O melhor de 2012

Dez espectáculos deste ano que eu revia a correr. Dez deles. Ler no Ípsilon

Os Lusíadas (António Fonseca) - António Fonseca sabe Os Lusíadas de cor e salteado. Sozinho em palco, contando piadas sem perder a métrica, consegue fazer jus à beleza poética da obra camoniana e aos genes políticos do poeta inconformado. A falação dos 8.816 versos de Camões marcará a história de todos os lusíadas, incluindo os cem que assistiram às dez horas de decassílabos e as dez famílias que disseram o último canto com o actor. A gesta é de cada um. Regressa em Março, em Lisboa e outras cidades a anunciar.

Estaleiros (Marco Martins) - Este espectáculo é pungente quer pelas histórias de vida dos funcionários dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (que estão prestes a ser privatizados, neste final de 2012), quer pela encenação dessas dores, em especial através da composição de luz e sombra desenhada para elas por Nuno Meira. Os relatos revelam o sacrifício que é construir cada navio, baptizado pelos operários com sangue, suor e lágrimas. Agora estes homens estão parados. Os navios invisíveis nunca partem. Regressa em Abril, em Lisboa.

O medo que o general não tinha (Palmilha Dentada)

O texto deste espectáculo é uma torrente que só tem paralelo no modo irrequieto como Rodrigo Santos salta de personagem em personagem, é ele próprio, volta à personagem, interage com o espectador e ainda improvisa. Um desassossego que serve o tema: o medo, ou a falta dele, ou a coragem para o enfrentar, ou a inconsciência que é fazer espectáculos de teatro em Portugal, em especial sobre temas tão ideologicamente vigiados como o da resistência à ditadura salazarista. Uma medalha de mau-comportamento. Regressa em Março, no Porto.

Esta é a minha cidade (Teatro do Vestido) - Sete cenas para sete actores em ruas, largos, jardins, casas e estabelecimentos comerciais da zona do Mosteiro de São Bento da Vitória, no Porto, disputaram com o público e os moradores locais as versões do que é esta cidade. Partindo de um dispositivo experimentado em Lisboa, mas adaptado e reescrito para o Porto, o Teatro do Vestido traçou um novo mapa poético da Vitória, assente numa teatralização dos lugares que deve muito à literatura e à performance, mas sobretudo ao desejo de encontrar interlocutores concretos num mundo onde o espectáculo das imagens é o real.

Nora (Tg STAN)

Anjos com fome (Teatro Meridional)

Gladys (Elisa Zulueta) - Foi um convite para nos sentarmos à mesa de mais uma família disfuncional do teatro sul-americano, numa ocasião especial, um jantar de Reis. Gladys contou a história do Chile através da história dessa família. Podia ser a de qualquer país traumatizado por uma ditadura recente, por exemplo, Portugal – a diferença está no sentido de humor, bem conhecido das sitcoms mais sofisticadas, que faz o drama passar como comédia televisiva, de tal modo que temos de procurar a alegoria da nação por entre as piadas e os bordões (feitos com mestria pelos actores). Começando por nos desarmar, a peça vai revelando o espelhamento da geração mais velha na geração dos mais novos, e como os tabus de uns ecoam nas liberdades dos outros. A mise-en-scène é impecável, fazendo os seis imparáveis actores correr, lutar, sorrir, cantar e chorar como se o mundo acabasse amanhã. Com personagens, diálogo, situação, enredo e, sobretudo, compaixão, Gladys tem a força do realismo metafórico, um dos mais poderosos trunfos da dramaturgia moderna. Impróprio para snobes.

Fingido e Verdadeiro (Teatro da Cornucópia) - Inspirado na visão de Genet, o trabalho mais recente da Cornucópia teve um ponto alto nesta colagem de textos sobre a figura do mártir S. Gens, actor que se converteu ao cristianismo enquanto representava um baptismo. “Farto de imposturas”, como disse então ao PÚBLICO, Luís Miguel Cintra pôs em cena a sala de ensaios, a mesa do encenador, os volumes copiosos de referências eruditas e o tempo que preside à pesquisa de uma obra artística. Ir à Cornucópia é um dos sacramentos da nossa cultura.

+/- zero (Christoph Marthaler)

O Sr. Ibrahim e as flores do Corão (Teatro Meridional)

Vermelho (Teatro Aberto)

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Ficar em casa?

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Enquanto não sai a lista dos melhores do ano no Ípsilon, fica aqui uma dica: saiam de casa, como faz o protagonista de O Homem da Flor na Boca, de Pirandello, e vão até ao Pinguim ver o João Melo e o Viriato neste quase monólogo. O empregado serve Vinho do Porto e Pão-de-Ló. Cá em cima, ainda podem ver uma exposição da Escovaria de Belmonte, onde se destaca O Coiso.

1949

E nas mesas, um recorte de jornal dos anos 40 leva-nos para outra época – ou não. O espectáculo começa com um pequeno texto da autoria do João Melo, que faz a introdução dos trabalhos. A interpretação é feita com rigor, imaginação e sinceridade, coisas raras nos dias que correm. Bom ano.

Reviver o passado em Santa Apolónia

Casas Pardas, de Maria Velho da Costa, encenação de Nuno Carinhas
Porto, 9 de Dezembro * * * 1/2

Casas Pardas contém uma promessa de futuro – na ficção, mas também no desempenho dos actores e na liberdade da encenação Ler no Público

O que interessa ao público, e o que interessa ao crítico, neste Casas Pardas do Teatro Nacional São João? Começando pela primeira imagem, interessa o transporte para uma certa classe e uma certa época que a arquitectura do cenário faz, seguido da possibilidade de jogo teatral que a sobreposição de soalho, relvado e terra promete. Aqui poderíamos reviver o passado e anunciar o futuro, diria. Saltando para a última imagem, interessa, e muito, a anunciação profana, invertida, da cena final, em que Elvira (Catarina Lacerda) – tudo menos virgem – derrama pela plateia a descoberta do prazer e o prazer da descoberta, com António (Paulo Moura Lopes).

Estes são dois exemplos de como o espectáculo Casas Pardas atravessa o fosso entre espectador e espectáculo para se materializar num lugar imaginário que é o da cultura do público dessa noite, feito de memórias de vidas passadas e agora daquilo que lhe está a acontecer mesmo ali à nossa frente. A transformação desses e de outros filamentos desta peça em acontecimentos extraordinários, comuns a criadores e a espectadores, garante a teatralidade – e o interesse – deste espectáculo.

Casas Pardas tem diálogos, narração e ainda uma hábil mistura dos dois, trazendo para a cena um português saboroso que só o teatro (nem a TV nem o cinema) se atreve a pronunciar. O poder da prosa nas cenas, porém, varia muito. Sempre que os actores se apossam das palavras da romancista Maria Velho da Costa, adaptadas por Luísa Costa Gomes, e transitam entre a voz das personagens, a voz da personagem narradora e a voz da autora, com fluidez, mas distinguindo-as, o espectáculo levanta voo. Ao contrário, quando misturam os diferentes registos sem os perceber e proferem as sentenças sem as dar a entender, nem ao público, nem às personagens, nem a si mesmos, a obra cai no chão com o peso literário. O mesmo se pode dizer dos corpos, que falam tanto ou mais que os vocábulos: quando se agarram ao texto, realizam-no; quando se ausentam, desguarnecem-no. Dar aos braços e saltitar não significa nada.

O espírito da obra parece ser o de denúncia da decadência da burguesia portuguesa do fim dos anos sessenta, como táctica de sobrevivência da autora. Essa denúncia é formulada nos termos da própria burguesia, tendo como referência uma certa nobreza de valores. As criadas não escapam à denúncia. É a armadilha de caça – ainda que dourada – em que está presa a elite nacional. Quem se salva? A meio da peça, sobressai a imagem do desmemoriado pai de Elvira (Jorge Mota), chegado nesses dias à estação de Santa Apolónia, e agora acordando sobressaltado a meio da noite, sem saber onde se encontra. O homem repete para a filha: “Quem és tu?”. Aqui há uma promessa de futuro. A inocência de ambos contrasta com a hipocrisia que a autora denuncia, e da qual nem a própria se safa. Nessa impossibilidade de reviver o passado está a esperança desta encenação – na ficção, mas também no desempenho dos actores e na liberdade da encenação.

metacrítica

Este espectáculo pode ser avaliado por comparação com o romance original, ou com o que o encenador se propôs fazer (tal como enunciado no programa e na imprensa), mas não pode ser comparado com outra versão, que não existe, nem com o que poderia ser, que isso é inimaginável. Ou nem tanto. Talvez seja possível, a partir do romance e dos materiais disponíveis sobre ele e/ou sobre a época (por exemplo, até, os do como sempre excelente Manual de Leitura do TNSJ), imaginar um outro espectáculo e criticar este em função desse. Ou ainda, a espaços, comparar uma cena em particular com outra cena de outra peça, que se recorde subitamente; ou a interpretação de uma acção (por exemplo, defender um genro) com outra similar, vista noutro espectáculo; ou ainda um actor com outro, deste mesmo elenco. «Quem és tu?», a pergunta do pai de Elvira, cria uma ligação com a versão de Frei Luís de Sousa, que também era sobre os anos sessenta, montada por José Wallenstein neste mesmo palco. A mudança constante entre os tempos presente e passados e a permanência traz à memória a encenação de The Sound and The Fury, de Faulkner, pelo Elevator Repair Service, apresentada na Culturgest. E o terramoto, com a mesa de jantar cheia de copos imóveis, evoca o a mesa cheia de cálices coloridos de Discurso, do chileno Guillermo Calderón, vista na Gulbenkian. O crítico tem que ter olhos para ver o que não se vê.

O fim do mundo segue dentro de momentos

A anunciada mudança de paradigma na atribuição dos apoios públicos às artes é uma verdadeira revolução cultural – com sinais positivos e sinais negativos Ler no Público

A meio deste mês de Novembro, o secretário de Estado da Cultura (SEC) anunciou uma mudança de paradigma por decreto, aliás, por portaria. No espaço de dias, foi posto em marcha um plano de reformulação dos apoios públicos às artes que agora inclui as autarquias, chamadas à liça ao fim de anos. Cerca de metade do orçamento para as artes passará a ser distribuído de acordo com o arbítrio dos serviços da Direcção-Geral das Artes (DGArtes), isto é, sem júri externo. Essa fatia irá para os chamados acordos tripartidos, projectos desenvolvidos com a cumplicidade das autarquias locais, segundo critérios que privilegiam como nunca a cooperação entre artistas e entidades, o ensino artístico e a formação de públicos. Os apoios directos (o corte é de 75% em relação a 2009) serão destinados a muito menos estruturas. A paisagem vai mudar. É a revolução cultural.

Ponhamos de lado, na esperança de que o esforço compense, a ideia de que os servidores públicos não sabem o que fazem ou agem em desconhecimento de causa. Não é por serem vilões numa fita de segunda que os novos titulares da governação cultural se propõem fazer esta mudança. O SEC tem um objectivo, ou até uma política, o que não é necessariamente mau. Necessariamente má, e determinando tudo, é a ínfima fatia orçamental que o Governo destinou à cultura, em comparação com outras áreas. A abstinência cultural de Pedro Passos Coelho e Paulo Portas não é um acaso, nem uma necessidade, é uma escolha. O Governo prefere investir noutras coisas, sem noção dos benefícios que teria o país, nem do prejuízo que causa, com essas prioridades. Infelizmente para todos, é um desgoverno. Mas, com ainda maior esforço, ponhamos também isso de lado, apenas por momentos.

No início de Dezembro, a DGArtes realizará sessões de esclarecimento sobre os concursos. Será a quarta vez, pelo menos, que os responsáveis saem em missão pelo território, tentando conhecer os colectivos artísticos, os equipamentos culturais e as autarquias locais.

Os resultados estão online. A informação sobre os apoios concedidos agora é divulgada. Mas certamente existem dados mais detalhados que permitiriam um retrato mais fino. Não se sabe, por exemplo, quantos dias por ano os teatros abrem e as companhias fazem récitas, a não ser como um todo. Nem, já agora, quanto custa ao erário público, em média, um espectador do Teatro Nacional de São Carlos, por exemplo, ou de uma peça que, por hipótese, tenha sido escrita por este vosso correspondente. Porém, os dados estatísticos – publicados ou não – parecem constituir a base para a tomada de decisões. O exemplo concreto disso é que, com este concurso, e ao fim de muitos anos, a região Norte terá um orçamento per capita semelhante, e não abaixo, do das outras regiões. A DGArtes terá uma ideia muito clara do que pode acontecer com o concurso, especula-se.

Tutelando estes concursos está um novo secretário de Estado da Cultura, que por um lado é fresco, mas por outro conhece bem o meio, tendo sido também Director-Geral das Artes. Jorge Barreto Xavier tem o apoio, ou pelo menos o benefício da dúvida, da classe artística e, com a crise que a tudo obriga, a oportunidade de fazer as mudanças que quiser. Até agora, as medidas eram tomadas a olho. Com este novo paradigma, a actividade cultural será definida a régua e esquadro.

Não vivíamos no melhor dos mundos, nem as vacas eram tão gordas assim. Mas as coisas parecem ir de mal a pior. Apesar dos sinais positivos (continuando posta de lado a miserável política governamental), há um aspecto à primeira vista negativo: as autarquias. Para alguns criadores, talvez para o cidadão comum, é assustadora a inclusão no processo de presidentes de Câmara, vereadores a meio tempo e programadores de vão de escada. Se até agora não deram conta do recado, há razões para suspeitar que não mudarão para melhor.

As câmaras não são todas iguais, claro, e para cada mau exemplo certamente haverá um caso exemplar. Coimbra terá de escolher quais as estruturas que apoia: O Teatrão (com o qual colaboro), a Escola da Noite, o Centro de Artes Visuais, a Orquestra do Centro? Em Braga, ao fim de tantos anos, sobram apenas, infelizmente, o Theatro Circo e a Companhia de Teatro de Braga. Em Aveiro, é a incógnita das incógnitas. Em Lisboa, o Teatro Taborda e o Teatro Aberto continuarão a ser ocupados, cada um, por uma única companhia (respectivamente, o Teatro da Garagem e o homónimo Teatro Aberto)? É difícil saber. O caso mais bicudo, porém, é o do Porto. No ano em que se compensa, relativamente, a verba para o desenvolvimento cultural no Norte, a política cultural da Câmara Municipal do Porto continua a não fazer jus à fama da cidade de Garrett, e a deslustrar Serralves, a Casa da Música e o Teatro Nacional de São João, para não falar da efervescente cultura informal. A solução até poderia ser uma associação que juntasse Ensemble, Assédio, Bolhão, por exemplo, ou As Boas, o Bruto, o Plástico, as Visões – no Rivoli, porque não? Uma distopia, claro. O próprio FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, que seria o candidato ideal a um acordo tripartido, quem sabe com outros festivais e outras autarquias, ficará de fora? Teremos de esperar pela eleição de Luís Filipe Menezes para ver o Teatro Experimental do Porto regressar ao Porto? Enfim, futurologia à parte, articular recursos humanos, ou melhor, juntar pessoas, ter programas estratégicos comuns, gerir em conjunto espaços e material técnico talvez seja uma utopia, mas não é uma má ideia.

Os apoios tripartidos são uma oportunidade para artistas, autarcas e administração central adoptarem políticas de desenvolvimento local e regional realmente transformadoras, em nome do público; mas redundarão em nada, num futuro muito próximo, se não for feito um verdadeiro esforço de cooperação. Em Dezembro, quando forem apresentados à DGArtes os mais variados projectos artísticos. Nessa altura nem paradigma haverá para mudar.

Festival com eleições em fundo (Temporada Alta 2012)

Uma festa imperdível

A Catalunha também tem festival de outono; ou melhor, de tardor. O Temporada Alta, na 21ª edição, é um dos mais completos festivais europeus, com muito teatro, e ainda música, dança e circo para todos os gostos. Este ano, apesar do corte de um terço do orçamento, manteve a fasquia no alto, com setenta espectáculos desde 4 Outubro a 9 de Dezembro.

A festa é o regalo de Girona e de Salt, cidades encostadas uma à outra, e de Barcelona, a 100 km. Desde 2000 que o festival tem uma taxa de ocupação de salas de 90%. Salas cheias e o aplauso generalizado da crítica comprovam o êxito. Durante dois meses, o espectador pode fazer as mais variadas combinações, que acabará sempre com vários espectáculos de topo, como a encenação de Declan Donnelan, para uma companhia russa, de As Três Irmãs, de Tchekhov; mais um Shakespeare, Noite de Reis, da companhia britânica Proppeler; a dramaturgia catalã de Jordi Casanovas, com Pàtria; o último de La Zaranda, El Régimen del Pienso; ou ainda Jan Fabre, Neil Hannon, e o português Paulo Lameiro, com a sua música para bebés.

O Festival de Tardor de Catalunya, como é designado desde 2006, é uma festa das artes, mas também uma operação diplomática em nome da cultura. Em pleno período eleitoral, com a independência da Catalunha no centro do debate, o festival apresentou 11 propostas ao público em geral e a mais de 60 programadores de França, Itália, Austria, Alemanha e, claro, Espanha. Como reagem os criadores a este contexto? Para Joaquim Armengol, crítico do Punt/Avui, a peça Pàtria, por exemplo, que “pretendia ser uma crítica aos políticos e à sua demagogia, não se atreveu a explicar a realidade.” A realidade? “Que os partidos, em especial o partido que vai ganhar as eleições, são corruptos; esta ficção não chega ao fundo das questões”, conclui.

A última peça de Angélica Liddell, que recebeu este ano o Prémio Nacional de Arte Dramática de Espanha, abriu o fim-de-semana prolongado. Em estreia mundial, Ping Pang Qiu debruça-se sobre as réplicas da Revolução Cultural maoista do final dos anos 60 na China de hoje, onde a liberdade de expressão é reprimida. Dedicado à “beleza da cultura milenar chinesa”, o espectáculo tem ainda outro epicentro: a ausência de uma instrumentista chinesa que faria prova dessa tradição, e o relato dos motivos da sua ausência, que testemunham a censura violentíssima exercida sobre todos os chineses. “Não posso dizer mal do meu país”, argumentou a instrumentista, agora radicada em Espanha, mas que na época, adolescente, viu o seu professor de música ser torturado em público. «Vocês dizem mal de Espanha?» O público da estreia, composto também por admiradores, que conhecem bem o percurso da artista, segundo a própria Liddell, aplaudiu de pé esta viagem à China que há dentro dela. Para Armengol, Liddell, apesar de falar da China, “está a falar da política catalã, das suas misérias e do seu cinismo, que como demonstrou, são universais”. Questionada sobre como via actualmente a democracia em Espanha, Angélica Liddel respondeu: “sofro mais para decidir se voto ou não voto, do que para decidir em quem votaria”, afirmou.

Play, do bailarino e coreógrafo de origem marroquina Sidi Larbi Cherkaoui com a actriz e bailariana indiana Shantalla Shivalingappa, da companhia de Pina Bausch, também se inspira nas tradições não europeias, nomeadamente no testemunho do francês Matthieu Ricard, tornado monge budista e tradutor do Dalai Lama, revelaram em declarações ao Público. O espectáculo trata da felicidade que se encontra na prática do jogo e da representação, sentidos contidos no próprio título do espectáculo. Com quatro músicos em cena, os dois bailarinos apresentam uma série de jogos coreográficos que vão acumulando esperança e contentamento até alcançar a plenitude emocional.

Estas eram as duas propostas mais fortes para mostrar aos programadores dos teatros europeus. A tónica destes dias foi posta em produções que não dependem tanto da língua. Os outros dois destaques foram Big Berberecho, uma farsa, falada numa língua inventada, sobre dois pescadores que encontram um berbigão gigante, de e com Jordi Oriol e Oriol Vila, muito bons actores, e capazes de compor um enredo cómico; e Mazùt (na foto), uma extraordinária composição de novo circo, inspirada no movimento dos cavalos, sobre a liberdade animal do espírito e do corpo humanos, de e com Blaï Mateu Trias e Camille Decourtye, herdeiros da tradição circense da região, juntos na companhia franco-catalã Baród’ Evel Cirk.

 

Sobreviver aos cortes

O propósito deste encontro de programadores é “incentivar as trocas e as co-produções” , revelou Salvador Sunyer, fundador e director do Festival. Essa será a estratégia para sobreviver aos cortes, mais violentos nuns países que noutros, que já se fizeram ou que se anunciam. “Algumas obras são co-produzidas por mais 20 entidades diferentes, o que permite que a contribuição de cada uma seja relativamente baixa, e que ao mesmo tempo sem crie uma carreira de digressão para os espectáculos.” Durante o encontro de programadores, o Festival de Avignon apresentou aos parceiros o novo espectáculo de Vincent Macaigne. O Festival de Viena, o maior festival europeu, com 14 milhões de euros de orçamento, a nova produção de Angélica Liddell, que fechará com uma obra dedicada à Síndrome de Wendy a sua trilogia da China. O próximo espectáculo de Sidi Larbi Cherkaoui também estreará em Viena.

O Temporada Alta começou em 1992, “com quatro espectáculos e um milhão de pesetas” (seis mil euros) de apoio público, recorda Sunyer. O ano passado teve quase cem espectáculos. Este crescimento deveu-se a um programa europeu com a cidade de Perpignan, no âmbito do qual foram ainda construídos dois teatros, um de cada lado da fronteira. Em Salt foi criado o novíssimo El Canal – Centre d’Arts Escèniques Salt / Girona, numa antiga fábrica têxtil, de que Sunyer se lembra bem, porque era onde trabalhava a sua avó. Mas o festival decorre em treze espaços, desde o Teatro Municipal, com a decoração a vermelho e dourado e o palco à italiana das salas do séc. XIX, passando por naves de fábricas e igrejas convertidas em auditórios, até ao L’animal a L’esquena, um estúdio de dança em pleno campo, numa antiga quinta, entre lagares em ruínas e adegas com pipas abandonadas – onde foi criado, em parte, Mazut. E claro, à noite, na parte histórica de Girona, entre arcos e colunas de pedra, no topo das escadarias que trepam o call jueo, antigo bairro judeu, são recebidos nos restaurantes de charme os espectadores e os criadores, para provar as iguarias da afamada gastronomia espanhola, catalã, basca, etc. A própria autarquia promove um programa turístico especial, a Escapada Escénica, com descontos na estadia e nas entradas nos espectáculos.

Em dia de eleições, apresentou-se ainda Nueva Marinaleda, uma peça passada no ano 2112, depois de ter triunfado a revolução do 15 de Março. Na ressaca dos resultados, segunda-feira, terá lugar a segunda meia-final do II Torneio de Dramaturgia Catalã, uma competição por eliminatórias que põe em confronto oito escritores, como se fosse uma prova desportiva. Apesar de ser uma plataforma internacional e transfronteiriça, ou talvez por isso mesmo, o Temporada Alta está bem enraizado na realidade local.

Para memória futura (Teatro do Vestido)

Esta é a minha cidade e eu quero viver nela, de Joana Craveiro
Porto, 27 de Março * * * *

Esta obra consiste num percurso pelo casco velho que circunda o mosteiro beneditino da Vitória, durante o qual são apresentadas sete cenas, por sete actores, em sete itinerários diferentes, apresentadas ora nas ruas, largos e jardins ora no interior de algumas casas e estabelecimentos da zona, e umas vezes em andamento, outras vezes parados. O trabalho parte de um dispositivo experimentado em Lisboa, mas adaptado e reescrito para o Porto. Esta versão inclui histórias e testemunhos recolhidos junto dos moradores durante as cerca de duas semanas de criação, mas também outro tipo de fontes, desde textos e canções até imagens e objectos: todo um inventário de coisas que possam ter significado para os actores e para o público, ao qual é proposto que complete na sua imaginação parte das histórias que aqui começam a ser contadas. Não se deve relevar mais do que isto, sob pena de estragar a surpresa.

No dia em que foi visto, os populares ainda disputavam com os actores a atenção da plateia, discordando sobre o nome das ruas e a verdade dos factos relatados, refazendo a ocupação do espaço cénico conforme lhes apetecia e intervindo na paisagem sonora segundo a necessidade e o desejo. Nada de grave. Os moradores limitavam-se a invocar os anos de residência no bairro, com a vantagem de estarem à janela da própria casa, e a comentar para o público ou para os vizinhos tanto o que se estava a passar como assuntos particulares e notícias locais. Talvez não fizesse mal ser um pouco mais permeável às reacções espontâneas de espectadores e moradores. Mas, por um lado, o grande objectivo da obra – traçar um novo mapa poético desta zona da cidade e dar direito de cidadania aos episódios e personagens mais inesperados – pedia uma certa imposição de formas e assuntos. Por outro, a existência de sete grupos a circular pela zona não aconselhava demoras e atrasos.

As ruas do Porto, com os seus muros de granito, fachadas de azulejo, obras de cantaria barroca e clarabóias quase escondidas, oferecem ao transeunte uma memória narrada e revivida desde há muito. O espectáculo aposta numa nova versão da história dessas ruas e casas, agora mais quotidiana, mais fantástica, mais cosmopolita. Onde antes havia a história oficial e monumental, a das monografias, guias de viagem e dicas de turismo religioso para o visitante desprevenido, ou onde a referência da memória era o passeio mais ou menos romântico do flâneur do séc. XIX e o espírito mais ou menos ausente de Garrett ou Camilo, entre outros, este espectáculo cria novas fábulas, apresentadas por figuras excêntricas e misteriosas, que nos dão a ver outro Porto. Apropriando-se do território pelo simples acto de contar histórias, estes outros fantasmas assombram bem a cidade, ou pelo menos a freguesia da Vitória, reclamando esta terra como sua, sem deixar de a relacionar com o mundo exterior de que a Invicta sempre foi uma antena. Vá ver e invente a sua história.

PESSOAS E ÁRVORES (MIRADA 2012)

“Eu sabia que elas tinham olhos e nos observavam, elas nos vêem.” – disse uma espectadora de Lorena. #Simbyosis é um projecto de Roberta Carvalho, artista digital de Belém do Pará, que todas as noites põe as árvores a olhar para nós com olhos de gente. E nós a vermos as árvores com outros olhos. Será o perspectivismo de Viveiros de Castro? O melhor, porém, é ver as árvores sem projecção, à luz do dia, as folhas resfolegando ao vento. A lembrança das caras faz com que a árvore pareça viva (que está).

LUZ E NÉVOA (MIRADA 2012)

Ontem, segunda-feira, a tarde começou com Chaika, adaptada por Mariana Percovich, uma versão uruguaia da Gaivota, de Chekhov, toda passada dentro de um teatro perto do mar, em vez de uma casa de campo com um lago perto. Seguimos para Isso te interessa?, da Companhia Brasileira de Teatro (que estará em Portugal em Dezembro com Oxigénio), um texto francês de uma fala só – narrando as acções e frases de um pai, uma mãe, um filho e uma filha – que foi distribuída por quatro actores completamente nus – ou quase: estavam calçados.

O melhor estava guardado para hoje, terça: Amarillo, do México, sobre a emigração clandestina para os EUA, uma obra maravilhosa sem fronteiras físicas nem artísticas, que expande a ideia de teatro para lá do imaginável, como se a tragédia grega tivesse voltado do futuro.

Amanhã regressam os debates matinais, mas hoje de madrugada há festa na piscina do Hotel Mendes, para comemorar o aniversário do Luís Mármora, do elenco de Pais e Filhos, e uma festa de afrojazz num inferninho local, cujo nome nem me quero lembrar (é no mais torto dos famigeradamente tortos edifícios da orla marítima de Santos).

CULPA E GOZO (MIRADA 2012)

Domingo é o dia dos histéricos passeaream no parque. No nosso caso, incluiu um passeio de barco até à outra margem, mais propriamente à fortaleza da barra de Santos, construída em 1584, onde o grupo XIX apresentou Hysteria. A peça é como o Vinho do Porto, melhora com a idade. Estreada há doze anos, e mesmo com a mudança de actrizes, funciona como uma máquina de precisão sentimental e ideológica. A singeleza do trato das actrizes com os espectadores e a inteligência arguta da encenação e da dramaturgia, a partir de testemunhos e documentos reais, funcionarão ainda durante muito tempo. Por felicidade, foi nesta mesma fortaleza que Luiz Fernando Marques, o encenador, e Juliana Sanches, actriz fundadora do grupo, tiveram as primeiras aventuras artísticas.

Sábado à noite tinha sido o dia de O Cantil, a versão depurada de A Excepção e A Regra (na verdade, apenas da primeira parte da bela peça didática de Brecht) do Teatro Máquina, dirigido pela brechtiana cearense Fran Teixeira. À noite vimos outro espectáculo sobre mulheres de imaginação galopante, O Pequeno Quarto ao Final da Escada, uma produção mexicana de uma peça… canadiana (é a terceira – só pode ser para irritar o país que está entre o México e o Canadá). Inspirada na fábula do Barba Azul, o espectáculo abre espaço para a imaginação ao deixar no ar a questão da origem da maldade do assassino; tudo teria corrido bem se os filtros de luz não tivessem começado a queimar durante a apresentação, impondo à encenação uma dramaturgia real, a do medo que o teatro pegasse fogo (o agora chamado Galpão do Coliseu, um espaço abandonado adaptado de propósito para o Mirada). Os portugueses AUs estrearam-se também no domingo com uma enorme fila pelo corredor fora para ver Herodíades.

Para fechar a noite fomos levados ao Ginásio do SESC Santos, onde Fernando Rubio apresentava uma instalação com centenas de peças de roupa estendida e espalhada pelo chão, comentada por uma série de actores, a partir das memórias (fictícias) de um sobrevivente de acidente automóvel que tinha de arrumar o vestuário dos perdidos entes queridos: Podem deixar o que quiserem.

Todo este post já está no tom de CÔLUNA SÔCIÁU, mas há sempre lugar para mais.

O chileno Mario e o boliviano Marcelo exigindo entrar no primeiro barco para a Fortaleza onde se apresentaria Hysteria.

Os agentes especiais Sidnei e Angélica depois de terem deixado a salvo a comitiva.

Os encenadores Cibele Forjaz e Mario Ernesto Sanchez confraternizando no encontro entre programadores e produtores teatrais de Domingo de manhã.

Choro e Riso (MIRADA 2012)

Uma Vez Mais, Por Favor, de Michel Tremblay, talvez o mais importante dramaturgo do Canadá, é um diálogo biográfico entre o autor, tímido, e a sua mãe, espaventosa, escrita em jeito de despedida. As várias vinhetas, que vão da infância do narrador à morte da matriarca, apresentam os exageros melodramáticos e a imaginação delirante da mãe como sendo a origem da inventividade do autor. O espectáculo é jogado com um ritmo preciso pelos premiados Angelina Peláez e Arturo Beristain, sob a direção de Mario Espinosa.

O mais interessante – pensando também no outro espectáculo do México a partir de um texto canadiano, Incêndios – é o modo como a ideia da morte é olhada de frente pelos mexicanos, recebida com um sorriso aberto ou uma gargalhada sonora, e (aparentemente) superada, com lágrimas, pela esperança cristã na salvação – esperança dramática mas não propriamente trágica. Uma pista para pensar o teatro e a cultura mexicanas?

O debate desta manhã foi sobre O teatro brasileiro da última década e as tendências para o futuro, com a participação de Marcio Abreu (da Companhia Brasileira de Teatro), Cibele Forjaz (da Compania Livre – e com quem estou a preparar uma versão punk de Madame Bovary, cujo primeiro single sai em Novembro), Roberto Alvim (do Club Noir), e Luiz Carlos Vasconcelos (do Piollin Grupo de Teatro). A mediação foi do anfitrião Danilo Santos de Miranda (Diretor Regional do SESC São Paulo).

Hoje é de dia de Hysteria, do XIX, e de Romeu e Julieta, do Grupo Galpão, dois dos mais célebres espectáculos brasileiros, mas também de O Cantil, B.A.R.R.A. e Ato Cultural.

CÔLUNA SÔCIÁU

Norma Montenegro, do Teatro del Abasto, de Buenos Aires, e o seu anjo da guarda, Devanilson – nem sequer tinham acabado de jantar e já estavam a tentar o crítico a participar na loucura noturna de Santos.

FOGO E ÁGUA (MIRADA 2012)

Tanto os espectadores como os actores estavam ontem de olhos marejados no final de Incêndios, da companhia mexicana Tapioca Inn, no galpão do Teatro Coliseu. A versão mexicana desta lenda libanesa de refugiados, paramilitares e exércitos de ocupação reverbera na história de mais do que um país, e certamente na do México. A actuação é feita com tal rigor que o público não pôde deixar de se comover com o mundo emocional das personagens.

O debate matinal de hoje foi precisamente sobre O intérprete no teatro mexicano contemporâneo: os artistas criadores e as questões da identidade nacional e da construção de novas formas de atuação, com Karina Gidi (da Tapioca Inn), Mario Espinosa (da Companhia Nacional de Teatro) e Mauricio Garcia Lozano (do Teatro Del Farfullero), moderados pelo dramaturgo Samir Yazbek.

Há muita coisa para ver, mas vou ao Uma Vez Mais, Por Favor da Compañia Nacional de Teatro mexicana; e ao Retábulo, do Grupo Piollin.

Mirada 2012

O espetáculo Eclipse, do Grupo Galpão, uma remistura de contos e outros textos de Chekhov, abriu ontem a segunda edição do Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos. Nos trinta anos desta companhia de actores de Minas Gerais, Eclipse apresenta uma reflexão sobre o trabalho artístico, sob a direção do encenador, dramaturgo, cenógrafo, figurinista e professor Jurij Alschitz, russo radicado em Berlim, coordenador do AKT-ZENT International Theatre Centre.

O festival dá uma bela panorâmica da produção atual da América Latina, em geral espetáculos com provas dadas, por assim dizer, com alguns exemplos de Portugal e Espanha também. Em especial, recomenda-se a retrospectiva de teatro mexicano, com espetáculos das companhias Teatro Línea de Sombra, Compañía Tapioca Inn, Por Piedad Producciones, Compañia Nacional de Teatro, Teatro El Farfullero, Artilleria Producciones,  El Milagro e Carretera 45 Teatro. Há também boas embaixadas da Bolívia, do Chile, do Peru e da Venezuela, com espetáculos emblemáticos de grupos marcantes (Teatro de Los Andes, Teatro Cinema, Yuyachkani e Actoral 80, respectivamente) e ainda a trilogia colombiana Sobre Alguns Assuntos de Família, do grupo La Maldita Vanidad, entre muitos outros eventos.

Hoje de manhã, a actriz (e diretora da Escola Superior Célia Helena) Ligia Cortez moderou o debate sobre O teatro mexicano no panorama atual da produção cênica do continente, com Juan Meliá (Coordenador Nacional de Teatro, da cidade do México), Vivian Martínez Tabares (do Departamento de Teatro da Casa de las Américas, de La Habana) e Mario Rojas (professor emérito da Catholic University of America, de Washington) – uma sessão muito completa, que criou as melhores expectativas para as obras mexicanas, a começar por Incêndios, a peça de Wajdi Mouawad, com encenação de Hugo Arrevillaga Serrano, à noite no Teatro Coliseu de Santos.

CÔLUNA SÔCIÁU

Fui convidado pelo Festival, por isso vou cá estar os dez dias, de 5 a 15 de Setembro, com o excelso Mário Moutinho, que veio em representação do FITEI, aqui ainda com certo jet-lag, na companhia das beldades Tânia Reis, portuguesíssima, em SP desde 2008, e Anna Zêpa, uma autêntica prenda de Natal, sócias no projecto As de Fora.

À luz de um navio invisível

Estaleiros, de Marco Martins e Nuno Lopes
com os trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo
Viana do Castelo, 27 de Julho * * * * 

Enquanto em todo o mundo milhões de telespectadores assistiam acotovelados à cerimónia de abertura das olimpíadas de 2012, numa pequena cidade do noroeste peninsular algumas centenas de pessoas esperavam a vez de entrar no cenário natural da doca pesqueira de Viana, junto ao Forte de Santiago da Barra, para ver um espectáculo sobre os Estaleiros Navais, ou melhor, sobre a espera a que estão obrigados os trabalhadores da casa – enquanto não é resolvido o impasse financeiro da empresa. Em Londres celebravam-se as indústrias culturais, na capital do Alto Minho entoava-se um requiem pelas vítimas do capitalismo tardio, criado por Marco Martins a partir de testemunhos de operários, com os próprios em cena. O espectáculo bem podia fazer parte de um remake de Cenas da Luta de Classes em Portugal, o documentário de Robert Kramer filmado em 1977. Pelo menos é o que dá a entender o começo, com um pequeno cortejo fúnebre em que o caixão é afinal um dos cacifos pessoais dos funcionários da empresa, e as palavras da canção de Chico Buarque: «Foi bonita a festa, pá.»

O cenário é impressionante: à esquerda, um cais desactivado, um edifício do Instituto de Socorros a Náufragos e um farolim; ao fundo, os reflexos negros das águas paradas do porto, e mais adiante, no cais do outro lado, em frente, a pouca actividade portuária que existe; à direita, a muralha do forte, com os monumentais guindastes por trás, e as grandes iniciais iluminadas no topo: ENVC. Tudo isto, mais o que os performers fazem, é iluminado com grande maestria por Nuno Meira, que compõe com pouco mais de meia dúzia de projectores uma autêntica cantata e fuga para órgão de luzes, capaz de induzir por si só, pelo menos no crítico, os mesmos sentimentos de perda e esperança por que passam aqueles homens e mulheres de Viana. A tradução dessa sensibilidade em forma teatral (de que o desenho de luz é um exemplo, mas que é comum à interpretação e à mise-en-scène) enriquece a narrativa dos ENVC.

Os relatos – da entrada para a empresa, de momentos especiais vividos em conjunto e dos acidentes mortais que viram – dão nota do sacrifício colectivo que exige cada navio, ainda mais quando se sabe que estes operários nunca navegaram nas embarcações que construíram, e apenas os abençoam com sangue, suor e lágrimas, onde outros os apadrinham com champanhe. O momento alto do espectáculo é precisamente quando uma das funcionárias se dirige ao fundo do cais para baptizar um navio invisível, proferindo as mesmas palavras mágicas vindas da boca da autoridade eclesiástica. É a vingança poética permitida pela obra.

O espectáculo conta a história do desmanche de um modo de produção, o da empresa pública, e da lenta agonia que precede a privatização desta. Ao dar voz e corpos aos dramas pessoais que se escondem por trás da contabilidade oficial, faz prova de uma dedicação admirável, que vários administradores e governantes não merecem. É a abnegação desse mesmo povo que, dizia uma deputada na televisão há dias, em Portugal sempre foi melhor que as elites. Mas o espectáculo é mais um paliativo que um protesto. As causas materiais do estado-a-que-isto-chegou não são expostas, como se todos soubéssemos do que se está a falar. Talvez sejam precisas novas formas de falar dos factos. Mas também talvez seja possível que, num espectáculo de teatro documental e comunitário, a causalidade dos factos conviva mais de perto com a sensibilidade das formas.

[versão longa]

Last but not least Almada

O Sr. Ibrahim e as Flores do Corão, do Teatro Meridional, foi escolhido como Espectáculo de Honra do Festival de Almada deste ano, o que quer dizer que voltará a ser apresentado no festival em 2013. Miguel Seabra tinha dedicado o espectáculo a Joaquim Benite, recordando como o director do Festival de Almada fora importante para o Teatro Meridional, em 1994, por ocasião da apresentação de Ñaque – ou sobre piolhos e actores,  também nomeado espectáculo de honra. O público de Almada tem um fraquinho pelo Meridional? Não é caso para menos. A peça de Schmitt e a interpretação de Seabra vão directo ao coração. O espectáculo poderá ainda ser visto em Setembro, no espaço da companhia no Poço do Bispo, em Lisboa. E em Almada, continua a programação da companhia e do teatro municipal: Tuning, de Rodrigo Francisco; O Mercador de Veneza, encenação de Ricardo Pais; Timão de Atenas, encenação de Joaquim Benite; Simplesmente Complicado, produção do Berliner Ensemble.

O Festival de Almada é a melhor porta de entrada para a produção nacional, e uma janela aberta sobre as temporadas europeias. Do Teatro da Cornucópia a Pedro Gil, passando pelo Meridional; de Peter Stein e da Schaubühne (na foto, Yael Ronen, encenadora de A Véspera do Dia Final, no colóquio do dia seguinte na Esplanada do Festival) aos STAN e à dupla Marthaler & Viebrock; sem esquecer o regresso de Que Fazer?, do  Théâtre Dijon Bourgogne – houve muito e bom teatro para ver. Comecem a fazer as malas: para o ano é a trigésima edição do festival!

Quando eu piso em folhas secas

O Sr. Ibrahim e as Flores do Corão, com Miguel Seabra e Rui Rebelo
Almada, 16 de Julho * * * *

O Sr. Ibrahim e as Flores do Corão é a história de um rapaz de origem judaica, passada em Paris, nos anos sessenta, contada na primeira pessoa. Moisés, de diminutivo Momo, acaba por se converter em Mohamed. O autor, Eric-Emmanuel Schmitt, pretendeu, com essa conversão, provocar dando uma imagem positiva do Islão. Um romance dos anos setenta, La Vie Devant Soi, de Romain Gary, partilha com esta peça o nome do protagonista e alguns elementos do enredo: nessa obra, um jovem muçulmano cuida de uma velha senhora judia; nesta, um jovem judeu é adoptado por um velho senhor muçulmano. O texto original é um monólogo escrito por Schmitt para uma pessoa em específico, um actor seu amigo, cuja história particular se assemelha com esta em vários pontos, numa espécie de biografia fantástica. Desde então tem conhecido inúmeras adaptações ao palco e às telas. Esta versão de Miguel Seabra é apresentada de modo muito sóbrio, com o actor e encenador sentado, sozinho, em frente à plateia, contando a história, e o músico Rui Rebelo acompanhando à guitarra e ao piano.

A narração vai conquistando a sala pouco a pouco, com o público rindo em uníssono com as descobertas de Momo e comovendo-se com a procura do amor paterno. No final, a sala fora arrebatada. A empatia do actor com o público é uma das causas desse arrebatamento. Miguel Seabra procura desde o início criar cumplicidade com o público, trabalhando tando o está a ser dito como o que está implícito ou fica subentendido. A simplicidade do que é visto e ouvido em cena aumenta essa cumplicidade, não porque peça licença para existir, mas porque convida o espectador a dar significados às coisas. O ponto de vista de Momo sobre os outros é representado de modo tão concreto, tão bem apropriado pelo actor, que realmente desfilam perante nós as personagens e os factos da história que está a ser contada. Só dessa maneira é que se poderia acreditar na reprodução que Miguel Seabra faz de Brigitte Bardot a entrar na dita mercearia.

O ponto de vista do actor sobre a personagem de Momo (e as demais personagens e respectivos pontos de vista) é banhado a nostalgia, uma certa nostalgia difícil de definir, e pincelado de ironia. Miguel Seabra constrói uma sintaxe sentimental para partilhar o seu ponto de vista sobre a história, sintaxe que é, antes de mais, uma gramática dos sentimentos em si, não apenas da história contada. O relato é um modelo de sensações, sentimentos e emoções, ilustrado pelo que o autor faz acontecer a Momo, e encarnado pelo mapa emocional que o actor (e o músico, claro está) vai desenhando para os espectadores seguirem, à medida que conta a história. Esse mundo sentimental é comum a judeus, cristãos e muçulmanos, sejam europeus, africanos ou asiáticos, e é na expansão da compaixão (alguns diriam «do sentimentalismo») que este espectáculo encontra a sua força. Nesta viagem, o actor encontra um jeito de se dizer a ele próprio e, em cumplicidade com o público, de fazer os espectadores redizerem-se, ou pelo menos ouvirem-se, na voz do intérprete. É um faz-de-conta, mas a sério.

[Culturas diferentes têm vocabulários diferentes para organizar as sensações, tal como os Inuit – todos sabem – têm dezenas de palavras para distinguir dezenas de tipos de neve diferentes. O exercício desse vocabulário causa emoções em si, é sentimentalista, pois claro, mas só quando gira em falso. Quando um fado encontra uma subjectividade que o realiza, a performance é tão real que é recompensada pelo apreço dos demais. O sentimentalismo é jogo, simulacro, brinquedo, preparação para a vida. Mas sem ele não haveria primeiro, nem segundo, nem verdadeiro amor.]

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