração. Há mais obras sobre a pátria de cada um, e indirectamente sobre a Europa, mas nenhuma tão abrasiva quanto esta. Nada como um choque eléctrico para activar a circulação sanguínea. Que se passará no coração, cabeça e estômago da filha de Agenor? Como viver num território comum a várias nacionalidades? Saiba as respostas no próximo episódio, num palco perto de si.

 

A inspiração vem às golfadas

Artaud (1896-1948) queria que o teatro fosse um arte dos actos presentes, e não da representação, ilustração ou imitação de sonhos mortos. Ironia do destino, morreu cedo e a sua visão artística só foi concretizada anos depois, nas peças de Jean Genet (1910-1986), por exemplo, ou na histórica encenação (1967) de Marat/Sade, de Peter Weiss (1916-1982), feita por Peter Brook (1925-). As vanguardas, com os seus manifestos, têm os olhos tão postos no futuro que é de facto para lá que vão. Oswald de Andrade (1890-1954), tendo escrito o Manifesto Antropofágico em 1928 e a peça de teatro O Rei da Vela em 1933, já não viu essas sementes germinar quando, em 1967, a peça foi finalmente montada pelo Teatro Oficina de José Celso Martinez Corrêa (1937-), em plena ditadura militar brasileira, dando origem ao tropicalismo como indústria. Interrompidos das mais diversas formas, os modernismos radicais do início do séc. XX geraram um teatro de combustão rápida que só começou a lavrar bem anos no final dos anos sessenta, quando a libertação sexual e política deram as mãos. Daqui a 500 anos, porém, tudo parecerá ter acontecido ao mesmo tempo, tal como Ésquilo (525-455 AC), Sófocles (496-406 AC) e Eurípides (480-406 AC) nos parecem contemporâneos. Quando Demarcy-Mota (1970-) voltar a apresentar o texto de Vitrac (1899-1952), este sábado e domingo no Festival, visando essa contemporaneidade absoluta, estaremos aqui e agora, lá e outrora.

 

Só se está bem na praia à noite

O Verão Quente, afinal, não foi em 1975. Este ano, sim, as temperaturas subiram até onde nunca tinham subido. Que o digam as centenas de manifestantes que aceitaram o repto da CGTP e foram num sábado à tarde para a frente do Palácio de Belém protestar contra a falsa saída de cena dos protagonistas dos nossos telejornais. Além do mais, graças às alterações climáticas, o verão é global: uma parte do Brasil, isto em pleno inverno, também está na rua.

Este verão não sabemos se ficará na memória: amores de verão, enterram-se na areia. O pudor comum em relação a acidentes e horrores, como se o significado do silêncio fosse dizer isto foi tão mau que o melhor é não falar mais do assunto, o que revela? A omissão remete as coisas para purgatório ou directamente para o inferno? Tanto filme e reconstituição histérica sobre as guerras, os golpes, as ditaduras, serão realmente uma confissão de arrependimento colectivo ou apenas um gozo disfarçado de culpa?

O teatro é mais real do que a realidade, porque é elevado a dois ou três. O surrealismo nasceu nas trincheiras da primeira grande guerra, onde Breton foi médico de campanha. Se continuar assim quente, há de chegar uma altura em que pedimos os canhões de água.

 

Quem matou JR Ewing? (Que afinal não estava morto.)

No outro dia, no espectáculo de abertura do Festival, uma das actrizes contou como quase saiu da produção porque queriam que ela cantasse um hino anti-guerra que fora gravado por uma mulher infame. No final, convenceram-na a ficar. O colega do lado agradeceu a lição sobre como obter o papel principal numa peça: ameaçar sair. A actriz era precisa e a peça fez-se, com ela a protagonista. Nós, espectadores, aplaudimos o jogo. Que habilidade!

Do lado de cá, a nossa habilidade de espectadores é conseguir assistir às reviravoltas do espectáculo sem pensar no fim da história, como se tudo fosse apenas uma série de televisão, nem boa nem má. Não há fim para isto. O único final decente para uma narrativa de série de televisão seria como o dos Sopranos. De repente, o escuro. Ou então o castigo das várias personagens, como no fecho de Seinfeld. A natureza da série de televisão, que obriga a mudar o enredo conforme agrada mais ou menos à virtual plateia, determina que seja impossível criar ou prever um final minimamente satisfatório, porque não há desfecho coerente possível para tanta inconsequência das personagens. Na política, parece impossível qualquer teleologia, qualquer perspectiva de fim último, qualquer princípio de organização. Por isso, não faz mal que a actriz dê o golpe hoje e leve o prémio para casa. Amanhã há mais. Enquanto o pau vai e vem, folgam as costas.

 

Retomemos a emissão

Por toda a Europa se repetem as versões locais de programas inventados entre Berlim e Bruxelas, tal como da holandesa endemol saíram em devido tempo os diferentes Big Brother. Quem serão os Zé Marias, vencedores de reality show, sejam eles espanhóis, franceses, italianos, balcânicos, gregos, cipriotas ou turcos, para ficar pela margem norte do mar mediterrâneo? Que lhes terá acontecido desde então? Pararão nas praças dos indignados, com cocktails molotov na mão, algum dia? Não enquanto estiverem ocupados a ver as cenas dos próximos episódios na televisão, seja de noticiário, debate, conversões públicas, conversa íntima, ou até, pasme-se, ficção.

A série de televisão Governo de Portugal é assim: episódios, reposições, temporadas novas, mas sem fim à vista nem, sobretudo, consistência das personagens. Estamos habituados. Ao menos Hamlet acaba com um bodycount de respeito e pode alegar-se que esse é o desafio do autor: como chegar ao fim com um chão coberto de cadáveres em apenas cinco minutos sem que o público desate a rir às gargalhadas? Hoje seria impossível. Todos se parecem com o rei Ubu. Ao teatro, só resta satirizar, satirizar, satirizar. Mas de dentro do teatro sairá uma chama, como o inferno de D. Juan, que nos há de engolir a todos.

 

Leia na sua TV Guia

Num determinado tipo de telenovelas, que todos sabemos quais são, as cenas gravadas em estúdio, fingindo ser a casa das personagens, alternam com panoramas de centros históricos e paisagens da região em volta. O modelo é o célebre Pantanal, que inventou esses momentos por falta de cenas filmadas. Assim como nessa telenovela havia a estação das chuvas, na nossa novela pública há a estação dos incêndios, que está hoje como pano de fundo de mais uma declaração ao país.

Enquanto os enredos das novelas se podem ficar a saber antes pelas páginas das revistas, nesta novela as personagens vão mudando as peripécias à medida que avançam no tempo. Mudam as peripécias, mas não mudam a forma geral da coisa: os vilões, as vítimas, os bons da fita, o inimigo externo estão sempre lá, como máscaras de cartão. Os enredos inventam a realidade. Os que vemos nas novelas são usados na política, e vice-versa. E vem tudo na TV Guia.

A TV Guia da telenovela política é a imprensa, e a TV Guia da imprensa é a internet. (E ainda há estas folhas informativas.) A diferença é que na telenovela política e na imprensa as próprias personagens, e não apenas os espectadores, lêem a sua TV Guia. O que cabe à arte? Pior que um artista ou uma obra pretensamente neutra, é um artista pretensamente engajado. Nenhum diz nada nem sobre política nem sobre arte, a não ser… na forma de TV Guia. Precisamos de as rasgar em cena.

 

A lua não nasce para todos

Em muitos lugares da internet se podem aprender os acordes e a letra de La luna y el toro, com esse imortal verso: abanicos de colores parecen sus patas. No labirinto que é a política, todos usam leques coloridos, um em cada pata, e ninguém parece querer encontrar a saída. Da próxima vez que virem um político de cinza e azul, lembrem-se: la luna se está peinando.

Entretanto, em Almada, as pessoas fazem fila para entrar no Palco. A bicha já é uma alegria, mas estar sentado na bancada ao ar livre é um acontecimento. O silêncio antes de o actor começar é interrompido por essa maravilha da tecnologia moderna que é a telefonia celular. A mesma brisa que refresca os espectadores nestas noites de Julho traz os acordes sintetizados de uma velha canção. Tudo isto parece contrariar o trabalho dos artistas de teatro, mas pensando bem, talvez não. Os panos pretos e os cabelos do actor oscilam por igual com o vento suave e tudo conspira para que não tenhamos dúvidas de que estamos juntos, todos, no mesmo lugar, a ver a mesma peça, pensada para nós por um autor distante no tempo e no espaço mas, por milagre, presente ali hoje. No fim, a luz do espectáculo apaga-se lentamente, as luzes da bancada ainda não se acenderam, e enquanto as pessoas não aplaudem, a lua ilumina a plateia, o palco, a máquina da legendagem, estamos todos no escuro.

 

Derivado a deus

Imagine que uma terrível calamidade se abatia sobre uma cidade como Lisboa e a explicação corrente era de que não poderia ser uma calamidade melhor, uma vez que tudo tem uma causa inevitável, em última instância derivada da vontade de Deus em criar o mundo, o único possível, aliás, e portanto era preciso todos aceitarem os sacrifícios com um sorriso. Poderia ser tanto o terremoto que inspirou Voltaire a escrever Cândido, como qualquer uma das várias crises financeiras desde 1973. Imagine que, contra esse obscurantismo, as pessoas se reuniam num festival de teatro como o de Almada, para sonhar outras vidas. Veriam como outros mundos, melhores ou não, se fariam possíveis em cada um dos vários palcos de tal mostra. Só nos próximos dias, por exemplo, cabem no Festival de Almada a geografia alucinante de Cândido (domingo), que inclui uma merecida pausa no Eldorado; a cosmologia e o sistema planetário de O principezinho (sábado) ou a floresta aberta onde circula livremente a vaca Yvonne da Baviera (A linha amarela, segunda-feira). Que alguém – Joaquim Benite – tenha um dia imaginado um desses lugares de sonho, feito para sonhar outros lugares, é uma sorte que temos. Façamos por merecê-la.

 

Falsas memórias

Com o passar do tempo, os encontros nas várias edições do Festival parecem ter acontecido numa única edição. Uma senha de café cravada na esplanada da Escola D. António da Costa, uma conversa em portunhol antes do espectáculo começar ou uma série de miradas repartida com portugueses e estrangeiros por igual, a partir da Casa da Cerca, parecem ter tido lugar e ocasião numa entidade mítica transtemporal que seria o Festival de Almada. Não me posso alongar neste espaço sobre as noitadas a dobrar folhetos, os banhos de mar matinais ou os almoços tardios que constituem o festival paralelo, por falta de caracteres, não de carácter. As noites fundem-se umas nas outras, e os dias parecem apenas uma cola viscosa que nos junta aos outros por breves momentos. Com o passar do tempo, os espectáculos, as conversas, os colóquios, os copos, entram nos sonhos a cavalo da noite, e podem até nunca ter acontecido, que nos lembraremos deles para sempre.

 

Estrada interior

Toda a cartografia do mundo, real e imaginária, cabe no Festival, e toda a história do mundo e toda a ficção da história. Melhor ainda, as ilusões que vemos nos palcos ficam na lembrança, são faladas e imitadas, e alimentam os devaneios de cada um naqueles intervalos de tempo em que desligamos da vida real para sonharmos acordados. Ou não: por vezes o ritual da mentira e do documento, da fala e da máscara, do corpo e da queda, não chega a mover a mente. Um espectáculo de teatro, e mais ainda uma mostra, labora na tensão entre realidade e fantasia que segura os nossos dias, suspensos no vazio, como a ponte sobre o Tejo, assentes em dois ou três pilares como um milagre de que se desconfia. No barco, no autocarro, no metro, na auto-estrada Lisboa-Porto, a recordação dos actores e da cena mistura-se com a paisagem, o barulho do motor, o cheiro, o noticiário da rádio e ainda por cima o código da estrada. Como dizia Demarcy-Mota nas Conversas na Esplanada, o teatro é rival da política porque ambos disputam a palavra. Ambos causam emancipação (ou não). No caminho para casa joga-se a verdade.

 

O preço dos corpos

A série de televisão tornou-se a forma cultural por excelência e o teatro um fraco rival dessa potência ética e estética. Mesmo a política está subordinada à lógica dos ganchos, das cenas dos próximos capítulos e dos enredos revelados antes e depois. Em Portugal, multiplicam-se os núcleos da acção: presidente nas ilhas, verdes no parlamento, a família de direita, a família de esquerda, a família de esquerda-direita. E em Espanha há uma versão própria da telenovela. O teatro pode tentar desmontar esses mecanismos, como vimos em muitos dos espectáculos que se apresentaram até à data no Festival, entre os restos da arte pop, da performance e da live art, ou ainda contrapor-se a essa oferta, dando a ver peças onde não há heróis, apenas pessoas nas suas circunstâncias, um corpo e um preço a pagar, e a composição dos diferentes pontos de vista sobre os acontecimentos. Mas isso não chegará. Serão precisas, e muito em breve, peças que façam as duas coisas ao mesmo tempo. Até ao fim do Festival, descubra quais são.

Canto triste

O maestro João Paulo Santos dizia outro dia que os cantores líricos portugueses tinham aquilo a que se chama um “canto triste”: a tendência para interpretar toda e qualquer melodia com uma lágrima no canto do olho. Esse sentimentalismo é primo do melodrama e da farsa em que vivemos, digo eu, e faz parte das regras de género teatral que usamos para construir e desconstruir o real: as peças de teatro, o noticiário, a vida. Todos querem saber antes de mais quem é a vítima e o mau da fita, e todos tentam negociar a cotação das personagens na bolsa do protagonismo. A fama é a moeda de troca no mercado da democracia e o sensacionalismo é a bandeja onde se servem as cabeças dos heróis do momento. Enquanto isso, a verdadeira acção desenrola-se por baixo da mesa, sem que possamos imaginar uma forma épica, lírica ou dramática que a exponha. Talvez seja esse o verdadeiro bloqueio do teatro e da política. Enquanto nos regozijamos no sofrimento próprio e alheio, nada fazemos para mudar os papéis, as personagens e as regras do jogo. O Festival de Almada trouxe espectáculos mais do que suficientes para nos ajudar a pensar nisso. Obras escandinavas, ex-jugoslavas, dos PIIGS e até do antigo império franco. A imaginação que nos ata ao destino é a mesma que desata os nós da vidinha. Desliguemos os cabos e pisemos os palcos. O teatro é público.

Apesar de troiana, Cassandra, para nós, é grega. Por muito que a escutemos, os seus avisos não chegarão nunca aos nossos ouvidos. Os seus gestos simples são endereçados à memória. Saberemos o que aconteceu apenas quando for tarde demais. Não deixemos porém, que o canto dela seja triste, nem que o teatro seja posto a um canto.

 

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