Corpos de baile

Esquerda, direita, dançar, dançar

Somando o som, a luz, o cenário, o figurino, os intérpretes, o guião, fazendo as contas a tudo, o número final é de ouro, e o Midas desse toque é o encenador, claro, Ricardo Pais

this way, please

… da dramaturgia à crítica e de volta à casa de partida sem passar pela prisão – os textos a partir de agora estão todos AQUI.

O MELHOR DE 2013

Os cinco melhores espectáculos deste ano (para mim) são estrangeiros, tirando um, que é meio. Diz do crítico, mas também dos espectáculos.

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Velório Chileno, Cristián Plana, visto na Gulbenkian (Proximo Futuro) 
Dois casais festejam num apartamento de Santiago do Chile o bombardeamento da sede governamental e o ataque a Salvador Allende, com champanhe, frases feitas e hinos militares, até que a violência que celebram lhes bate à porta. Reestreado em 2012, o texto foi escrito imediatamente após o golpe de estado de 1973, e trazido agora de volta à vida graças a um método de reanimação teatral que se diria típico do teatro chileno, pelo menos a julgar pelas escolhas que Antonio Pinto Ribeiro nos tem dado a conhecer desde há alguns anos, na Gulbenkian. O método: a acção dramática no seio da família ecoa o conflito político dentro da nação, a relação entre pais e filhos espelha o conflito de gerações, e as disputas entre amigos, vizinhos ou colegas reflecte a luta de classes. A fábula é ao mesmo tempo particular e alegórica, e dessa contradição vem a sua potência. O método aplica-se quer à dramaturgia quer, relação necessária, à encenação e à interpretação, ambas muy setenteras, como se diria, que compõem uma cena vintage, mais que retro, indo do cenário ao som, aproveitando o melhor do texto e o requinte dos actores para caracterizar o momento histórico e a situação dramática, no meio das quais irrompem notas de pura energia sonora e visual, dadas pela luz forte dos projectores e pelo ruído estridente que representam o exterior, na ficção, e o palco, na vida real – forma de tentar acordar o espectador para a sua circunstância. A encenação mostra a génese das formas de propaganda e espectacularidade do poder que permaneceriam dominantes por muitos anos.

Ping Pang Qiu, Angélica Liddell, visto no Temporada Alta e no CCVF
Uma aventura na China, ou pelo menos na China que há que dentro de Angélica Liddell, mulher cujo corpo alberga um espelho do mundo, de topografia distorcida e formas tão gritantes quanto se podia esperar de uma mulher espanhola do séc. XX, testemunha da virulência, memorialista do presente, profeta da desgraça, paliativo do nosso tempo, excursionista do futuro, quebra-cabeças do teatro contemporâneo, de onde se volta para reconhecer melhor o dito Ocidente.

Kitchen, Gob Squad, visto na Culturgest
A Pop Art da Pop Art, ou como a dialéctica pode ser um entretenimento para as massas, ao serviço do Big Brother, e ao mesmo tempo parte de uma teoria crítica da arte, ao serviço da emancipação e desprendimento. O grupo refaz os filmes de Andy Warhol para mostrar como o passado se vive hoje e qual foi o destino das revoluções culturais dos anos sessenta. No fim das contas, o espectáculo proporciona uma experiência de comunhão e ironia que, se não é o futuro, é, pelo menos, o presente do teatro.

Class enemy, Nuno Cardoso, visto no TNBA e no Teatro do Bolhão 

Que histórias tem contado Nuno Cardoso? Histórias de Portugal e da Europa, certamente. Nesta versão francesa, um dos alunos é árabe, e a sua especialidade na área do vandalismo, atirar pedras contra vitrinas, é uma espécie de intifada particular. A parede alta da sala de aula, ao fundo, que tanto pode ser uma lousa gigante como um bloco de concreto é uma alusão ao muro que rompe a Palestina. O retrato de uma turma de repetentes no coração da Europa ocidental é um espelho da geração do encenador, dispersa e revoltada contra um muro abstrato.

Melancolia y Manifestaciones, Lola Arias, visto na Culturgest

Em BsAs ou se é terapeuta ou teatrista, terapeutizado ou espectador, ou tudo ao mesmo tempo. Este espectáculo procura o elo perdido entre golpe de estado e trauma, ditadura e depressão, manifestação e cura, que possa refazer a relação da autora com a própria mãe e contextualiza-la na história recente da Argentina, dando respostas, ainda que provisórias, a quem as busca no teatro e na terapia. Para a filha, porém, não há cura possível. A manifestação política será a última das terapias? Se sim, então contam-se histórias para sobreviver e o teatro é a salvação.

Uma série chamada Crise Política

As notas editoriais da Folha Informativa publicada durante os quinze dias do Festival de Almada 2013, escritas durante uma das partes do festival que tem sido a governação do país (na foto, o espectáculo E se nos metêssemos ao barulho?! – a arte de fazer da verdade uma arma manejável, obra escolhida pelo público para voltar ao Festival em 2014):

 

Obviamente, o teatro é público

Quando o toner destas frases tiver pousado na folha, já o Restaurante do Teatro e a Esplanada da Escola D. António da Costa terão servido centenas de pratos apetitosos, bebidas frescas e cafés fortes. O Festival tem programação: peças engajadas da Escandinávia; espectáculos rebeldes dos Balcãs; estreias arrojadas de portugueses; regressos esperados de franceses, alemães e austríacos; criações raras dos chamados PIIGS (o acrónimo de Portugal, Italy, Ireland, Greece, Spain em inglês); e até a aguardada presença de um argentino. Mas é sobretudo um lugar de encontros: obras-primas de grandes mestres vistas lado-a-lado com experiências de jovens talentos; actores da periferia da Europa cruzando os bastidores com encenadores do centro da Europa; textos contemporâneos, obras clássicas e partituras musicais no mesmo cartaz. Não é só. Haverá versos, insultos e seduções em cada ribalta; treze línguas que partilham as mesmas salas; espectadores e artistas à mesma mesa. Um mundo de olhares curiosos em cada plateia. É dessa intimidade que o Festival é feito – pública.

 

Reanimação cardíaca da Europa

Nos anos noventa, quando a Europa ocidental se tentava unir a todo o custo, o Leste e o Sudeste do continente desfaziam-se a cada dia que passava. Com o coração na Alemanha e os olhos postos na cicatriz do muro de Berlim, os europeus tinham como destino costurar os órgãos e membros da grande península num único corpo. De preferência, uma euromoça que não se parecesse muito com a noiva de Frankenstein. Nos balcãs, o Frankenstein de Tito era esfacelado pelos próprios braços. Nos anos zero do novo milénio, parece ser a vez do oeste desabar, com as periferias a fugirem do centro geo-monetário europeu em direcção… ao passado. A Jangada de Pedra é hoje em dia quase todo o continente e leva atrelada cada vez mais escolhos, o último dos quais sendo a Croácia, recém-nascida para a União. Nacional croata, mas natural bósnio, o senhor Oliver Frljic abriu ontem as hostilidades do Festival, com um espectáculo esloveno, lembrando-nos que até Frankenstein tinha alma e, talvez, bom coração. Há mais obras sobre a pátria de cada um, e indirectamente sobre a Europa, mas nenhuma tão abrasiva quanto esta. Nada como um choque eléctrico para activar a circulação sanguínea. Que se passará no coração, cabeça e estômago da filha de Agenor? Como viver num território comum a várias nacionalidades? Saiba as respostas no próximo episódio, num palco perto de si.

 

A inspiração vem às golfadas

Artaud (1896-1948) queria que o teatro fosse um arte dos actos presentes, e não da representação, ilustração ou imitação de sonhos mortos. Ironia do destino, morreu cedo e a sua visão artística só foi concretizada anos depois, nas peças de Jean Genet (1910-1986), por exemplo, ou na histórica encenação (1967) de Marat/Sade, de Peter Weiss (1916-1982), feita por Peter Brook (1925-). As vanguardas, com os seus manifestos, têm os olhos tão postos no futuro que é de facto para lá que vão. Oswald de Andrade (1890-1954), tendo escrito o Manifesto Antropofágico em 1928 e a peça de teatro O Rei da Vela em 1933, já não viu essas sementes germinar quando, em 1967, a peça foi finalmente montada pelo Teatro Oficina de José Celso Martinez Corrêa (1937-), em plena ditadura militar brasileira, dando origem ao tropicalismo como indústria. Interrompidos das mais diversas formas, os modernismos radicais do início do séc. XX geraram um teatro de combustão rápida que só começou a lavrar bem anos no final dos anos sessenta, quando a libertação sexual e política deram as mãos. Daqui a 500 anos, porém, tudo parecerá ter acontecido ao mesmo tempo, tal como Ésquilo (525-455 AC), Sófocles (496-406 AC) e Eurípides (480-406 AC) nos parecem contemporâneos. Quando Demarcy-Mota (1970-) voltar a apresentar o texto de Vitrac (1899-1952), este sábado e domingo no Festival, visando essa contemporaneidade absoluta, estaremos aqui e agora, lá e outrora.

 

Só se está bem na praia à noite

O Verão Quente, afinal, não foi em 1975. Este ano, sim, as temperaturas subiram até onde nunca tinham subido. Que o digam as centenas de manifestantes que aceitaram o repto da CGTP e foram num sábado à tarde para a frente do Palácio de Belém protestar contra a falsa saída de cena dos protagonistas dos nossos telejornais. Além do mais, graças às alterações climáticas, o verão é global: uma parte do Brasil, isto em pleno inverno, também está na rua.

Este verão não sabemos se ficará na memória: amores de verão, enterram-se na areia. O pudor comum em relação a acidentes e horrores, como se o significado do silêncio fosse dizer isto foi tão mau que o melhor é não falar mais do assunto, o que revela? A omissão remete as coisas para purgatório ou directamente para o inferno? Tanto filme e reconstituição histérica sobre as guerras, os golpes, as ditaduras, serão realmente uma confissão de arrependimento colectivo ou apenas um gozo disfarçado de culpa?

O teatro é mais real do que a realidade, porque é elevado a dois ou três. O surrealismo nasceu nas trincheiras da primeira grande guerra, onde Breton foi médico de campanha. Se continuar assim quente, há de chegar uma altura em que pedimos os canhões de água.

 

Quem matou JR Ewing? (Que afinal não estava morto.)

No outro dia, no espectáculo de abertura do Festival, uma das actrizes contou como quase saiu da produção porque queriam que ela cantasse um hino anti-guerra que fora gravado por uma mulher infame. No final, convenceram-na a ficar. O colega do lado agradeceu a lição sobre como obter o papel principal numa peça: ameaçar sair. A actriz era precisa e a peça fez-se, com ela a protagonista. Nós, espectadores, aplaudimos o jogo. Que habilidade!

Do lado de cá, a nossa habilidade de espectadores é conseguir assistir às reviravoltas do espectáculo sem pensar no fim da história, como se tudo fosse apenas uma série de televisão, nem boa nem má. Não há fim para isto. O único final decente para uma narrativa de série de televisão seria como o dos Sopranos. De repente, o escuro. Ou então o castigo das várias personagens, como no fecho de Seinfeld. A natureza da série de televisão, que obriga a mudar o enredo conforme agrada mais ou menos à virtual plateia, determina que seja impossível criar ou prever um final minimamente satisfatório, porque não há desfecho coerente possível para tanta inconsequência das personagens. Na política, parece impossível qualquer teleologia, qualquer perspectiva de fim último, qualquer princípio de organização. Por isso, não faz mal que a actriz dê o golpe hoje e leve o prémio para casa. Amanhã há mais. Enquanto o pau vai e vem, folgam as costas.

 

Retomemos a emissão

Por toda a Europa se repetem as versões locais de programas inventados entre Berlim e Bruxelas, tal como da holandesa endemol saíram em devido tempo os diferentes Big Brother. Quem serão os Zé Marias, vencedores de reality show, sejam eles espanhóis, franceses, italianos, balcânicos, gregos, cipriotas ou turcos, para ficar pela margem norte do mar mediterrâneo? Que lhes terá acontecido desde então? Pararão nas praças dos indignados, com cocktails molotov na mão, algum dia? Não enquanto estiverem ocupados a ver as cenas dos próximos episódios na televisão, seja de noticiário, debate, conversões públicas, conversa íntima, ou até, pasme-se, ficção.

A série de televisão Governo de Portugal é assim: episódios, reposições, temporadas novas, mas sem fim à vista nem, sobretudo, consistência das personagens. Estamos habituados. Ao menos Hamlet acaba com um bodycount de respeito e pode alegar-se que esse é o desafio do autor: como chegar ao fim com um chão coberto de cadáveres em apenas cinco minutos sem que o público desate a rir às gargalhadas? Hoje seria impossível. Todos se parecem com o rei Ubu. Ao teatro, só resta satirizar, satirizar, satirizar. Mas de dentro do teatro sairá uma chama, como o inferno de D. Juan, que nos há de engolir a todos.

 

Leia na sua TV Guia

Num determinado tipo de telenovelas, que todos sabemos quais são, as cenas gravadas em estúdio, fingindo ser a casa das personagens, alternam com panoramas de centros históricos e paisagens da região em volta. O modelo é o célebre Pantanal, que inventou esses momentos por falta de cenas filmadas. Assim como nessa telenovela havia a estação das chuvas, na nossa novela pública há a estação dos incêndios, que está hoje como pano de fundo de mais uma declaração ao país.

Enquanto os enredos das novelas se podem ficar a saber antes pelas páginas das revistas, nesta novela as personagens vão mudando as peripécias à medida que avançam no tempo. Mudam as peripécias, mas não mudam a forma geral da coisa: os vilões, as vítimas, os bons da fita, o inimigo externo estão sempre lá, como máscaras de cartão. Os enredos inventam a realidade. Os que vemos nas novelas são usados na política, e vice-versa. E vem tudo na TV Guia.

A TV Guia da telenovela política é a imprensa, e a TV Guia da imprensa é a internet. (E ainda há estas folhas informativas.) A diferença é que na telenovela política e na imprensa as próprias personagens, e não apenas os espectadores, lêem a sua TV Guia. O que cabe à arte? Pior que um artista ou uma obra pretensamente neutra, é um artista pretensamente engajado. Nenhum diz nada nem sobre política nem sobre arte, a não ser… na forma de TV Guia. Precisamos de as rasgar em cena.

 

A lua não nasce para todos

Em muitos lugares da internet se podem aprender os acordes e a letra de La luna y el toro, com esse imortal verso: abanicos de colores parecen sus patas. No labirinto que é a política, todos usam leques coloridos, um em cada pata, e ninguém parece querer encontrar a saída. Da próxima vez que virem um político de cinza e azul, lembrem-se: la luna se está peinando.

Entretanto, em Almada, as pessoas fazem fila para entrar no Palco. A bicha já é uma alegria, mas estar sentado na bancada ao ar livre é um acontecimento. O silêncio antes de o actor começar é interrompido por essa maravilha da tecnologia moderna que é a telefonia celular. A mesma brisa que refresca os espectadores nestas noites de Julho traz os acordes sintetizados de uma velha canção. Tudo isto parece contrariar o trabalho dos artistas de teatro, mas pensando bem, talvez não. Os panos pretos e os cabelos do actor oscilam por igual com o vento suave e tudo conspira para que não tenhamos dúvidas de que estamos juntos, todos, no mesmo lugar, a ver a mesma peça, pensada para nós por um autor distante no tempo e no espaço mas, por milagre, presente ali hoje. No fim, a luz do espectáculo apaga-se lentamente, as luzes da bancada ainda não se acenderam, e enquanto as pessoas não aplaudem, a lua ilumina a plateia, o palco, a máquina da legendagem, estamos todos no escuro.

 

Derivado a deus

Imagine que uma terrível calamidade se abatia sobre uma cidade como Lisboa e a explicação corrente era de que não poderia ser uma calamidade melhor, uma vez que tudo tem uma causa inevitável, em última instância derivada da vontade de Deus em criar o mundo, o único possível, aliás, e portanto era preciso todos aceitarem os sacrifícios com um sorriso. Poderia ser tanto o terremoto que inspirou Voltaire a escrever Cândido, como qualquer uma das várias crises financeiras desde 1973. Imagine que, contra esse obscurantismo, as pessoas se reuniam num festival de teatro como o de Almada, para sonhar outras vidas. Veriam como outros mundos, melhores ou não, se fariam possíveis em cada um dos vários palcos de tal mostra. Só nos próximos dias, por exemplo, cabem no Festival de Almada a geografia alucinante de Cândido (domingo), que inclui uma merecida pausa no Eldorado; a cosmologia e o sistema planetário de O principezinho (sábado) ou a floresta aberta onde circula livremente a vaca Yvonne da Baviera (A linha amarela, segunda-feira). Que alguém – Joaquim Benite – tenha um dia imaginado um desses lugares de sonho, feito para sonhar outros lugares, é uma sorte que temos. Façamos por merecê-la.

 

Falsas memórias

Com o passar do tempo, os encontros nas várias edições do Festival parecem ter acontecido numa única edição. Uma senha de café cravada na esplanada da Escola D. António da Costa, uma conversa em portunhol antes do espectáculo começar ou uma série de miradas repartida com portugueses e estrangeiros por igual, a partir da Casa da Cerca, parecem ter tido lugar e ocasião numa entidade mítica transtemporal que seria o Festival de Almada. Não me posso alongar neste espaço sobre as noitadas a dobrar folhetos, os banhos de mar matinais ou os almoços tardios que constituem o festival paralelo, por falta de caracteres, não de carácter. As noites fundem-se umas nas outras, e os dias parecem apenas uma cola viscosa que nos junta aos outros por breves momentos. Com o passar do tempo, os espectáculos, as conversas, os colóquios, os copos, entram nos sonhos a cavalo da noite, e podem até nunca ter acontecido, que nos lembraremos deles para sempre.

 

Estrada interior

Toda a cartografia do mundo, real e imaginária, cabe no Festival, e toda a história do mundo e toda a ficção da história. Melhor ainda, as ilusões que vemos nos palcos ficam na lembrança, são faladas e imitadas, e alimentam os devaneios de cada um naqueles intervalos de tempo em que desligamos da vida real para sonharmos acordados. Ou não: por vezes o ritual da mentira e do documento, da fala e da máscara, do corpo e da queda, não chega a mover a mente. Um espectáculo de teatro, e mais ainda uma mostra, labora na tensão entre realidade e fantasia que segura os nossos dias, suspensos no vazio, como a ponte sobre o Tejo, assentes em dois ou três pilares como um milagre de que se desconfia. No barco, no autocarro, no metro, na auto-estrada Lisboa-Porto, a recordação dos actores e da cena mistura-se com a paisagem, o barulho do motor, o cheiro, o noticiário da rádio e ainda por cima o código da estrada. Como dizia Demarcy-Mota nas Conversas na Esplanada, o teatro é rival da política porque ambos disputam a palavra. Ambos causam emancipação (ou não). No caminho para casa joga-se a verdade.

 

O preço dos corpos

A série de televisão tornou-se a forma cultural por excelência e o teatro um fraco rival dessa potência ética e estética. Mesmo a política está subordinada à lógica dos ganchos, das cenas dos próximos capítulos e dos enredos revelados antes e depois. Em Portugal, multiplicam-se os núcleos da acção: presidente nas ilhas, verdes no parlamento, a família de direita, a família de esquerda, a família de esquerda-direita. E em Espanha há uma versão própria da telenovela. O teatro pode tentar desmontar esses mecanismos, como vimos em muitos dos espectáculos que se apresentaram até à data no Festival, entre os restos da arte pop, da performance e da live art, ou ainda contrapor-se a essa oferta, dando a ver peças onde não há heróis, apenas pessoas nas suas circunstâncias, um corpo e um preço a pagar, e a composição dos diferentes pontos de vista sobre os acontecimentos. Mas isso não chegará. Serão precisas, e muito em breve, peças que façam as duas coisas ao mesmo tempo. Até ao fim do Festival, descubra quais são.

Canto triste

O maestro João Paulo Santos dizia outro dia que os cantores líricos portugueses tinham aquilo a que se chama um “canto triste”: a tendência para interpretar toda e qualquer melodia com uma lágrima no canto do olho. Esse sentimentalismo é primo do melodrama e da farsa em que vivemos, digo eu, e faz parte das regras de género teatral que usamos para construir e desconstruir o real: as peças de teatro, o noticiário, a vida. Todos querem saber antes de mais quem é a vítima e o mau da fita, e todos tentam negociar a cotação das personagens na bolsa do protagonismo. A fama é a moeda de troca no mercado da democracia e o sensacionalismo é a bandeja onde se servem as cabeças dos heróis do momento. Enquanto isso, a verdadeira acção desenrola-se por baixo da mesa, sem que possamos imaginar uma forma épica, lírica ou dramática que a exponha. Talvez seja esse o verdadeiro bloqueio do teatro e da política. Enquanto nos regozijamos no sofrimento próprio e alheio, nada fazemos para mudar os papéis, as personagens e as regras do jogo. O Festival de Almada trouxe espectáculos mais do que suficientes para nos ajudar a pensar nisso. Obras escandinavas, ex-jugoslavas, dos PIIGS e até do antigo império franco. A imaginação que nos ata ao destino é a mesma que desata os nós da vidinha. Desliguemos os cabos e pisemos os palcos. O teatro é público.

Apesar de troiana, Cassandra, para nós, é grega. Por muito que a escutemos, os seus avisos não chegarão nunca aos nossos ouvidos. Os seus gestos simples são endereçados à memória. Saberemos o que aconteceu apenas quando for tarde demais. Não deixemos porém, que o canto dela seja triste, nem que o teatro seja posto a um canto.

 

Angélica na China

Angélica Liddell veio a Portugal falar da China, de si e dos seus, com um espectáculo que estreou em Girona no Temporada Alta 2012. Está tudo aqui.

Mirem-se no Mirada

O MIRADA – Festival Iberoamericano de Artes Cénicas de Santos em retrospectiva na Sinais de Cena 19. (De caminho, no mesmo número da revista da APCT, os prémios da crítica.)

A class enemy is something to be

class enemy jumps

Turma de Repetentes, o artigo do ípsilon sobre a versão que Nuno Cardoso fez de Class Enemy, do inglês Nigel Williams, no francês TNBA.

Vestido de Monstro

O artigo sobre a passagem da trilogia Monstro, do Teatro do Vestido, pela SP Escola de Teatro e pelo Festival de Curitiba, aqui.

O melhor de 2012

Dez espectáculos deste ano que eu revia a correr. Dez deles. Ler no Ípsilon

Os Lusíadas (António Fonseca) - António Fonseca sabe Os Lusíadas de cor e salteado. Sozinho em palco, contando piadas sem perder a métrica, consegue fazer jus à beleza poética da obra camoniana e aos genes políticos do poeta inconformado. A falação dos 8.816 versos de Camões marcará a história de todos os lusíadas, incluindo os cem que assistiram às dez horas de decassílabos e as dez famílias que disseram o último canto com o actor. A gesta é de cada um. Regressa em Março, em Lisboa e outras cidades a anunciar.

Estaleiros (Marco Martins) - Este espectáculo é pungente quer pelas histórias de vida dos funcionários dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (que estão prestes a ser privatizados, neste final de 2012), quer pela encenação dessas dores, em especial através da composição de luz e sombra desenhada para elas por Nuno Meira. Os relatos revelam o sacrifício que é construir cada navio, baptizado pelos operários com sangue, suor e lágrimas. Agora estes homens estão parados. Os navios invisíveis nunca partem. Regressa em Abril, em Lisboa.

O medo que o general não tinha (Palmilha Dentada)

Gladys (Elisa Zulueta) - Foi um convite para nos sentarmos à mesa de mais uma família disfuncional do teatro sul-americano, numa ocasião especial, um jantar de Reis. Gladys contou a história do Chile através da história dessa família. Podia ser a de qualquer país traumatizado por uma ditadura recente, por exemplo, Portugal – a diferença está no sentido de humor, bem conhecido das sitcoms mais sofisticadas, que faz o drama passar como comédia televisiva, de tal modo que temos de procurar a alegoria da nação por entre as piadas e os bordões (feitos com mestria pelos actores). Começando por nos desarmar, a peça vai revelando o espelhamento da geração mais velha na geração dos mais novos, e como os tabus de uns ecoam nas liberdades dos outros. A mise-en-scène é impecável, fazendo os seis imparáveis actores correr, lutar, sorrir, cantar e chorar como se o mundo acabasse amanhã. Com personagens, diálogo, situação, enredo e, sobretudo, compaixão, Gladys tem a força do realismo metafórico, um dos mais poderosos trunfos da dramaturgia moderna. Impróprio para snobes.

Fingido e Verdadeiro (Teatro da Cornucópia) - Inspirado na visão de Genet, o trabalho mais recente da Cornucópia teve um ponto alto nesta colagem de textos sobre a figura do mártir S. Gens, actor que se converteu ao cristianismo enquanto representava um baptismo. “Farto de imposturas”, como disse então ao PÚBLICO, Luís Miguel Cintra pôs em cena a sala de ensaios, a mesa do encenador, os volumes copiosos de referências eruditas e o tempo que preside à pesquisa de uma obra artística. Ir à Cornucópia é um dos sacramentos da nossa cultura.

+/- zero (Christoph Marthaler)

O Sr. Ibrahim e as flores do Corão (Teatro Meridional)

Vermelho (Teatro Aberto)

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Ficar em casa?

224

Enquanto não sai a lista dos melhores do ano no Ípsilon, fica aqui uma dica: saiam de casa, como faz o protagonista de O Homem da Flor na Boca, de Pirandello, e vão até ao Pinguim ver o João Melo e o Viriato neste quase monólogo. O empregado serve Vinho do Porto e Pão-de-Ló. Cá em cima, ainda podem ver uma exposição da Escovaria de Belmonte, onde se destaca O Coiso.

1949

E nas mesas, um recorte de jornal dos anos 40 leva-nos para outra época – ou não. O espectáculo começa com um pequeno texto da autoria do João Melo, que faz a introdução dos trabalhos. A interpretação é feita com rigor, imaginação e sinceridade, coisas raras nos dias que correm. Bom ano.

Reviver o passado em Santa Apolónia

Casas Pardas, de Maria Velho da Costa, encenação de Nuno Carinhas
Porto, 9 de Dezembro * * * 1/2

Casas Pardas contém uma promessa de futuro – na ficção, mas também no desempenho dos actores e na liberdade da encenação Ler no Público

O que interessa ao público, e o que interessa ao crítico, neste Casas Pardas do Teatro Nacional São João? Começando pela primeira imagem, interessa o transporte para uma certa classe e uma certa época que a arquitectura do cenário faz, seguido da possibilidade de jogo teatral que a sobreposição de soalho, relvado e terra promete. Aqui poderíamos reviver o passado e anunciar o futuro, diria. Saltando para a última imagem, interessa, e muito, a anunciação profana, invertida, da cena final, em que Elvira (Catarina Lacerda) – tudo menos virgem – derrama pela plateia a descoberta do prazer e o prazer da descoberta, com António (Paulo Moura Lopes).

Estes são dois exemplos de como o espectáculo Casas Pardas atravessa o fosso entre espectador e espectáculo para se materializar num lugar imaginário que é o da cultura do público dessa noite, feito de memórias de vidas passadas e agora daquilo que lhe está a acontecer mesmo ali à nossa frente. A transformação desses e de outros filamentos desta peça em acontecimentos extraordinários, comuns a criadores e a espectadores, garante a teatralidade – e o interesse – deste espectáculo.

Casas Pardas tem diálogos, narração e ainda uma hábil mistura dos dois, trazendo para a cena um português saboroso que só o teatro (nem a TV nem o cinema) se atreve a pronunciar. O poder da prosa nas cenas, porém, varia muito. Sempre que os actores se apossam das palavras da romancista Maria Velho da Costa, adaptadas por Luísa Costa Gomes, e transitam entre a voz das personagens, a voz da personagem narradora e a voz da autora, com fluidez, mas distinguindo-as, o espectáculo levanta voo. Ao contrário, quando misturam os diferentes registos sem os perceber e proferem as sentenças sem as dar a entender, nem ao público, nem às personagens, nem a si mesmos, a obra cai no chão com o peso literário. O mesmo se pode dizer dos corpos, que falam tanto ou mais que os vocábulos: quando se agarram ao texto, realizam-no; quando se ausentam, desguarnecem-no. Dar aos braços e saltitar não significa nada.

O espírito da obra parece ser o de denúncia da decadência da burguesia portuguesa do fim dos anos sessenta, como táctica de sobrevivência da autora. Essa denúncia é formulada nos termos da própria burguesia, tendo como referência uma certa nobreza de valores. As criadas não escapam à denúncia. É a armadilha de caça – ainda que dourada – em que está presa a elite nacional. Quem se salva? A meio da peça, sobressai a imagem do desmemoriado pai de Elvira (Jorge Mota), chegado nesses dias à estação de Santa Apolónia, e agora acordando sobressaltado a meio da noite, sem saber onde se encontra. O homem repete para a filha: “Quem és tu?”. Aqui há uma promessa de futuro. A inocência de ambos contrasta com a hipocrisia que a autora denuncia, e da qual nem a própria se safa. Nessa impossibilidade de reviver o passado está a esperança desta encenação – na ficção, mas também no desempenho dos actores e na liberdade da encenação.

metacrítica

Este espectáculo pode ser avaliado por comparação com o romance original, ou com o que o encenador se propôs fazer (tal como enunciado no programa e na imprensa), mas não pode ser comparado com outra versão, que não existe, nem com o que poderia ser, que isso é inimaginável. Ou nem tanto. Talvez seja possível, a partir do romance e dos materiais disponíveis sobre ele e/ou sobre a época (por exemplo, até, os do como sempre excelente Manual de Leitura do TNSJ), imaginar um outro espectáculo e criticar este em função desse. Ou ainda, a espaços, comparar uma cena em particular com outra cena de outra peça, que se recorde subitamente; ou a interpretação de uma acção (por exemplo, defender um genro) com outra similar, vista noutro espectáculo; ou ainda um actor com outro, deste mesmo elenco. «Quem és tu?», a pergunta do pai de Elvira, cria uma ligação com a versão de Frei Luís de Sousa, que também era sobre os anos sessenta, montada por José Wallenstein neste mesmo palco. A mudança constante entre os tempos presente e passados e a permanência traz à memória a encenação de The Sound and The Fury, de Faulkner, pelo Elevator Repair Service, apresentada na Culturgest. E o terramoto, com a mesa de jantar cheia de copos imóveis, evoca o a mesa cheia de cálices coloridos de Discurso, do chileno Guillermo Calderón, vista na Gulbenkian. O crítico tem que ter olhos para ver o que não se vê.

O fim do mundo segue dentro de momentos

A anunciada mudança de paradigma na atribuição dos apoios públicos às artes é uma verdadeira revolução cultural – com sinais positivos e sinais negativos Ler no Público

A meio deste mês de Novembro, o secretário de Estado da Cultura (SEC) anunciou uma mudança de paradigma por decreto, aliás, por portaria. No espaço de dias, foi posto em marcha um plano de reformulação dos apoios públicos às artes que agora inclui as autarquias, chamadas à liça ao fim de anos. Cerca de metade do orçamento para as artes passará a ser distribuído de acordo com o arbítrio dos serviços da Direcção-Geral das Artes (DGArtes), isto é, sem júri externo. Essa fatia irá para os chamados acordos tripartidos, projectos desenvolvidos com a cumplicidade das autarquias locais, segundo critérios que privilegiam como nunca a cooperação entre artistas e entidades, o ensino artístico e a formação de públicos. Os apoios directos (o corte é de 75% em relação a 2009) serão destinados a muito menos estruturas. A paisagem vai mudar. É a revolução cultural.

Ponhamos de lado, na esperança de que o esforço compense, a ideia de que os servidores públicos não sabem o que fazem ou agem em desconhecimento de causa. Não é por serem vilões numa fita de segunda que os novos titulares da governação cultural se propõem fazer esta mudança. O SEC tem um objectivo, ou até uma política, o que não é necessariamente mau. Necessariamente má, e determinando tudo, é a ínfima fatia orçamental que o Governo destinou à cultura, em comparação com outras áreas. A abstinência cultural de Pedro Passos Coelho e Paulo Portas não é um acaso, nem uma necessidade, é uma escolha. O Governo prefere investir noutras coisas, sem noção dos benefícios que teria o país, nem do prejuízo que causa, com essas prioridades. Infelizmente para todos, é um desgoverno. Mas, com ainda maior esforço, ponhamos também isso de lado, apenas por momentos.

No início de Dezembro, a DGArtes realizará sessões de esclarecimento sobre os concursos. Será a quarta vez, pelo menos, que os responsáveis saem em missão pelo território, tentando conhecer os colectivos artísticos, os equipamentos culturais e as autarquias locais.

Os resultados estão online. A informação sobre os apoios concedidos agora é divulgada. Mas certamente existem dados mais detalhados que permitiriam um retrato mais fino. Não se sabe, por exemplo, quantos dias por ano os teatros abrem e as companhias fazem récitas, a não ser como um todo. Nem, já agora, quanto custa ao erário público, em média, um espectador do Teatro Nacional de São Carlos, por exemplo, ou de uma peça que, por hipótese, tenha sido escrita por este vosso correspondente. Porém, os dados estatísticos – publicados ou não – parecem constituir a base para a tomada de decisões. O exemplo concreto disso é que, com este concurso, e ao fim de muitos anos, a região Norte terá um orçamento per capita semelhante, e não abaixo, do das outras regiões. A DGArtes terá uma ideia muito clara do que pode acontecer com o concurso, especula-se.

Tutelando estes concursos está um novo secretário de Estado da Cultura, que por um lado é fresco, mas por outro conhece bem o meio, tendo sido também Director-Geral das Artes. Jorge Barreto Xavier tem o apoio, ou pelo menos o benefício da dúvida, da classe artística e, com a crise que a tudo obriga, a oportunidade de fazer as mudanças que quiser. Até agora, as medidas eram tomadas a olho. Com este novo paradigma, a actividade cultural será definida a régua e esquadro.

Não vivíamos no melhor dos mundos, nem as vacas eram tão gordas assim. Mas as coisas parecem ir de mal a pior. Apesar dos sinais positivos (continuando posta de lado a miserável política governamental), há um aspecto à primeira vista negativo: as autarquias. Para alguns criadores, talvez para o cidadão comum, é assustadora a inclusão no processo de presidentes de Câmara, vereadores a meio tempo e programadores de vão de escada. Se até agora não deram conta do recado, há razões para suspeitar que não mudarão para melhor.

As câmaras não são todas iguais, claro, e para cada mau exemplo certamente haverá um caso exemplar. Coimbra terá de escolher quais as estruturas que apoia: O Teatrão (com o qual colaboro), a Escola da Noite, o Centro de Artes Visuais, a Orquestra do Centro? Em Braga, ao fim de tantos anos, sobram apenas, infelizmente, o Theatro Circo e a Companhia de Teatro de Braga. Em Aveiro, é a incógnita das incógnitas. Em Lisboa, o Teatro Taborda e o Teatro Aberto continuarão a ser ocupados, cada um, por uma única companhia (respectivamente, o Teatro da Garagem e o homónimo Teatro Aberto)? É difícil saber. O caso mais bicudo, porém, é o do Porto. No ano em que se compensa, relativamente, a verba para o desenvolvimento cultural no Norte, a política cultural da Câmara Municipal do Porto continua a não fazer jus à fama da cidade de Garrett, e a deslustrar Serralves, a Casa da Música e o Teatro Nacional de São João, para não falar da efervescente cultura informal. A solução até poderia ser uma associação que juntasse Ensemble, Assédio, Bolhão, por exemplo, ou As Boas, o Bruto, o Plástico, as Visões – no Rivoli, porque não? Uma distopia, claro. O próprio FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, que seria o candidato ideal a um acordo tripartido, quem sabe com outros festivais e outras autarquias, ficará de fora? Teremos de esperar pela eleição de Luís Filipe Menezes para ver o Teatro Experimental do Porto regressar ao Porto? Enfim, futurologia à parte, articular recursos humanos, ou melhor, juntar pessoas, ter programas estratégicos comuns, gerir em conjunto espaços e material técnico talvez seja uma utopia, mas não é uma má ideia.

Os apoios tripartidos são uma oportunidade para artistas, autarcas e administração central adoptarem políticas de desenvolvimento local e regional realmente transformadoras, em nome do público; mas redundarão em nada, num futuro muito próximo, se não for feito um verdadeiro esforço de cooperação. Em Dezembro, quando forem apresentados à DGArtes os mais variados projectos artísticos. Nessa altura nem paradigma haverá para mudar.

Festival com eleições em fundo (Temporada Alta 2012)

Uma festa imperdível

A Catalunha também tem festival de outono; ou melhor, de tardor. O Temporada Alta, na 21ª edição, é um dos mais completos festivais europeus, com muito teatro, e ainda música, dança e circo para todos os gostos. Este ano, apesar do corte de um terço do orçamento, manteve a fasquia no alto, com setenta espectáculos desde 4 Outubro a 9 de Dezembro.

A festa é o regalo de Girona e de Salt, cidades encostadas uma à outra, e de Barcelona, a 100 km. Desde 2000 que o festival tem uma taxa de ocupação de salas de 90%. Salas cheias e o aplauso generalizado da crítica comprovam o êxito. Durante dois meses, o espectador pode fazer as mais variadas combinações, que acabará sempre com vários espectáculos de topo, como a encenação de Declan Donnelan, para uma companhia russa, de As Três Irmãs, de Tchekhov; mais um Shakespeare, Noite de Reis, da companhia britânica Proppeler; a dramaturgia catalã de Jordi Casanovas, com Pàtria; o último de La Zaranda, El Régimen del Pienso; ou ainda Jan Fabre, Neil Hannon, e o português Paulo Lameiro, com a sua música para bebés.

O Festival de Tardor de Catalunya, como é designado desde 2006, é uma festa das artes, mas também uma operação diplomática em nome da cultura. Em pleno período eleitoral, com a independência da Catalunha no centro do debate, o festival apresentou 11 propostas ao público em geral e a mais de 60 programadores de França, Itália, Austria, Alemanha e, claro, Espanha. Como reagem os criadores a este contexto? Para Joaquim Armengol, crítico do Punt/Avui, a peça Pàtria, por exemplo, que “pretendia ser uma crítica aos políticos e à sua demagogia, não se atreveu a explicar a realidade.” A realidade? “Que os partidos, em especial o partido que vai ganhar as eleições, são corruptos; esta ficção não chega ao fundo das questões”, conclui.

A última peça de Angélica Liddell, que recebeu este ano o Prémio Nacional de Arte Dramática de Espanha, abriu o fim-de-semana prolongado. Em estreia mundial, Ping Pang Qiu debruça-se sobre as réplicas da Revolução Cultural maoista do final dos anos 60 na China de hoje, onde a liberdade de expressão é reprimida. Dedicado à “beleza da cultura milenar chinesa”, o espectáculo tem ainda outro epicentro: a ausência de uma instrumentista chinesa que faria prova dessa tradição, e o relato dos motivos da sua ausência, que testemunham a censura violentíssima exercida sobre todos os chineses. “Não posso dizer mal do meu país”, argumentou a instrumentista, agora radicada em Espanha, mas que na época, adolescente, viu o seu professor de música ser torturado em público. «Vocês dizem mal de Espanha?» O público da estreia, composto também por admiradores, que conhecem bem o percurso da artista, segundo a própria Liddell, aplaudiu de pé esta viagem à China que há dentro dela. Para Armengol, Liddell, apesar de falar da China, “está a falar da política catalã, das suas misérias e do seu cinismo, que como demonstrou, são universais”. Questionada sobre como via actualmente a democracia em Espanha, Angélica Liddel respondeu: “sofro mais para decidir se voto ou não voto, do que para decidir em quem votaria”, afirmou.

Play, do bailarino e coreógrafo de origem marroquina Sidi Larbi Cherkaoui com a actriz e bailariana indiana Shantalla Shivalingappa, da companhia de Pina Bausch, também se inspira nas tradições não europeias, nomeadamente no testemunho do francês Matthieu Ricard, tornado monge budista e tradutor do Dalai Lama, revelaram em declarações ao Público. O espectáculo trata da felicidade que se encontra na prática do jogo e da representação, sentidos contidos no próprio título do espectáculo. Com quatro músicos em cena, os dois bailarinos apresentam uma série de jogos coreográficos que vão acumulando esperança e contentamento até alcançar a plenitude emocional.

Estas eram as duas propostas mais fortes para mostrar aos programadores dos teatros europeus. A tónica destes dias foi posta em produções que não dependem tanto da língua. Os outros dois destaques foram Big Berberecho, uma farsa, falada numa língua inventada, sobre dois pescadores que encontram um berbigão gigante, de e com Jordi Oriol e Oriol Vila, muito bons actores, e capazes de compor um enredo cómico; e Mazùt (na foto), uma extraordinária composição de novo circo, inspirada no movimento dos cavalos, sobre a liberdade animal do espírito e do corpo humanos, de e com Blaï Mateu Trias e Camille Decourtye, herdeiros da tradição circense da região, juntos na companhia franco-catalã Baród’ Evel Cirk.

 

Sobreviver aos cortes

O propósito deste encontro de programadores é “incentivar as trocas e as co-produções” , revelou Salvador Sunyer, fundador e director do Festival. Essa será a estratégia para sobreviver aos cortes, mais violentos nuns países que noutros, que já se fizeram ou que se anunciam. “Algumas obras são co-produzidas por mais 20 entidades diferentes, o que permite que a contribuição de cada uma seja relativamente baixa, e que ao mesmo tempo sem crie uma carreira de digressão para os espectáculos.” Durante o encontro de programadores, o Festival de Avignon apresentou aos parceiros o novo espectáculo de Vincent Macaigne. O Festival de Viena, o maior festival europeu, com 14 milhões de euros de orçamento, a nova produção de Angélica Liddell, que fechará com uma obra dedicada à Síndrome de Wendy a sua trilogia da China. O próximo espectáculo de Sidi Larbi Cherkaoui também estreará em Viena.

O Temporada Alta começou em 1992, “com quatro espectáculos e um milhão de pesetas” (seis mil euros) de apoio público, recorda Sunyer. O ano passado teve quase cem espectáculos. Este crescimento deveu-se a um programa europeu com a cidade de Perpignan, no âmbito do qual foram ainda construídos dois teatros, um de cada lado da fronteira. Em Salt foi criado o novíssimo El Canal – Centre d’Arts Escèniques Salt / Girona, numa antiga fábrica têxtil, de que Sunyer se lembra bem, porque era onde trabalhava a sua avó. Mas o festival decorre em treze espaços, desde o Teatro Municipal, com a decoração a vermelho e dourado e o palco à italiana das salas do séc. XIX, passando por naves de fábricas e igrejas convertidas em auditórios, até ao L’animal a L’esquena, um estúdio de dança em pleno campo, numa antiga quinta, entre lagares em ruínas e adegas com pipas abandonadas – onde foi criado, em parte, Mazut. E claro, à noite, na parte histórica de Girona, entre arcos e colunas de pedra, no topo das escadarias que trepam o call jueo, antigo bairro judeu, são recebidos nos restaurantes de charme os espectadores e os criadores, para provar as iguarias da afamada gastronomia espanhola, catalã, basca, etc. A própria autarquia promove um programa turístico especial, a Escapada Escénica, com descontos na estadia e nas entradas nos espectáculos.

Em dia de eleições, apresentou-se ainda Nueva Marinaleda, uma peça passada no ano 2112, depois de ter triunfado a revolução do 15 de Março. Na ressaca dos resultados, segunda-feira, terá lugar a segunda meia-final do II Torneio de Dramaturgia Catalã, uma competição por eliminatórias que põe em confronto oito escritores, como se fosse uma prova desportiva. Apesar de ser uma plataforma internacional e transfronteiriça, ou talvez por isso mesmo, o Temporada Alta está bem enraizado na realidade local.

Para memória futura (Teatro do Vestido)

Esta é a minha cidade e eu quero viver nela, de Joana Craveiro
Porto, 27 de Março * * * *

Esta obra consiste num percurso pelo casco velho que circunda o mosteiro beneditino da Vitória, durante o qual são apresentadas sete cenas, por sete actores, em sete itinerários diferentes, apresentadas ora nas ruas, largos e jardins ora no interior de algumas casas e estabelecimentos da zona, e umas vezes em andamento, outras vezes parados. O trabalho parte de um dispositivo experimentado em Lisboa, mas adaptado e reescrito para o Porto. Esta versão inclui histórias e testemunhos recolhidos junto dos moradores durante as cerca de duas semanas de criação, mas também outro tipo de fontes, desde textos e canções até imagens e objectos: todo um inventário de coisas que possam ter significado para os actores e para o público, ao qual é proposto que complete na sua imaginação parte das histórias que aqui começam a ser contadas. Não se deve relevar mais do que isto, sob pena de estragar a surpresa.

No dia em que foi visto, os populares ainda disputavam com os actores a atenção da plateia, discordando sobre o nome das ruas e a verdade dos factos relatados, refazendo a ocupação do espaço cénico conforme lhes apetecia e intervindo na paisagem sonora segundo a necessidade e o desejo. Nada de grave. Os moradores limitavam-se a invocar os anos de residência no bairro, com a vantagem de estarem à janela da própria casa, e a comentar para o público ou para os vizinhos tanto o que se estava a passar como assuntos particulares e notícias locais. Talvez não fizesse mal ser um pouco mais permeável às reacções espontâneas de espectadores e moradores. Mas, por um lado, o grande objectivo da obra – traçar um novo mapa poético desta zona da cidade e dar direito de cidadania aos episódios e personagens mais inesperados – pedia uma certa imposição de formas e assuntos. Por outro, a existência de sete grupos a circular pela zona não aconselhava demoras e atrasos.

As ruas do Porto, com os seus muros de granito, fachadas de azulejo, obras de cantaria barroca e clarabóias quase escondidas, oferecem ao transeunte uma memória narrada e revivida desde há muito. O espectáculo aposta numa nova versão da história dessas ruas e casas, agora mais quotidiana, mais fantástica, mais cosmopolita. Onde antes havia a história oficial e monumental, a das monografias, guias de viagem e dicas de turismo religioso para o visitante desprevenido, ou onde a referência da memória era o passeio mais ou menos romântico do flâneur do séc. XIX e o espírito mais ou menos ausente de Garrett ou Camilo, entre outros, este espectáculo cria novas fábulas, apresentadas por figuras excêntricas e misteriosas, que nos dão a ver outro Porto. Apropriando-se do território pelo simples acto de contar histórias, estes outros fantasmas assombram bem a cidade, ou pelo menos a freguesia da Vitória, reclamando esta terra como sua, sem deixar de a relacionar com o mundo exterior de que a Invicta sempre foi uma antena. Vá ver e invente a sua história.

PESSOAS E ÁRVORES (MIRADA 2012)

“Eu sabia que elas tinham olhos e nos observavam, elas nos vêem.” – disse uma espectadora de Lorena. #Simbyosis é um projecto de Roberta Carvalho, artista digital de Belém do Pará, que todas as noites põe as árvores a olhar para nós com olhos de gente. E nós a vermos as árvores com outros olhos. Será o perspectivismo de Viveiros de Castro? O melhor, porém, é ver as árvores sem projecção, à luz do dia, as folhas resfolegando ao vento. A lembrança das caras faz com que a árvore pareça viva (que está).

[vimeo http://vimeo.com/20380252%5D
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