Assalto aos teatros do Porto [FITEI]

16 Junho 2009 by Jorge Louraço Figueira

XXXII FITEI

Ariadna, de Carlos Iniesta, encenação de Ricardo Iniesta
Porto, 26 de Maio de 2009
Boris Godunov, encenação e dramaturgia de Alejandro Ollé e David Plana
Porto, 28 de Maio de 2009
Animales Artificiales, autoria e encenação de Ana Vallés
Porto, 8 de Junho de 2009

O FITEI deste ano ocupou vários pontos da metrópole, do Teatro Nacional São João ao renovado Constantino Nery, do Coliseu do Porto à Fábrica Social, da Torre dos Clérigos à praia de Matosinhos. De modo semelhante, expandiu o tipo de espectáculos apresentados, da performance ao teatro de rua, da dramaturgia contemporânea à dança, dos clássicos aos inclassificáveis. Toda esta diversidade de formas tinha em comum o uso da ficção teatral como modo de pensar a realidade.

Ariadna, por exemplo, vindo de Sevilha, revisitava o mito de Teseu e Ariana. A montagem tinha um cenário versátil e impressionante, mas o teor da interpretação era pomposo, sem a circunstância, acabando por soar a falso. Já Boris Godunov, vindo de Barcelona, que em tudo prometia ser falso, resultava melhor. O espectáculo simulava um ataque terrorista ao Coliseu do Porto, fazendo dos espectadores figurantes-reféns, e permitindo ver projectadas imagens do exército na Passos Manuel. Como a invasão do Coliseu interrompia, supostamente, uma representação de Boris Godunov, de Pushkin, a ficção dramatúrgica era utilizada para comentar o acto terrorista; e, a meio, um dos actores da companhia era obrigado a representar uma cena da peça, para gáudio de um dos sequestradores, com uma das terroristas que, noutra vida, havia sido actriz.

Felizmente não invadiram o Rivoli, ou correriam o risco de fazer uma cena de A Gaiola das Loucas. Embora os fãs de La Fura del Baus tenham ficado algo decepcionados pela falta de sustos e arrepios na espinha, os espectadores mais snobs, que já puseram para trás das costas o fascínio com as partidas que os Fura pregam ao público, iriam decerto apreciar o argumento por trás da representação. As actuações eram irrepreensíveis, o aparato impecável, os diálogos bem escritos, e o risco de a qualquer momento poder ser convocado ao palco, ainda que não se compare à tragédia de reféns reais, causava um certo terror, pelo menos ao crítico. Em todo o caso, valia pela fantasia de ver o Coliseu ser tomado por homens e mulheres armados.

Animales Artificiales, de Santiago de Compostela, começava por deixar claro que era um espectáculo sem trama, sem personagens e sem acção, afirmações feitas no início por uma clown corifeia, dali a pouco interrompida por um actor que lhe corrigia as falas mal decoradas. Afinal havia um texto, um guião, um propósito. O espectáculo é uma sequência de variações sobre a cultura da espécie humana, que inclui dança, canções, números cómicos, invasões da plateia e monólogos, tudo feito com tal fluidez e harmonia que o espectador não deixa de se enlevar.

Se Ariadna invocava os mitos gregos, e Boris Godunov trabalhava a experiência mediática, era Animales Artificiales quem mais perto chegava da experiência primitiva e ritual que precedeu o teatro clássico ateniense, por um lado, e mais rapidamente rompia os filtros hertzianos da nossa percepção, por outro, buscando a pura forma para estimular o pensamento. Um festival de teatro serve para isto.

Subitamente, no banheiro das senhoras [TNSJ]

26 Maio 2009 by Jorge Louraço Figueira

A Falecida Vapt-Vupt, de Nelson Rodrigues, direcção de Antunes Filho
Porto, 20 de Maio de 2009
Prêt-à-Porter (Colectânea 2), coordenação de Antunes Filho
Porto, 21 de Maio de 2009

Se Lorca tirou os seus diálogos das conversas que ouvia às criadas na cozinha da casa da família em Granada, já Nelson Rodrigues parece ter apontado a prosápia carioca em botequins escusos. Antunes Filho, o mais reputado encenador de São Paulo, vai mais longe, na cenografia de A Falecida Vapt-Vupt. O espaço é um bar onde param os clientes do costume, indiferentes ao desenrolar das cenas entre marido e mulher, família, amante e agentes funerários. No meio, tirando apontamentos durante toda a função, está a figura do autor. A parede do fundo é um imenso painel cheio de inscrições típicas de WC público, sugerindo que o anjo pornográfico, como lhe chamaram, escrevia directamente da secreta. Faz todo o sentido, uma vez que o facto que dá origem à crise entre Zulmira e Tuninho é um coito inesperado (com a duração de cinco minutos, calcula um dos intervenientes), subitamente ocorrido no banheiro das senhoras de uma sorveteria do centro do Rio de Janeiro; e que essa revelação é feita, no terceiro acto, num diálogo entrecortado com uma “cena evocativa”, cuja forma dá a pista para a encenação desta peça como uma vertigem de quadros sobrepostos num mesmo lugar (a imaginação de Nelson Rodrigues). De facto, A Falecida, como tantas outras obras, é um retrato do combate dos baixos instintos com a moral elevada. No texto, ainda mais que no espectáculo, as personagens tossem, espremem cravos, palitam os dentes, põem o dedo no nariz, obram, têm relações sexuais. Os instintos predominam sobre a racionalidade humana, à maneira do neo-romantismo pessimista de Büchner, Wedekind e do primeiro Brecht. É o próprio Baal que diz, na peça que se pôde ver antes no TNSJ, que “o bom Deus, através da ligação do canal urinário e do membro sexual, deu bastante sinal de si, de uma vez para sempre”.

As personagens parecem acreditar em gestos desmedidos para se redimirem: Zulmira num funeral de luxo que a dignifique aos olhos da prima que a viu com o amante; Tuninho na prodigalidade com que distribui, no final, os 40 mil cruzeiros que extorquiu do mesmo amante, recuperando o orgulho. É nisto que, apesar do seu carácter pessimista, e de denunciarem a hipocrisia e fragilidade das convenções sociais, Rodrigues e Antunes se revelam mais moralistas. A traidora é punida duas vezes, primeiro pela vergonha, depois com um funeral de cão; o traído vinga-se, recuperando a honra, e ainda santifica a devoção ao Vasco da Gama (o clube de futebol).

Os motivos ocultos de cada personagem, e o egoísmo infantil delas, são reveladas pelo desenho claro e vincado das interpretações, por um lado, e pelos tempos farsescos do movimento, por outro, muito bem orquestrados. A encenação é um exemplo de concepção rigorosa e rica, e o dramalhão é-nos apresentado como um jogo. O público adora. Em paralelo, esta companhia apresentou três diálogos curtos, fruto da pesquisa apenas dos actores, que batiam muito certo com os temas rodriguianos, ao revelarem os costumes e as fantasias sexuais de pessoas comuns, e que valeram sobretudo pelo detalhe da composição das personagens e pela atenção à riqueza contida nas frases mais banais do português de São Paulo. Para além do mais, há que destacar como estes dois espectáculos permitiram viajar pelas tais águas da língua portuguesa, entre as expressões e palavras anotadas por Nelson Rodrigues (e que hoje nem a maioria dos brasileiros reconhece) e a prosódia paulistana que não passa na telinha.

Mostra Anual de Dramaturgia [ARTIMAGEM]

12 Maio 2009 by Jorge Louraço Figueira

Na tentativa vã de combater a preguiça de escrever, o crítico coordenou uma mostra de dramaturgias, a MAD ’09 (de 27 de Abril a 1 de Maio), promovida pelo Teatro Art’Imagem, no âmbito do Fazer a Festa – este ano na Quinta da Caverneira, na Maia. Apresentaram-se as leituras encenadas dos textos Testa-de-Ferro, de Jorge Palinhos, com direcção de Valdemar Santos; A Irrisão das Flores, de Rui Pina Coelho, com direcção de Sílvia Correia; Ida e Volta, de Tiago Rodrigues, com direcção de Ricardo Correia; Uma Carta a Cassandra, de Pedro Eiras, com direcção de Armando Pinho; e A Minha Mulher, de José Maria Vieira Mendes, com direcção de Fernando Moreira.

O textinho de apresentação das peças:

Terras de Ninguém

As cinco peças escolhidas para esta primeira edição da Mostra Anual de Dramaturgia têm em comum um interesse dos autores nas relações matrimoniais de uma certa classe média. Os tratamentos deste tema são muito diferentes, porém.

Em Testa-de-Ferro, de Jorge Palinhos, uma esposa traz o amante para casa, com o objectivo de matar o marido. Disfarçado de marioneta, como se isso fosse possível, o amante e o marido acabam por fazer amizade, por assim dizer. As três personagens vão alternando no papel de manipuladores, revelando que nem sempre quem puxa os cordelinhos domina o jogo da manipulação.

Em A Irrisão das Flores, Rui Pina Coelho faz uma crónica das entradas e saídas de um grupo de amigos entre 1998 e 2008, com as personagens recordando os abandonos, as separações, os filhos e os casamentos que se sucederam sem que eles soubessem muito bem como e ainda menos porquê.

Ida e Volta, de Tiago Rodrigues, um monólogo de uma mulher relatando uma viagem de separação, de comboio, acompanhada pelo insistente marido, revela a distância entre o mundo interior feminino, por um lado, e as ideias simples do género masculino, por outro.

Em Uma Carta a Cassandra, de Pedro Eiras, essa distância torna-se intransponível: um soldado das democracias ocidentais tenta ocultar à amada a verdade sobre os actos de guerra que cometeu. A mulher, porém, consegue ver o que aconteceu, deduzindo das palavras dele o não dito, a violência obscena.

A Minha Mulher, de José Maria Vieira Mendes, encerra a mostra, com o retrato de uma família numas longas férias da vida, dir-se-ia, os papéis de homem e mulher baralhando-se nos casais Pai e Mãe, Nuno e Laura, agravada a mistura pela chegada de um amigo de Nuno, carta fora de baralho. Vencedora do prémio António José da Silva, trata-se da única peça deste leque que já foi montada, tendo sido apresentada no Teatro Nacional Dona Maria II em 2007; porém, como nunca foi vista nos palcos portuenses, nem houve notícia de excursões a Lisboa, encaixa-se aqui nos critérios da MAD: mostrar textos originais e inéditos na cidade do Porto.

A perplexidade masculina perante os dons da subjectividade feminina, com os homens a repetirem-se e as mulheres a tentarem imaginar uma saída, elas mais práticas, eles mais incapazes, elas sonhando o futuro, eles enredados nas palavras, é outro traço comum a estes textos.

Os cinco autores nasceram entre 1975 e 1977, tendo atingido a maioridade legal na primeira metade dos  anos noventa. Que ansiedades nacionais podemos atribuir a estas dramaturgias pessoais? O problema não é a mobilidade social, aparentemente resolvida, nem a constituição de uma comunidade política, sonho desleixado. O impasse dos casais, materializado num amante fantoche, num jardim intemporal, numa viagem de comboio, nas cartas do soldado à amada, numa casa de férias em chamas (em lume brando, aliás) gera falas de contemplação de actos passados, localizadas em terras de ninguém, que parecem traduzir um impasse mais generalizado, se não do país, pelo menos dos portugueses (classes, géneros, gerações) que aqui são ficcionados.

Um pouquinho de Brasil

12 Maio 2009 by Jorge Louraço Figueira

QuerôAfinal que andou o crítico a fazer pelo Brasil? Entre outras coisas, viu meia-dúzia de espectáculos. Eis os melhores, quer dizer, os que lhe caíram no goto, por ordem alfabética (os links dão para um blogue da Folha de São Paulo, o Cacilda – blogue de teatro, de Nelson de Sá e Lenise Pinheiro, à excepção do último):

BARTLEBY

CACHORRO

CHAPETUBA FUTEBOL CLUBE (José Renato, o encenador, no histórico – e reconstituído – Teatro de Arena.)

PORQUE A CRIANÇA COZINHA NA POLENTA?

QUERÔ (Na foto.)

REQUIEM

VESPERAIS NAS JANELAS

O meu favorito é Querô, claro, do Folias, em cartaz até 24 de Maio. Podem ler as críticas de Luiz Fernando Ramos, na Folha ou aqui, e de Mariângela de Alves Lima, no Estadão ou aqui. Para um pouco mais de polémica, vão aqui.

O país é Lisboa, o resto é deserto [PALMILHA]

17 Fevereiro 2009 by Jorge Louraço Figueira

A cidade dos que partem, pelo Teatro da Palmilha Dentada
Porto, 3 de Fevereiro

O novo espectáculo da Palmilha Dentada conta a história de Carlos Anunciação, um aldeão que deixa para trás o país interior, feito de bombos e caretos, e parte para a cidade grande, onde o vemos a trabalhar na oficina de um tio e, nos tempos livres, a tocar trompete numa banda de garagem. Em paralelo, um presidente da câmara (que é uma amálgama de Avelino Ferreira Torres, Rui Rio, Fátima Felgueiras, Narciso Miranda, e mais que houvesse) inaugura uma Máquina da Felicidade que se revela uma fraude. Parece que todas as tentativas de encontrar a alegria são frustradas pela irresponsabilidade geral; ao menos, na aldeia, o rufar dos tambores e as máscaras davam algumas garantias.

Estes fios condutores guiam o espectador através dos vários quadros e números musicais que compõem o espectáculo. Há outras figuras para além do aldeão e do presidente, mostradas em pequenos episódios, que acabam por se cruzar umas com as outras, nas ruas do burgo. Tudo corre mal e no fim, desiludidas, algumas das personagens fazem como Anunciação fizera outrora e partem também, para um lugar supostamente melhor.

Ao definhamento dos campos e montes corresponde um definhamento do casco urbano, ora cantado, ora mostrado em cenas cómicas. Trata-se de um espectáculo musical, ainda que mais próximo da revista do que dos formatos celebrizados por Hollywood, a Broadway ou o West End. Cada canção é de sua nação, mas os espectáculos da Palmilha Dentada são famosos é pela fragmentação desopilante, não pela unidade. A quantidade de histórias a contar e a necessidade de condensá-las em duas horas não facilitam: ficaram por desenvolver quer a trajectória das personagens centrais, quer a profusão de vinhetas da vida citadina.

As melhores cenas são as de sentido de humor absurdo, surpreendente e certeiro, sempre um passo à frente do público, em que estes artistas são especialistas. As tiradas mais sérias, porém, perdem o lanço, e não são nem melodrama, nem paródia de melodrama. Apesar destes reparos, o espectador vai encontrar cenas delirantes e tiradas cómicas de antologia, e um reconhecimento imediato dos temas aqui tratados. Do que gostei mais foi do número do TecnoVocalWarmUp, mas há para todos os gostos.

Com a tarimba do café-teatro, a trupe faz composições precisas e frescas, criando caricaturas reconhecíveis, facilmente odiosas não fosse o carinho com que lhes dão vida. Anabela Nóbrega, Daniel Pinto, Ivo Bastos, Joana Carvalho, Nuno Preto, Patrícia Queirós, Paulo Calatré e Rodrigo Santos são intérpretes que se transformam nos bonecos que querem, e com uma tal cumplicidade entre si e capacidade de escuta que fazem a cena real. Os figurinos, adereços e cenário são ricos e evocativos, muito bem feitos, e as projecções da cidade e do campo, alternando com o cenário branco da garagem, resolvem bem o problema de reconstituir tantos espaços diferentes sem perder o tempo todo com mudanças de cena.

O espectáculo lavra no mesmo material que nos deu, por exemplo, Aldeia da Roupa Branca (a festa na aldeia, a banda filarmónica, a vida na cidade) mas acrescenta-lhe alguns dados incontornáveis das últimas décadas: a desertificação do interior, do centro das cidades e, no futuro, do país.

Nos negócios e no amor vale tudo [TNSJ]

13 Fevereiro 2009 by Jorge Louraço Figueira

O Café, de Fassbinder, direcção de Nuno M Cardoso
23 de Maio de 2008

Das Kafeehaus foi escrito a partir de La Bottega del Caffè, de Goldoni, numa visão mais cínica dos negócios de amor. No texto de Fassbinder, o vício do lucro tomou conta de tudo, até do hábito de tomar cafeína. Na segunda metade do século XX, o mundo da cultura, simbolizado pelo café, foi tomado de assalto pelo casino.

A peça do autor alemão foi apresentada no Teatro Nacional São João como um reflexo do espectáculo O Café, do italiano, estreado há cerca de um ano. A equiparação dos amores a negócios também aparece em O Mercador de Veneza, outro espectáculo recente do TNSJ. É, aliás, um dos temas centrais do repertório do TNSJ: pode a arte resistir ao jogo das finanças?

Nesta peça, Fassbinder pega primeiro na matéria-prima de Goldoni, e depois na mitologia viva dos anos 60, a de Hollywood. Baralhando e tornando a dar, o autor faz um cruzamento entre a linguagem do quiproquó goldoniano e a linguagem dos planos cinematográficos, entre as figuras da comedia dell’arte e os ícones dos filmes de cowboys e gangsters. Estes últimos são os actuais frequentadores do café tornado casino. Não se deve confiar neles. Existe sempre um desfasamento entre o que dizem, por um lado, e as intenções ocultas, não formuladas verbalmente, com que agem. É como se as palavras tivessem apenas valor de troca e jamais valor absoluto. A obra parece premonitória, e a sua montagem também, ao rever a vertigem do vício do dinheiro que acabou por chegar em força às mesas de café.

Iniciado com um projecto de experimentação cénica da equipa do TNSJ, o espectáculo tenta actualizar a linguagem teatral pondo em prática o programa contido na peça e embutido no desenho da acção. Nuno M. Cardoso explora os recursos vídeo e áudio para relançar a discussão sobre o mundo das finanças virtuais e da cultura das aparências, isto é, da imagem como valor.

A encenação criou uma área de jogo onde as falas são cartas lançadas num pano verde, e os actores peças dispostas num tabuleiro de jogo. A organização destas duas variáveis, texto e corpos, é feita como numa montagem cinematográfica que, neste caso, cabe aos espectadores completarem, enquadrando determinado actor ou aproximando o olhar de certo diálogo. O espectáculo tenta deste modo livrar-se de uma imitação simplista do real em busca de uma forma que imite com mais verdade a vertigem dos vícios. Em consonância com esse trabalho estético, e apesar de originados em sessões de improvisação, os passos dos actores foram rigorosamente marcados.

Ao colocar em cena verdades contra falsidades, personificadas por heróis de cinema, numa linguagem vídeo, o encenador apresenta o artificialismo galopante dos tempos que correm, revelando o que tem de real. O teatro não responde, só faz perguntas. Neste caso, expõe – e bem – as tentativas de sobreviver numa ordem financeira, digital, virtual, multimédia. Com um passo à frente dessa ordem, o amor, a arte ou a cultura poderão ser mais que meros negócios.

No avião vi um filme idiota, mas…

9 Fevereiro 2009 by Jorge Louraço Figueira

De viagem para São Paulo com escala em Paris, tirei a barriga de misérias e vi os espectáculos

La Ville (The City), de Martin Crimp, no Thêatre de la Ville e

Music-Hall, de Jean Luc Lagarce, no Thêatre des Bouffes du Nord (há um clip aqui)

e as exposições

Recettes des Dieux, esthétique du fétiche no Musée du Quai Branly (além das colecções permanentes)

Robert Frank, un régard étranger, no Jeu de Paume.

E logo à chegada a Sampa:

As Quatro Chaves, pelo grupo Ventoforte e

Querô, de Plínio Marcos, pelo grupo Folias (esta a primeira de quatro vezes, porque o elenco reveza-se nos vários papéis).

Esta semana há mais; eu depois conto tudo. Agora foi só para vos fazer inveja.

No tempo em que os animais lutavam [SEIVA]

20 Janeiro 2009 by Jorge Louraço Figueira
  
Os Saltimbancos, de Chico Buarque, encenação de Gabriel Vilella
Porto, 16 de Janeiro

Saltimbancos é inspirado na fábula Os Músicos de Bremen, dos irmãos Grimm. Chico Buarque localiza a acção num “certo país onde os animais eram tratados como bestas” e no tempo em que os animais cantavam. Um jumento, um cão, uma galinha e uma gata fogem dos respectivos donos e patrões e decidem tentar a sorte na grande cidade. Como não têm nenhum talento especial, os pobres animais tornam-se músicos.

O cenário é de circo ambulante, com um pequeno picadeiro e um palco de carroça, e os figurinos e a coreografia evocam as tradições populares brasileiras. Os actores têm vozes formosas e desempenhos firmes. Tudo é decorado com brilho e cor, de tal modo que, à primeira vista, o jumento tem o trote elegante de um cavalo, o cão uma juba de leão, a galinha o porte de um pavão. (A gata doméstica é mais vagabunda.) A música é maravilhosa.

Chico Buarque namora com a forma das peças didácticas de Brecht, e este texto tem algumas lições explicitadas ao público: primeira, o melhor amigo do bicho é o bicho; segunda, um bicho só é só um bicho, mas todos juntos são fortes; terceira, os homens voltam sempre. Quando finalmente descobrem uma hospedaria, está ocupada pelos antigos patrões. Os animais expulsam os bandidos, tal como na fábula recolhida pelos irmãos Grimm. A canção que sucede a este episódio identifica as armas dos bichos: “junte um bico com dez garras, quatro patas, trinta dentes e o valente dos valentes ainda vai te respeitar”. No final, a trupe ocupa a hospedaria. Em suma, os animais unidos jamais serão vencidos. Mas tudo é feito com uma graça e verdade inigualáveis, já contida na fábula, e belamente concretizadas nas canções e palavras das personagens.

O espectáculo acrescenta algumas músicas à peça original: um tema de Cats, o conhecido sucesso do West End e da Broadway, e Os Argonautas, de Caetano Veloso, e, Tanto mar II (a versão desiludida) de Chico Buarque. O final é com esta famosa canção alusiva ao 25 de Abril, altura em que surge um cravo iluminado no ar. (Vemos agora que desde o início estavam outros dois cravos na carroça dos Saltimbancos.)

A colagem de referências à Revolução dos Cravos, por um lado, e ao glamour de Cats, por outro, só apoucam a peça. Assim como a caracterização das personagens em animais finos (em vez de grosseiros) muda os dados da peça, também o uso da nostalgia da revolução mascara a violência da revolta dos animais. Tudo é emblema, nada é circunstância e acção. Se um bando de músicos usa armas naturais para tomar o lugar dos donos, celebrar com um número de Cats é transformar o rebelde em conformista – o que vai contra o espírito do texto. Talvez seja esse o ponto de vista da encenação, ou talvez haja uma finíssima ironia na demonstração de como a revolução se transformou num show musical. É fina de mais.

Polenta Paulistana

4 Janeiro 2009 by Jorge Louraço Figueira

O vídeo promocional de Por que a criança cozinha na polenta?, de Aglaja Veteranyi, direcção de Nelson Baskerville, pela Companhia Mungunzá de Teatro, de São Paulo.

Balanço de 2008 EXTRA

1 Janeiro 2009 by Jorge Louraço Figueira

As escolhas dos dramaturgos anónimos

Recolhi a opinião de alguns dramaturgos da nossa praça (todos com peças montadas no último ano) sobre os espectáculos vistos no Porto e no Norte do país, em 2008. A ideia foi publicar uma espécie de «selecção de enófilos». O anonimato foi sugerido por mim para poderem opinar à vontade. Seis pessoas nomearam vinte espectáculos diferentes (assinalei os que foram nomeados mais de uma vez). Duas indicaram três, uma indicou quatro, outras duas indicaram cinco, e uma outra indicou sete. As escolhas não tinham de ser justificadas, nem ter ordem de preferência. Ninguém escolheu peças de sua autoria. O resultado é mais um cabaz de natal do que um top de vendas, e por isso as escolhas não estão ordenadas, mas apenas agrupadas por sala de teatro (e estas ordenadas por ordem alfabética). A escolha do crítico está mais abaixo.  

ESTÚDIO ZERO
4.48 Psicose, de Sarah Kane, pel’As Boas Raparigas
Persona, de Bergman, pel’As Boas Raparigas

FÁBRICA DA RUA DA ALEGRIA
Gil & Vicente: uma viagem de barca até ao inferno, pelo Mau Artista (2)
Um mundo muito próprio: tributo a Buster Keaton, encenação de Alan Richardson, com Daniel Pinto (2)

FIMP na Pça. D. João I
Stan, de Jim Barnard (Reino Unido)

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DA VITÓRIA [TNSJ]
Casa-Abrigo, pelo Circolando
Conferência de Imprensa, de Alvaro Zúñiga, com William Nadylam
Boca de Cena, pelo Teatro de Marionetas do Porto

NOVO CICLO ACERT (Tondela)
Novecentos, a partir de Alessandro Baricco, pelos Peripécia Teatro

TEATRO DO CAMPO ALEGRE
Hamelin, de Juan Mayorga, pelos Artistas Unidos [FITEI]
As últimas palavras do Gorila Albino, de Juan Mayorga, pelos Artistas Unidos [FITEI]

TEATRO CARLOS ALBERTO [TNSJ]
O Concerto de Gigli, de Tom Murphy, pela Assédio (2)
Diz-que-diz, pelo Teatro do Frio

TEATRO HELENA SÁ E COSTA
Catástrofe, de Beckett, pelo Teatro Plástico (2)
Casa da Boneca, de Ibsen, encenação de Nuno Cardoso (2)
Terminus, de Mark O’ Rowe, pela Assédio

TEATRO LATINO
Bucket, de Ricardo Alves, pela Palmilha Dentada (2)

TEATRO NACIONAL SÃO JOÃO
Platonov, de Tchekov, encenação de Nuno Cardoso (2)
Purificados, de Sarah Kane, encenação de Warlikowski (Polónia)

TEATRO VIRIATO (Viseu)
Mexe-te, de Fernando Giestas, encenação de Rafaela Santos

Balanço de 2008

30 Dezembro 2008 by Jorge Louraço Figueira

Cá estão, na forma de listas de compras, as short lists e a lista geral dos espectáculos que maior desgosto me daria não ter visto e maior gosto teria em rever. Esta e as listas dos outros críticos do Público estiveram na origem das escolhas do Ípsilon.

Short Lists

Peças feitas de cenas e actos
1. Platonov
2. O concerto de Gigli
3. O Mercador de Veneza
4. Persona
5. A doença de Machado-Joseph

Peças feitas de números e fragmentos
1. Buckett
2. Segundo Segundo
3. Desafinados
4. AVC
5. Catástrofe

Solos
1. Diário de um louco (integrado no ciclo Solidões)
2. Ensaio
3. O Decisivo na Política
4. Um mundo muito próprio (Tributo a Buster Keaton)
5. Adúlteros desorientados

Para todos
1. Diz-que-diz
2. História de uma Gaivota…
3. Corações em Ferrugem

Estrangeiros
1. Purificados
2. A boa pessoa de Sezuan
3. 10.000 Anos

Lista Geral

1. Platónov, de Tchékhov, encenação de Nuno Cardoso, pelo TNSJ
A singularidade deste espectáculo vem da coincidência de vários factores: uma imaginação cénica com rédea dramatúrgica; a maturação de um método de pesquisa teatral; e a cumplicidade artística de um grupo de pessoas que trabalham regularmente debaixo dos tectos do TNSJ. O resultado é uma obra teatral que come à garfada o vermelho e dourado do teatro à italiana e, a partir do palco, reedita as coordenadas espácio-temporais que eram válidas até então. A composição do colectivo de actores em cena é pensada ao milímetro mas, como deve ser, a cada dia viva. O carácter dissoluto da personagem principal, bem sacado pelos traços feéricos de Hugo Torres, e a desmesura do projecto de Tchekhov, insuflada pela estamina da juventude do autor, batem certo com a celebração da mise-en-scène perseguida por Nuno Cardoso. Tudo isto é temperado com rigor formal e sobriedade de linguagem q.b., dando origem a uma dos melhores trabalhos dos últimos tempos, e defendendo a encenação como uma das belas-artes.

2. Diário de Um Louco, de Nikolai Gogol, encenação de José Carretas, pela Panmixia
Este espectáculo foi um dos quatro monólogos do ciclo Solidões. A interpretação intensa e sofisticada de João Melo apresentou-nos uma personagem com subtis reservas quanto à eficácia do próprio discurso, e uma certa distância no uso das palavras, que causavam uma vertigem de identificação no espectador. O funcionário público que formula sonhos de grandeza aparecia assim como qualquer um de nós, em mais uma lúcida exploração do carácter nacional feita pelo encenador e dramaturgo José Carretas.

3. Purificados, de Sarah Kane, encenação de Krzysztof Warlikowski, pelo Wrocławski Teatr Współczesny, no TNSJ
Esta encenação é uma alegoria do desejo homossexual, figurada por trocas de roupa e amputação de membros, que ecoa o horror de um campo de concentração. Os actores encarnam as personagens e as falas com grande clareza de sentido, tornando credível uma ficção em que a sucessão de picos dramáticos é apresentada sem preparação explícita dos conflitos. O que mais impressiona é a beleza das representações da violência, assentes no poder de sugestão dos gestos para reconstituir a força desse desejo.

4. Buckett, de Ricardo Alves, enc. Ricardo Alves, Palmilha Dentada
5. O concerto de Gigli, de Tom Murphy, enc. Nuno Carinhas, Assédio
6. Diz-que-diz, do Teatro do Frio, direcção de Catarina Lacerda
7. Segundo Segundo, do Mau Artista, direcção de Rodrigo Santos
8. O Mercador de Veneza, de Shakespeare, enc. Ricardo Pais, TNSJ
9. Persona, de Bergman, enc. João Pedro Vaz, As Boas…
10. Ensaio, a partir de Susan Sontag, direcção de Victor Hugo Pontes

E amanhã, para fechar o ano em grande, sairá uma selecção de espectáculos feita por um painel (anónimo) de dramaturgos do Porto…

Festa no Salão do Bombeiro

21 Dezembro 2008 by Jorge Louraço Figueira

Salão de Festas, de Jérôme Deschamps e Macha Makeïeff
Porto, 11 de Dezembro

A dupla que encenou este espectáculo (Deschamps & Makeïeff) tornou-se reconhecível para o público do PONTI, o festival de teatro natalício do Porto que, nos últimos dez anos, abrilhantou as noites frias, mas límpidas, de Dezembro. Foi por isso com a promessa de reencontrar velhos amigos que uma parte dos espectadores do TNSJ se juntou para estas duas noites de teatro herdeiro de Tati e Charlot. Sobrou a nostalgia por estas apresentações (com as de Purificados, na semana anterior) serem apenas uma amostra do que seria o PONTI deste ano, cancelado pelas funestas razões que andam a estrangular o serviço público de teatro um pouco por todo o lado; e a pena por este espectáculo ser uma pálida amostra dos trabalhos anteriores (dizem), e em particular de Les Pensionnaires (que tive a ocasião de ver, em 2001).

Quanto à programação, que também é passível de crítica, nada a dizer, ou antes, bem. No espaço de uma semana, tivemos as duas caras do início de século, primeiro uma dramaturgia da imolação, em que o protagonista se sacrifica por um ganho afinal espúrio, quando tenta atingir a salvação; depois uma dramaturgia da festa, em que os heróis, empenhados em sucessos dos mais prosaicos, falham redondamente, redundando numa coreografia de fiascos, que pelo menos faz rir. Em ambas se revela a impotência dos indivíduos, um dos traços principais do teatro moderno, e nenhuma parece apontar saídas.

Para descrever um pouco mais este Salão de Festas, basta dizer que faz lembrar o mais familiar dos salões de bombeiros e centros paroquiais em noite de baile ou, mais modernamente, de karaoke. Não é o histórico Le Bal, da mesma genealogia teatral (uma produção original do Thêatre du Campagnol, cuja versão em filme foi realizada por Ettore Scola), mas tem canções pop, seja Staying Alive ou Smells Like Teen Spirit, que tentam capturar o ar dos tempos em versão o mais festiva possível; e uma série de gags, desde a mestre-de-cerimónias que não atina com os bancos altos do bar até a uma sangria fresquinha cuja fruta é esmagada pelos pés da criada, e logo prazenteiramente bebida por esta. O humor é físico, mas inteligente, e o espectáculo divertido, se não escapista. O desfasamento entre as intenções de cada personagem e as tentativas falhadas de concretização de planos, se nos faz rir da nossa própria vanidade geral, mal chega a teatralizar a noção de uma ordem superior às coisas, ridícula, precisamente, o que não só era uma marca da finura de humor deste tipo de trabalhos, como nos faria sair do teatro com algum sentido de comunidade entre espectadores. Enfim, o espectáculo é apenas para maiores de seis anos.

Deve ser dito ainda que os objectos, o cenário e a luz, ainda que simples, davam gosto ver, e que o tempo cómico destes actores, acertado pelas deixas de som, é precioso. Contudo, no balanço das coisas, faltou um pouco mais de argumento – isto é, enredo e pensamento. Se na semana passada o bombeiro de serviço no TNSJ quase entrava em cena cada vez que espreitava do camarote para assistir ao espectáculo do desespero, parecendo pronto a levar alguém para a unidade de cuidados intensivos, esta semana o senhor fazia parte da moldura. Para onde vai este espectáculo? – perguntava-se o crítico, já um pouco culpado por se rir tanto de coisa nenhuma. O que querem dizer estes artistas? Para lugar nenhum. – responderia o bombeiro – Não querem dizer nada.

Na guerra e no amor vale tudo

9 Dezembro 2008 by Jorge Louraço Figueira
  
Purificados, de Sarah Kane, encenação de Warlikowski
Porto, 5 de Dezembro

Se a inspiração para a escrita de Purificados veio de uma frase de Roland Barthes, segundo a qual estar apaixonado é como estar em Auschwitz, nada como uma companhia de teatro da Polónia para levar a metáfora às últimas consequências. (Auschwitz e Birkenau são os nomes alemães das localidades polacas de Oswiecim e Brzezinka, situadas a cerca de 60 quilómetros de Cracóvia.) Não é que coitas de amor possam ser equiparadas ao sofrimento de deportações, torturas e assassinatos. É que essa violência ocupa um lugar nuclear no nosso imaginário e é a ela que recorremos para dar realidade às fantasias amorosas. Sarah Kane tinha já feito um tropo semelhante em Ruínas, ao juntar a violência doméstica com a guerra civil e étnica dos Balcãs. Por um lado, a representação da violência, hiperbólica, ajuda a entender como os apaixonados terminais trazem o coração oprimido; por outro, todo o sangue de graphic novel que aqui se espirra é como um grito de alerta, um reflexo condicionado da impotência do amador perante os caprichos da coisa amada. Sarah Kane parece ter levado muito à letra a noção de que os rapazes, quando apaixonados, dão caneladas e fogem. Esta versão, estreada em 2001, e que desde então tem corrido a Europa como embaixadora do teatro polaco, é uma alegoria sobre a mutilação do desejo homossexual, figurada principalmente pela troca de roupa e pela amputação de membros, que ecoa a violência dos campos de concentração.

O melhor desta encenação são os actores, pela clareza com que encarnam as personagens e vivem as situações, cena a cena, fala a fala, tornando credível a ficção – o que não é nada fácil, num texto assente na sucessão dos picos dramáticos, muitas vezes obscuro, e que não perde tempo a preparar os conflitos. As cenas mais cruas são mais consentâneas com a acção da peça, enquanto os interlúdios musicais, o vídeo e os banhos de luz, a puxar para o bonito, se tornam enjoativos, passado um bocado – pelo menos para mim. Mas o que mais impressiona é o vocabulário cénico de representações da violência que foi desenvolvido. Este é, para os encenadores, um dos problemas mais estimulantes do texto: como representar a amputação de membros fazendo, mais que uma ilustração correcta do ponto de vista anatómico, uma representação do horror do sacrifício amoroso? O catálogo proposto por Warlikowski é simultaneamente belo e horroroso, apostando no poder de sugestão dos gestos, diferidos, desdobrados, desenhados, para que se reconstitua, no pensamento do espectador, a violência retratada.

“Transforma-se o amador na coisa amada” é um verso de Petrarca, glosado por Camões, e reutilizado por Herberto Helder, que lhe acrescenta, entre outros, “o amador é um martelo que esmaga”. Apesar da violência que exerce sobre os demais, Tinker é movido por um amor que nos faz compreender os seus exageros e que, no final, o salva. Ao fim e ao cabo, veio imolando-se a si próprio. Talvez um grande amor, para ser real, precise de uma grande mutilação.

O sonho do judeu e o pesadelo do cristão [TNSJ]

29 Novembro 2008 by Jorge Louraço Figueira
 
O Mercador de Veneza, de Shakespeare, encenação de Ricardo Pais
Porto, 7 de Novembro

Para ajudar Bassânio a conquistar Pórcia, António, um mercador de Veneza, recorre ao agiota Shylock, a quem reprovara a prática da usura, e aceita dar a própria carne como garantia de empréstimo. Prazo decorrido, o judeu exige a execução. Bassânio é salvo pela intervenção miraculosa de Pórcia, e Shylock é condenado por atentar contra um cristão. O Mercador de Veneza retrata a crescente racialização das relações sociais no século XVI, e as suas contradições. É a anunciada última encenação de Ricardo Pais no TNSJ. Voltará em Janeiro, depois de uma carreira breve com lotações esgotadas.

Na cena fulcral do espectáculo, Shylock (António Durães) está deitado de costas, por cima de António (Albano Jerónimo), esmagando-o com o peso. Envoltos em fumo, numa figuração de auto-de-fé e câmara de gás ao mesmo tempo, as personagens fundem-se uma na outra, representando um centro de onde tudo emana e para onde tudo reverte. É nesse ponto que Ricardo Pais faz a colagem de excertos que lhe é característica, pondo na boca de António falas de várias personagens. Dado que a cena de tribunal, clímax do texto original, foi deslocada para a primeira parte, é este pesadelo de António que toma o lugar principal na economia do espectáculo, e é nele que mais se nota a assinatura da encenação, não só pela mudança formal que introduz, mas também por ilustrar as ideias por trás da montagem, em especial a do sacrifício comum do mercador cristão e do agiota judeu, em benefício dos mais novos, e a da ansiedade do cristão em relação a esse parente mais velho que é o judeu. A cena é memorável.

As acções paralelas que, na peça, decorrem ora no Rialto, ora em Belmonte, são aqui separadas, a primeira parte localizando-se apenas em Veneza, a segunda apenas em Belmonte. O costume de juntar as cenas segundo a localização remonta ao final do século XIX, diz Barbara Heliodora no seu Falando de Shakespeare, tendo origem na necessidade de adaptar os textos isabelinos aos palcos à italiana (F. R. Benson terá sido o primeiro a ter essa ousadia).

O espectáculo é formado mais por um conjunto de retratos dos sentimentos dominantes das personagens, desenhado com as palavras, cena a cena, do que por um enredo concreto, constituído por acções e circunstâncias. Como resultado, a teatralização das emoções é mais verbal que vocal, mais sentimental que somática, mais visual que cinética. Pessoalmente, preferiria mais carnalidade; mas eu sou daqueles que ficam a torcer para que o judeu espete a faca. A peça é encenada como uma grande sequência de painéis vicentinos, onde se desenrolam várias fábulas de conversão, acompanhadas por uma banda sonora omnisciente. O negrume, a luz e o fumo sugerem um ambiente de celebração negra. E o sacrifício da carne para redenção do pecado quase acontece. Na segunda parte, Belmonte parece ser um castelo de conto de fadas. Os sonhos de Jessica (Sara Carinhas) e Lorenzo (José Eduardo Silva), que encerram muito bem o espectáculo, assentam nos pesadelos de Shylock e António. Por trás de um grande cristão está sempre um grande judeu.

Ser boa pessoa não compensa [CDG]

18 Novembro 2008 by Jorge Louraço Figueira

A Boa Pessoa de Sezuán, de Brecht, encenação de Nuno Cardoso
Santiago de Compostela, 25 de Outubro

A Boa Pessoa de Sezuán conta a história de Shen Te, uma prostituta bondosa que acolhe três deuses disfarçados. O trio, apostado em acabar com a cidade, acaba por poupá-la, e até recompensa a prostituta com uma quantia suficiente para abrir uma tabacaria. De imediato, todos os cidadãos a procuram. Para sobreviver no mundo da mercadoria, Shen Te inventa um alter-ego, o primo Shui Ta, negociante implacável. A encenação de Nuno Cardoso para o Centro Dramático Galego está em digressão por várias cidades da Galiza, até Dezembro.

Brecht, dizem, compunha em cena imagens detalhadas. A linguagem não verbal era tão cuidada, e retratava tão bem as personagens, que as suas encenações eram adoradas mesmo por plateias estrangeiras. As imagens contam uma história tanto quanto as palavras, e cada encenação procura novos “ideogramas” com os quais possa compor a cena. Nos espectáculos de Nuno Cardoso essas imagens são procuradas nos ensaios, autênticos centros de pesquisa física e psíquica. Os actores tornam-se mediadores, mestres-sala, inventores, como diria Schechner. Em particular, as encenações de Nuno Cardoso repetem sobretudo os motivos e movimentos de um jogo cujas regras foram criadas de propósito. O cenário, área de jogo, chega a ter elementos do mundo do desporto, desde a tabela de básquete de Purificados, passando pela pista radical de Woyzeck, até às balizas de Ricardo II. Daí a grande vivacidade da cena, e uma estrutura tempo-rítmica própria do jogo, em prejuízo de uma enunciação mais realista da circunstância dada pelo texto. A concepção cénica global liga-se ao mundo através da realização de uma mitologia tirada tanto das linhas de força das personagens, como das energias do elenco, como ainda do imaginário da plateia. Por outro lado, a administração desse tempo-ritmo de cada actor, os crescendos e diminuendos, os diferentes andamentos, enfim, a manipulação da forma, tudo isso valoriza o ritualismo do drama.

A encenação de A Boa Pessoa de Sezuán problematiza a questão de ser bom num mundo mau, contida na narrativa, equiparando masculino a mau e feminino a bom. Apesar das referências ao noticiário de crises financeiras e militares no programa, e da profusão de letreiros luminosos que ilustram a cidade como um mercado de marcas, a fábula inventada por Nuno Cardoso para se apropriar do texto original tenta transpor tudo isso para a escala mitológica, ao representar a possibilidade de superação dessas oposições no reconhecimento do lado feminino e masculino de cada um de nós, o desejo de paz como feminino, a revolta como masculina. A tensão entre subjectividade feminina e objectividade masculina, e a superação dessa dialéctica em direcção a uma unidade transcendente correm como águas subterrâneas nesta montagem. O trabalho de Rocío Gonzalez e Hugo Torres salta à vista, bem com o da dupla F. Ribeiro e José Álvaro Correia, na cenografia e na iluminação, respectivamente. Mas isso é claro. Que Nuno Cardoso consegue traduzir ideias para palco, mesmo em galego, e que filosofa em cena, é que é preciso ver.