As mil e uma mortas de Ciudad Juárez

Está aqui a crítica revista e aumentada ao espectáculo La Casa de la Fuerza, de Angélica Liddell, um dos melhores do ano a ficar fora das listas de melhores do ano, mesmo a dos dramaturgos anónimos, talvez por ter sido visto logo em Fevereiro de 2011, na Culturgest. A resenha foi publicada no número 8.2 da e-misférica, cujo tema é #narcomaquina.

A vida anterior de Mark Rothko

Vermelho, de John Logan, encenação de João Lourenço
Lisboa, Teatro Aberto, 23 de Dezembro, 21h30, casa cheia { * * * * * }
 

A estrela desta produção é o espírito de Mark Rothko, interpretado por António Fonseca. Em 1958, Rothko era um pintor à beira da consagração quando foi convidado a criar um conjunto de murais para um luxuoso restaurante de Nova Iorque. O pintor viu na encomenda a oportunidade de mostrar que a sua arte não era um bibelot de luxo. Ao verem as suas telas trágicas, os ricos perderiam o apetite. Em 1959, porém, depois de ter pintado trinta quadros, parou tudo. ‘Vermelho’ é uma investigação sobre os motivos dessa recusa, mostrando as etapas de trabalho de Rothko ao longo de dois anos, acompanhado por um jovem assistente (João Vicente), aprendiz de pintor, que não só assiste ao duelo interior de Rothko, como também se bate com ele, a propósito das paixões, medos e dores do artista. Rothko é salvo pelo assistente, que confronta o mestre e lhe revela a auto-ilusão: os quadros não tirarão o apetite a ninguém. Mas é pintor quem dá a última lição, passando o testemunho ao aprendiz: “Faz qualquer coisa de novo.”

Um dos momentos chave da peça é quando o assistente encontra o mestre com as mãos e os pulsos tintos de vermelho, e pensa que ele se tentou suicidar. Desta vez, foi apenas tinta. A cena antecipa o desespero do artista: em 1970, no mesmo dia em que chegavam à Tate Modern, em Londres, as últimas das trinta telas jamais entregues, Rothko pôs fim à vida, com um golpe profundo em cada braço, deixando uma imensa poça de sangue no chão do seu apartamento.

O espectáculo mostra um ser humano em profunda reflexão sobre a consequência dos seus actos. O autor incrustou no texto pequenas pérolas do próprio Rothko, e inventou as situações que lhes poderiam ter dado origem. O resultado é um condensado muito plausível da vida anterior e posterior de Rothko. No fim de tudo, o pintor repete a pergunta que fez no início, a respeito de um quadro que estaria pendurado exactamente na parede que dá para a plateia. “O que é que vês?” A resposta é a mesma, “Vermelho”. Porém, o dito e feito durante o espectáculo tornou o significado da palavra mais rico e diverso. A peça faz uma das operações maravilhosas do teatro: a condensação em poucas e simples palavras de um drama pessoal excessivo.

João Lourenço focou os aspectos principais do texto, como se a encenação fosse a arte de permanecer invisível, tornando credível a tragédia pessoal do pintor. O cenário foi montado como se a plateia estivesse no atelier, e não num teatro. O espectáculo é não só realista, mas também real. António Fonseca dá vida a Rothko compondo uma trajectória emocional fala a fala e usando os dilemas interiores da personagem para dar vivacidade à cena. Nos momentos cruciais da peça tem todos os trunfos para ganhar o público. João Vicente faz bom uso dos argumentos que lhe foram confiados pelo dramaturgo para dar réplica à personagem maior-que-a-vida de Rothko. Mas Fonseca vai além disso, encarnando a ironia, a gravidade e o sentido do trágico com precisão e harmonia raras. As contradições do pintor, sensualista, mas religioso, avaro, mas desprendido, humanista, mas amargo, requeriam uma actuação assim. Se a dedicação de Rothko à arte prova a sua humanidade, a humanidade da encarnação de Fonseca demonstra a arte do actor (e demais criadores). Num tempo em que ser prazenteiro é quase uma obrigação, e a arte parece ter como única justificação essa utilidade, a fidelidade de ‘Vermelho’ ao espírito de Rothko recorda que nem só de pão, nem de circo, vive o homem.

Abaporu, o homem que come gente

[Para os expatriados,  o perfil de Zé Celso publicado no Y de 20/01/2012]

Esta semana chega a Lisboa um dos principais encenadores do teatro de língua portuguesa – e da língua tupi. Zé Celso criou alguns dos mais importantes espectáculos de teatro do Brasil, é um dos primeiros subscritores do Tropicalismo e o seguidor mais indefectível do Manifesto Antropofágico, escrito por Oswald de Andrade em 1928, ou melhor, “no ano 374 da Deglutição do bispo Sardinha”.

O encenador regressa ao São Luiz, onde apresentou “Galileu”, de Brecht, em 1975, quando se exilou em Portugal com o grupo. Aproveitando a estada na Europa por ocasião da Europália, na Bélgica (o tema é o Brasil), o Oficina vem sem cachet fixo, apenas pelas receitas de bilheteira, revela o encenador no blogue pessoal. Este milénio, e já como Teatro Oficina Uzyna Uzona, o espectáculo é “As Bacantes”, celebrizado pelo dia em que Caetano Veloso foi despido e quase comido vivo pelo elenco. Na versão actual, as bacantes até cantam o fatídico sucesso mundial “Ai se eu te pego”. O espectáculo poderá ser acompanhado em directo, pela internet, em http://teatroficina.uol.com.br/aovivo.

O Teatro Oficina comeu Stanislavski e Brecht antes da refeição principal, Oswald de Andrade, com a peça “O Rei da Vela”, em 1967. “Tupi, or not tupi that is the question”, dizia o Manifesto Antropofágico. Como Zé Celso não se cansa de repetir, o primeiro acto de antropofagia cultural, que funda a identidade brasileira, foi o manjar do bispo Sardinha pelos índios Caetê. A refeição e devoção continua até hoje. A última criação do Oficina chamou-se precisamente “Macumba Antropófaga”. Ao sincretismo religioso Zé Celso foi buscar mitos e ritos para a preparação de performances e a criação de significados. Artaud também baixou no terreiro do Oficina.

Quando o Teatro Oficina foi fundado, em 1958, em São Paulo, por um grupo de estudantes de direito, José Celso Martinez Corrêa usava fato e gravata. Hoje, está nu. Para Marco António Rodrigues, um dos mais premiados encenadores de São Paulo, “o Zé recria e transforma tudo num grande ritual profano. Ele encarna esse ideário antropofágico de Tarsila e Oswald de Andrade. Ele é o próprio Abaporu. [“O homem que come gente”, em tupi, quadro de Tarsila do Amaral que inspirou Oswald de Andrade.]” Marco António sublinha a importância da abertura de caminhos feita por Zé Celso: “ele criou uma estética, com essa carnavalização e absoluta licenciosidade. A antropofagia mudou o teatro brasileiro, fazendo então o que hoje se chama de pós-dramático. Ele abriu uma avenida no palco, abriu todas as possibilidades para a cena.”

Carol Mendonça, umas das seleccionadas do programa de jovens encenadores do Teatro da Vertigem, completa a ideia: a antropofagia, “antes de vir do Oswald, vem dos índios brasileiros, e quando Oswald a retoma na ‘Semana de 22’, que para o Zé Celso é quase como um momento de fundação da cultura brasileira, propõe também um retorno ao primitivo, ao ritual.” A sexualização da actuação teatral é uma das marcas do Oficina. O seu teatro ataca um dos principais tabus do cristianismo, o sexo, ao mesmo tempo que leva à letra uma das suas principais metáforas, comer o corpo. “É uma outra moral, continua Carol Mendonça, e principalmente uma outra relação com o corpo. O corpo do índio é um corpo sem roupa, e isso obviamente estabelece outra relação com a nudez, com o corpo do outro, enfim… e mesmo a relação do público com os artistas no teatro do Zé é mais ritualista do que de contemplação.”

Como em boa parte da arte moderna, o criador apresenta-se como o sacerdote de um ritual herético, que busca a transcendência por métodos pouco ortodoxos, escrevendo e encenando em forma de manifesto. Para Claudia Schapira, directora do Bartolomeu, essa é a maior influência sobre o seu trabalho, “a arte como sacerdócio, como único caminho! Acreditar, à revelia do mundo, naquilo que me move, acreditar na minha própria fome, nas ideias que me tiram o sono e que me fazem criar, que  são o ar que respiro. Ser um criador não por tarefa, mas por necessidade absoluta de manifestar uma inconformidade da alma que se desdobre em poesia cénica!” Ivam Cabral, um dos directores dos Satyros (com passagem por Portugal nos anos noventa), acrescenta que a estética de Zé Celso “traz para a cena o dionisíaco, nos ensina o ritual e devolve a nossa crença ao teatro. O Teatro Oficina é, antes de tudo, um lugar de culto, de amor incondicional ao teatro. “

Arte e Política

Em 1968, Zé Celso dirigia Roda Viva, de Chico Buarque, no Rio de Janeiro. Era uma montagem agressiva, com os actores a interpelarem violentamente a plateia. Na temporada paulista, uma milícia de direita, o Comando de Caça aos Comunistas, agrediu fisicamente o elenco e destruiu parte do cenário. Na resposta, vieram duas peças de Brecht, cujos coros eróticos foram as sementes do trabalho dos anos seguintes, em que o Teatro Oficina se tornaria uma comunidade e Zé Celso o seu líder carismático, percorrendo o Brasil.

Em meados de setenta começou o exílio de Zé Celso, que só terminaria em meados dos anos oitenta, mesmo depois do regresso ao Brasil. Durante essa travessia no deserto, Zé Celso manteve-se fiel à sua visão artística, estudando peças que realizaria depois, insistindo na criação de uma obra original que explodiria nos anos noventa. Claudia Schapira lembra-se bem do Zé Celso nessa época: “Naquele tempo, ele estava tentando tombar [classificar] o Oficina, retomar o grupo, mas parecia estar invisível. Os comentários  eram de que ele ‘estava anacrônico’ e que o seu tempo acabara. Que nada! O que mais me surpreendia da sua figura, era a incansável persistência e a crença inabalável na própria obra. Já vi o Zé fazer apresentações de ensaios de quatro horas, para duas pessoas, com a mesma força que para uma casa lotada.”

Para Ivam Cabral, dos Satyros, grupo que começou por ocupar a praça Roosevelt até esta se transformar no foco do teatro independente de São Paulo, “o Zé Celso não só influenciou toda a cena contemporânea como nos deu um modus operandi. É dele a ideia dos colectivos que se formaram a partir do final dos anos oitenta em São Paulo”. Os Satyros viram no trabalho de Zé Celso “uma possibilidade. Em 1989, não tínhamos nenhuma forma de incentivo ao teatro. Quer dizer, ao teatro que nos interessava. Havia a ideia das grandes produções com atores que vinham da televisão, os famosos ‘cabeça de cartaz’. É o Zé que nos ensina que é possível vivermos em colectivo, contar nossas próprias histórias.”

Em 1993, “Ham-let” reinaugura o Teatro Oficina, fechado desde 1974. O novo espaço é pensado como uma rua que pudesse ser atravessada, e com paredes envidraçadas de onde se vê o exterior. O problema é que os terrenos confinantes são propriedade do magnata Sílvio Santos, que anos a fio, tentou construir um centro comercial na área circundante. Mas ao fim destes anos, o encenador ganhou o braço-de-ferro. Diz Marco António Rodrigues que uma dos qualidades de Zé Celso é a determinação: “O Zé uma referência também no que diz respeito à consistência política. Ele venceu o Sílvio Santos, o que não é pouca coisa. Tem uma resistência tão atávica, tão obsessiva, que é como um David que derrotou Golias. Nisso também é uma luz para a gente.” A partir de então, o grupo pôde fazer uma experiência cada vez mais radical, no centro do São Paulo, de envolvimento com a população da área, incluindo meninos de rua. Ivam Cabral declara os Satyros “filhotes confessos do Teatro Oficina. Súbditos e admiradores incondicionais.”

 

As Bacantes

Para Carol Mendonça “são muito marcantes montagens como As Bacantes e o Ham-let. Eu as vi muito novas, estava começando a estudar teatro. Acho até que foi a primeira vez que eu vi uma montagem de Hamlet, e a maneira como o Zé lidava com o texto ‘clássico’ era quase uma profanação, inserindo muitos temas que era importantes naquele momento, no cenário politico e cultural brasileiro, e mesmo a relação do próprio Teatro Oficina que estava com problemas em relação ao terreno. Toda vez que entro no Teatro Oficina, consigo lembrar de momentos que vivi lá.”

As Bacantes condensa a arte de Zé Celso, ao concentrar os processos de criação experimentados durante quatro décadas. Ao texto original da tragédia grega, o encenador agregou falas, gestos, sons e imagens relativos ao estado da nação brasileira. A esse combinado juntou ainda referências autobiográficas e ao contexto do grupo. E tudo isto é banhado por um misticismo e lucidez desarmantes. Claudia Schapira, que no Bartolomeu cruza o teatro com o hip-hop, identifica práticas comuns: “Falar de qualquer tempo trazendo para o tempo que nos toca viver aquele passado remoto, actualizando as proposições, encontrando ecos no presente. O gosto pela acção colectiva, pelos coros, pela dramaturgia musical, pela ironia, pelo distanciamento, pela interferência nos clássicos, o rito…”

Porém, para alguns, como Pedro Mantovani, outro jovem encenador, “a concepção de teatro de Zé Celso não mudou muito desde os anos setenta, começo de oitenta. É o resultado das experiências teatrais dos anos setenta e sessenta.” Marco Antonio Rodrigues confirma, mas vê nisso uma coisa boa: “Sem ele, o teatro brasileiro seria muito mais careta. O Zé continua a revolução de costumes de 1968, corre muitos riscos, trabalha sempre no limite. O seu trabalho está na carne, porque ele percebeu que qualquer transformação tem de partir da subjectividade.” Carol Mendonça, a mais nova deste conjunto de criadores, conclui: “Eu acho o meu trabalho bastante distinto do trabalho do Zé, mas de alguma maneira meu trabalho só é possível hoje em São Paulo porque o Zé Celso ampliou muito a maneira de se pensar espaço teatral, dramaturgia, interpretação, relação com o espectador, e principalmente, ele criou uma maneira muito brasileira de fazer teatro, ao transformar a antropofagia da ‘Semana de 22’ não só em tema mas em linguagem.”

Das influências europeias, Stanislavski, Artaud, Brecht, aos modernistas brasileiros, com Oswald de Andrade à cabeça e os índios à perna, Zé Celso comeu e deixou-se comer. Serve agora os gregos numa bandeja aos portugueses. Quem comerá quem?

Buenos Aires – Faz-se teatro todos os dias

Mi Vida Después, de Lola Arias, La Carpinteria

As quatro páginas do P2 com o meu artigo sobre os teatros de BsAs, para os expatriados. E uma página extra, aqui no blogue, com fotos dos espaços teatrais porteños.

Desampara a praça

Os Assassinos, de Miguel Castro Caldas
Porto, 29 de Maio de 2011 { * * * * }
Já Passaram Quantos Anos, Perguntou Ele, de Rui Pina Coelho
Porto, 8 de Dezembro de 2011 { * * * } 

Estas duas peças fazem parte da processo de renovação do TEP iniciado há cerca de um ano. Na primeira, Os Assassinos, escrita a partir de um conto célebre de Hemingway, dois assassinos profissionais chegam para matar um homem, «o Sueco», que mesmo depois de alertado se recusa a fugir. A partir daqui, resumir o espectáculo é não compreendê-lo. As personagens vão dissolvendo a ficção convencional em reflexões pessoais sobre o episódio, e as falas típicas da literatura policial são transformadas em paráfrases que descarnam a situação esperada, fazendo ligações entre a recusa em fugir do «Sueco»; a preferência por não fazer nada de Bartleby (da novela de Melville); e a insistência em passar fome de O Artista da Fome (do texto de Kafka); tudo isto culminando num tiroteio. A peça é uma alegoria do impasse em torno das manifestações de 12 de Março de 2011 nas praças do país.

O autor e o encenador assumiram o desafio formal de romper as regras dos policiais. Exemplo disso, o cenário reproduz com detalhe maravilhoso um balcão de bar, não faltando um espelho enorme a pedir para haver tiroteio. A acção, porém, decorre de modo inesperado. O tal tiroteio, cheio de fumo e barulho, termina sem um cadáver estendido, nem tampouco um vidro partido. Não se deve interpretar a cena em demasia. Mas o resultado é uma frustração das expectativas do género (normalmente, os tiros deixam os corpos esburacados e os espelhos estilhaçados), que obriga a pensar duas vezes no significado da peça. O desafio ético (saber dizer não) e estético (fazer um tiroteio sem tiros) são uma e a mesma coisa.

Ficcionando a nossa existência como clandestina, Os Assassinos herda, de certo modo, o código secreto inscrito nos livros dos portugueses Dennis McShade e Dick Haskins, e que culminou em O Que Diz Molero, de Dinis Machado.

Já Passaram Quantos Anos, Perguntou Ele, o segundo espectáculo, retrata a relutante passagem à idade adulta das pessoas nascidas nos anos 70, que antes disso se fazia indo à tropa ou casando, mas agora se estende por anos, entre estudos prolongados, empregos precários e uniões de facto. (As mesmas do 12 de Março – outros há que terminaram o curso a tempo e horas, trabalham para grandes empresas, casaram e não vão ao teatro.) Rui Pina Coelho (colaborador do Público) buscou inspiração em Look Back in Anger, de John Osborne, estreado em 1956 no Royal Court Theatre, em Londres. A peça desenvolve-se a partir de uma intuição certeira: o fim do mundo, anunciado na internet e visto no cinema, é uma metáfora para o desejo de mudança e a sensação de bloqueio dessa geração, ou, de modo ainda mais prosaico, para o fim da juventude. Este espectáculo serviria precisamente para ritualizar essa mudança, tanto mais que parece ter acabado o mundo que permitiu à geração de 70 crescer devagar. Dito isto, a encenação e o texto tentam ser despretensiosos e directos, e por isso apresentam-se com certa crueza e frontalidade, acompanhada de uma banda sonora enérgica; mas o que podia ser uma virtude acaba por tirar tensão ao espectáculo: a cena fica lassa, as falas perdem direcção; o que se ganha em espontaneidade de traço perde-se em acuidade e caracterização. Porém, o vínculo desta ficção com o público é real e o seu sentido de urgência precioso.

Estas duas peças têm em comum uma articulação de géneros ficcionais: o policial e o filme catástrofe. Ambos são interrompidos por estratégias discursivas: no primeiro caso a auto-consciência das personagens; no segundo a referência filmes, notícias e factóides. Ou seja, lidam com as expectativas do público quanto aos géneros e com a experiência do público quanto ao dia-a-dia. Ambos fazem da encenação um modo de filosofar em cena, no caso a partir de textos, e ambos se referem indirectamente ao contexto político nacional.

Onde os autores como John Osborne, nos anos 60, tinham várias revoluções para fazer, o teatro engajado de hoje expressa-se num modo teatral e num universo cultural construído dentro do capitalismo como sistema: apesar da música rock e do teatro épico, a contracultura tornou-se um bem de consumo. Por isso, o tiroteio sem mortos de Os Assassinos é mais potente e subversivo que o retrato realista de Já Passaram Quantos Anos, Perguntou Ele.

As escolhas dos dramaturgos anónimos 2011

Bom ano! Para entrar bem em 2012, cá estão mais uma vez as escolhas dos dramaturgos anónimos. Pedi a uma série de autores que indicassem os seus espectáculos favoritos. É uma selecção apurada dos melhores espectáculos do ano, feita por cenófilos dedicados. Este ano só um espectáculo recebeu mais do que uma nomeação: Holiday, de Raimondo Cortese, do Ranters Theatre, visto em Lisboa e no Porto. Em segundo lugar, ex-aequo, ficaram todos os outros. O grande vencedor, contudo, é a Culturgest, como podem ver pelos links: quatro dos espectáculos escolhidos estrearam neste espaço. Cliquem para ver o que é o quê.

Ardente (memorial para Pedro e Inês de Portugal)

O Avarento

A Boda

As Cebolas de Napoleão

Com Umas Asas Enormes

Flores para Mim

A Game of You

Histoire (s)

Overdrama

O Quê – Onde

A Pedra

Um Punhado de Terra

Snapshots

Desejo e medo

 
Desejo sob os Ulmeiros, de Eugene O’Neill, encenação de Nuno Cardoso 
Porto, 15 de Dezembro {***}

O dramaturgo Eugene O’Neill tinha um projecto: reescrever as tragédias gregas com roupagens do Novo Mundo. Esta peça, de 1924, usa o mito de Fedra para compor uma história passada em meados do século XIX, na Nova Inglaterra, local de chegada dos primeiros peregrinos puritanos ao continente norte-americano. E os criadores deste espectáculo pretendem ser tão acutilantes quanto a peça realista de O’Neill. Mas da intenção à prática vai um passo, que neste caso nos levou da ideia de tragédia à matéria do melodrama, no texto, e a um corpo de delito mais cómico do que se esperaria, na encenação. Senão vejamos.

Na mitologia grega, Fedra, casada com Teseu, rei de Atenas, apaixona-se pelo enteado, Hipólito. Rejeitada, a rainha acusa Hipólito do próprio crime. Teseu manda o filho para o exílio, onde este morre. Desesperada, Fedra suicida-se. Na peça americana, o velho mas enérgico Ephraim casa pela terceira vez, trazendo para casa a jovem Abbie, rival na disputa da herança paterna. Um dos três filhos, Eben, rouba dinheiro ao pai e compra a parte dos dois meio-irmãos na extensa propriedade murada. (Os dois vão para o Oeste, na febre do ouro.) A rival, porém, torna-se amante de Eben. Deste amor incestuoso nasce um rebento que o velho Ephraim torna herdeiro único, satisfazendo um antigo pedido de Abbie. Eben, vendo-se traído, quer abandonar Abbie. Para provar que ama Eben acima de todas as coisas, em particular acima do direito à propriedade, a Fedra do Massachusetts asfixia o filho.

E quanto à encenação? Esta versão de Desejo sob os Ulmeiros tem tudo para resultar no que diz respeito aos chamados production values: aqueles aspectos técnicos da produção de um filme ou de uma peça que dependem dos materiais e modos de fazer. Quer isto dizer que o som, a luz, os objectos, o guarda-roupa, etc., são impecáveis. Além do mais, os actores interpretam o texto com a impulsividade, a capacidade de escuta e o carácter lúdico que são indispensáveis a um elenco feito de talento e experiência como este. Apesar disso, na hora da verdade, quando a personagem feminina revela, primeiro, que matou o filho, e depois, como matou o filho, a sala riu às gargalhadas. Nessa quinta-feira à noite, algo estava fora do lugar. Mas o quê? Ulmeiros não havia muitos, é certo; e os desejos também pareciam perder-se entre a ganância de umas personagens e o escárnio de outras. A casa, a terra, o poder, a propriedade, estes foram os tópicos mais desenvolvidos na montagem, o que está de acordo com a visão de O’ Neill de um materialismo atávico na construção dos EUA. Os espectadores terão adoptado o ponto de vista cínico das personagens secundárias (os dois irmãos, os dois lavradores e os dois polícias sendo feitos pelos mesmos actores), que se riem o tempo todo como um coro de hienas? Não só. De facto, as personagens principais parecem ser tão dominadas pelas suas vontades mais imediatas (a ganância do dinheiro e o apetite sexual), e agir de um modo tão despachado, tão sem reflexão nem dilemas, que surgem menorizados a nossos olhos, como nas farsas. A peça original, que queria ser uma tragédia americana, já foge para o melodrama; o melodrama, neste início de século, já foge para a farsa; e jogado assim, então, só causa catarse pelo riso. Como levar os actores a representar uma acção dramática, cómica ou trágica, com verdade? Esta é uma das principais questões do teatro moderno e contemporâneo – que se complica quando se começa a pensar no que será a verdade. Não basta ter por base um mito ou um enredo dramático. Seria preciso encontrar uma relação entre a vida dos actores, a vida das personagens e a vida dos espectadores. Para começar.

Falso ou consequência?


 
A Varanda, de Jean Genet
Lisboa, 2 de Dezembro [****]

A Varanda encerra um ciclo de repertório do Teatro da Cornucópia sobre a revolução e as suas máscaras, que em si merece elogios. O espectador que tiver tido a oportunidade de assistir às encenações de A Cacatua Verde, do austríaco Arthur Schnitzler, e «Ela», do mesmo Genet, verá este espectáculo com outros olhos, reflectindo sobre o que é verdadeiro, falso e consequente nas revoluções que possa ter vivido. Com estas peças revela-se em especial como a máscara da liberdade, quando é idolatrada, se torna a mais autoritária de todas. E assim se faz a inscrição do gesto artístico que constitui a encenação teatral na memória de uma comunidade (no caso a dos espectadores do Teatro do Bairro Alto).

A Varanda é o nome de um lupanar onde pessoas comuns realizam os seus sonhos de grandeza política e sexual. Lá fora, ouvem-se os tiros de uma revolução. Protegido pelo chefe de polícia, este bordel temático é tal modo a porta giratória do poder que o líder revolucionário acaba por lá entrar para concretizar a sua fantasia de herói nacional. No fim das contas, as imagens falsas são verdadeiras e têm consequências.

Uma das novidades desta encenação é um certo estilo figurativo, para não dizer realista, dado quer pelo prosaísmo da interpretação, quer pelas palavras francas e directas da tradução. Essa espécie de figurativismo é confirmada, por um lado, pela maior clareza das referências à Espanha franquista e, por outro, pela citação das obras de Paula Rego que retratam, num mesmo passo, o autoritarismo de Estado e o autoritarismo de trazer por casa do Portugal salazarento. Os quadros inspiradores encontram aqui a sua potente materialização cénica, sem precisar de maior explicitação, que aliás lhes tiraria fulgor. A acção dramática vem da força das imagens auto-impostas, que parecem ter vontade própria, ou pelo menos vontade maior do que a das personagens. Cintra revela Genet como um autor ibérico: lírico, alegórico e moralista.

Claro, é difícil não ser figurativo quando a figura dos actores está em cena, mas de facto há muitas maneiras de esfolar o gato. Nesta encenação, os actores estão mais perto das suas personagens do que é habitual. Irma, a puta madre, oficiante do bordel, é representada por Luísa Cruz com um à-vontade, um coloquialismo e uma familiaridade irresistíveis, aparentemente naturais. Mistura de Mãe Coragem com a Mariquinhas da tradição fadista, a todo o momento se espera que a actriz lamente o fecho daquela casa onde tinha, por pirraça, janelas com tabuinhas.

Alguns actores são mais ambíguos na interpretação que fazem dos papéis, como se desconfiassem das respectivas personagens, e essas personagens desconfiassem, por sua vez, do papel exemplar que sustentam: o de Bispo, de Juiz, de General, de Chefe da Polícia e de Revolucionário, ou o de Prostituta e o de Virgem. Só assim, ao sublinhar a função que desempenham, os actores revelam a margem de subjetividade em que Genet e Cintra apostaram para dar vida ao espectáculo. Contudo, os corpos dos actores raramente correm risco de exposição, e estas máscaras, pensadas para revelar a verdade, tornam-se demasiado opacas. A ameaça do real passa ao lado.

Para além de Os Negros, e tal como outra peça dos anos sessenta sobre a revolução, Marat/Sade, de Peter Weiss, também este texto foi influenciado pelo visionamento, nos anos cinquenta, do documentário Les Maîtres Fous, de Jean Rouch, obra emblemática do fim da era do colonialismo. No filme, alguns trabalhadores habitualmente pacatos, imigrantes vindos do Níger para a cidade de Acra, no Gana, entregam-se nos tempos livres a um ritual de possessão onde incorporam entidades que replicam as figuras da hierarquia dos Estados coloniais europeus. O teatro da opressão, representado pelos oprimidos, é apenas uma via para o poder.

Contraponto de Encontro

CICLO DOCUMENTE-SE!
Black Tie, de Helgard Haug, Daniel Wetzel e Miriam Yung Min Stein
Porto, 29 de Novembro [****]

Este espectáculo começa com os actores descontraidamente sentados num pequeno plateau em cima do palco, enquanto o público entra, ao som de uma canção muito popular dos U2. O plateau está revestido, sabemos depois, com uma ampliação do mapa genético de Miriam Stein, jornalista musical de profissão, a nossa anfitriã esta noite. A um canto fica Ludwig, o músico, operando som e imagem. A meio há uma tela, com uma inscrição em coreano no topo, onde serão projetados vários documentos. À frente dois microfones, usados por Miriam e também por Hye-Jin Choi, que só aparecerá mais tarde. Durante uma hora e meia é-nos apresentado o caso de Miriam Yung Min Stein, nascida na Coreia do Sul e deixada dentro de uma caixa de sapatos em frente à câmara municipal de Seul, e o modo como a sua história individual se cruza com a história de pessoas e instituições de todo o mundo, desde o fundador norte-americano da agência de adopção internacional à família alemã que acolheu o bebé nos anos setenta. Apesar de ser uma performance, esta biografia pertence realmente à pessoa que está à nossa frente a relatá-la. Miriam não conheceu os pais biológicos, e todos os tópicos relacionados são explorados nesta apresentação: as contradições da ajuda internacional, as empresas de descodificação do genoma on demand, os grupos genéticos a que pertence cada pessoa, os reality shows de reencontro de familiares perdidos.

O espectáculo é feito de forma simples e engenhosa, e o assunto (a importância da cultura e da biologia no destino pessoal) é exposto com lucidez, originalidade e gosto. Trata-se de uma verdadeira arte de intervenção, no sentido em que se propõe participar num debate colectivo acrescentando ideias e expondo argumentos. E por muito sóbria e sem sentimentalismo que seja, é uma intervenção emotiva, a que não falta uma pitada de melodrama. Quando Miriam saiu da casa dos pais adoptivos, a mãe pediu-lhe que devolvesse a chave. Talvez a senhora Stein quisesse apenas dizer à filha que gostava que ela usasse mais a chave, mas a crueldade do pedido fechou de vez o ciclo de caridade iniciado com o pedido de adopção internacional, e pôs Miriam definitivamente no papel da vítima. O espectáculo cria uma comunhão com o espectador menos embaraçosa e mais politizada que os programas de TV, servindo precisamente de contraponto à comercialização das questões de identidade.

A sensação de desconforto existencial de Miriam – uma adolescente de traços orientais na República Federal da Alemanha – propulsionou a busca das suas origens e da sua identidade. Na Coreia, é alemã; na Alemanha, uma estranha. Qual é a sua identidade, afinal? O mapa genético indica uma propensão para ter a doença de Alzheimer. Miriam constata que além do buraco negro que é o mistério da sua proveniência, um outro abismo a espera no final da vida, quando se tiver esquecido de tudo e apenas puder recordar as suas canções preferidas. Esse top ten é que é genoma dela.

Le Notti di Cabiria

Na mesma noite dos cortes de 40% nos apoios da Secretaria de Estado da Cultura, vi – na ESMAE – o retrato da nossa ingenuidade. (Ou, como vem no IMDb, «A waifish prostitute wanders the streets of Rome looking for true love but finds only heartbreak».)

Não existe amor em SP – dizem

Talvez não exista amor em SP, como canta o rapper Criolo, mas espectáculos, exposições e restaurantes não faltam.

[filme] Cave Of Forgotten Dreams, de Werner Herzog | FREI CANECA

[comida] Bar da Dona Onça

[dança] The Continuum: Beyond the Killing Fields, TheatreWorks (Singapura) | SESC SANTANA

[comida] Amigos do Picuí

[expo] Seu Corpo da Obra, Olafur Eliasson | SESC POMPÉIA

[comida] São Cristovão

[teatro] Orfeu Mestiço – uma hip-hópera brasileira, Bartolomeu (SP), enc. Claudia Schapira | ESPAÇO BARTOLOMEU

[teatro] A Dócil, Folias (SP), enc. Pedro Mantovani | GALPÃO DO FOLIAS

[comida] Cortás

[filme] Girimunho, de Elvécio Marins Jr. e Clarissa Campolina | CINE LIVRARIA CULTURA

[comida] Tanuki

[teatro] Mantenha Fora do Alcance de Crianças, [ph2]: estado de teatro, enc. Rodrigo Batista | TEATRO JOÃO CAETANO

[filme] Le Gamin au Vélo, de Luc e Jean-Pierre Dardenne | RESERVA CULTURAL

[música] Ron Carter | SESC PINHEIROS

[expo] Queremos Miles! | SESC PINHEIROS

[música] Fagner e Cidadão Instigado | SESC POMPÉIA

[filme] Olhe Pra Mim de Novo, de Kiko Goifman e Cláudia Priscilla | FREI CANECA

[teatro] Les Naufragés du Fol Espoir, Thèâtre du Soleil (França), enc. Ariane Mnouchkine | SESC BELENZINHO

[comida] Bar Pompéia

Crítica entre irmãos

 
Não Gosto (Quatro Conferências)
Não gosto dos críticos, não gosto, por Jorge Silva Melo
Lisboa, 26 de Setembro
 
O Jorge tinha avisado: não gosta de críticos. Também não os odeia. Escreveu críticas, no seu tempo. Não desdenha voltar a escrever. Talvez faça isso no Teatro da Politécnica. Se calhar até gosta de alguns. Michael Billington, por exemplo. O próprio Vasco Câmara, cujo título num ípsilon sobre o premiado filme de Steve McQueen (‘artista plástico já é cineasta’) deu o mote inicial, por revelar a tentação da crítica em agir como mestre-escola, passando certificados de habilitação aos artistas e certificados de incompetência ao espectador. Não disse de quem não gostava, o Jorge. Enfim, gosta dos críticos como se fossem irmãos. Caim gostava de Abel.  E por isso Jorge Silva Melo fez na segunda-feira, na Culturgest, na primeira de quatro conferências sobre o que o desgosta no teatro nacional, um apelo à crítica fraterna, mas violenta; à crítica injusta, porque não se trata de nenhum tribunal; à crítica parcial e apaixonada como só os irmãos sabem ser, e, se possível, com polémicas públicas de proporções bíblicas. Tal qual as melhores personagens de teatro, uma coisa é o que pensa, outra é o que diz e uma terceira o que faz Jorge Silva Melo, actor e autor, director dos Artistas Unidos. É dialéctica.
 
 

Que os críticos sejam eunucos, como lhes chamou Noel Coward, foi o mais perto que se chegou de um insulto. E assim se goraram as expectativas de um duelo ao alvorecer, quais Ramalhos Ortigões e Anteros de Quentais, em que os tiros ou as espadas se desviassem mutuamente na neblina matinal. E por isso o fim de tarde foi passando, brando e suave, com as pessoas perorando sobre os males do teatro em Portugal, que alguns insistem estar a passar por uma boa fase. Não eu, que sou do contra. Às oito e pico estava toda a gente cá fora. O primeiro round tinha chegado ao fim com um empate. Para a semana há mais.

Porque têm os críticos de ser eunucos, sempre à procura de uma odalisca para denunciar? Porque não podem ser mais como o sultão, ou califas no lugar do califa, ou, vá lá, odaliscas? Porque é que os críticos de teatro não podem ser mais como os críticos de poesia, que também são poetas, pelo menos a maior parte, perguntou o mestre? Eu, este vosso crítico e dramaturgo, que tenho peças ora publicadas ora encenadas, só posso fazer que sim com a cabeça.

Falar da crítica como um todo é, aliás, um exagero. Feitas as contas, são meia-dúzia os que escrevem na imprensa e outros tantos os que trabalham na universidade. Não há todo, há partículas dispersas. Se me alongar de mais neste parágrafo terei falado de todos os casos particulares e perdido qualquer hipótese de generalizar para abstrair das pessoas em concreto. As excepções ao caso geral são a regra.

E isso de ser crítico é outra grande falácia. Em Portugal, que eu esteja a ver, provavelmente apenas um dos escribas se declara como crítico às finanças. O resto faz, mas não é. Tem outras actividades, é professor, ou jornalista, ou assessor, ou de tudo um pouco. (À semelhança de Jorge Silva Melo, aliás.) O que não está mal, nem bem, é o que é. Assim, os críticos têm mais liberdade para dizer o que querem. Por outro lado têm outra vida, e mais que fazer do que ver espectáculos e escrever sobre eles. Até porque não há espaço para tanto. Quando o crítico acabasse de planear a sua agenda para ver tudo, já teriam saído de cartaz vários espectáculos. Para sobreviver no mercado de futuros e derivados, os artistas optaram por patrocinar as antevisões de espectáculo e ostracizar a crítica. As carreiras dos espectáculos são tão curtas que as críticas perdem relevância. Porque haveria um jornal de as publicar, se o espectáculo é tão irrelevante que já nem está em cena? Se fôssemos contar as críticas publicadas ao longo de um ano a conclusão seria esta: os críticos são fantasmas, e as críticas correntes de ar. A rarefação de críticos e de críticas impede a sua melhoria, que todos reclamam. Estou quase a pedir um apoio ou subsídio para a crítica, parece, caro leitor; mas não se preocupe, vou parar antes disso.

Há coisas que matam a crítica. O crítico dá estrelas, as gentes deixam de ler o texto. O crítico é taxativo, perde mistério. O crítico é ambíguo, ninguém percebe se gosta ou não. No circo romano não há debate crítico, há polegar para cima ou polegar para baixo. É o facebook e a bolsa de valores ao mesmo tempo. Contra isso, mais texto, mais argumento, mais força de atrito, apelou Silva Melo.

O conferencista pediu antagonismo, mas gerou pouco. De resto, Silva Melo tem razão. Como contradizê-lo? O Jorge não gosta da crítica que se faz hoje porque ela não tem autoridade suficiente para criar polémicas dignas de nota, e isso aumenta a solidão dos artistas. É verdade. Sem Abel, não haveria a história de Caim para contar. Isso é que é dialéctica.

É do género de fazer género

FIMP
Éloge du Poil, de Jeanne Mordoj e Pierre Meunier
Porto, 16 de Setembro [****]
 
CIRCULAR
(M)IMOSA – Twenty Looks or Paris is Burning at the Judson Church (M), de Cecilia Bengolea, François Chaignaud, Trajal Harrell e Marlene Monteiro Freitas
Vila do Conde, 24 de Setembro [***]
 
Nos festivais, como nas farmácias, há de tudo, do mais tradicional ao mais inovador, embora nem sempre onde se espera. No FIMP deste ano, Éloge du Poil, uma criação de 2007, partiu de truques, figuras e géneros aparentemente clássicos para apresentar um solo de técnicas circenses mista em que, para além de se brincar com a morte, é jogada a inconformidade de género (sexual) e respectiva espectacularidade. Uma mulher de barbas, imitação de um número típico de freak show, apresenta os seus talentos (maravilhosos) de contorcionismo, malabarismo e ventriloquismo num cenário que imita um patíbulo e a que não faltará uma forca, primeiro, e uma cova, depois. Os números de ventriloquismo são feitos com crânios de animais, e o solilóquio final é uma doce despedida da vida que não a soube querer e a partida para um enterro erotizado, com terra fresca, negra, boa, de que a artista se cobre completamente. «Adeus, sistema nervoso!», diz ela sem remorso e este vosso crítico acrescentaria: és húmus e ao húmus tornarás.
 
Uns dias depois, os Bonecos de Santo Aleixo trouxeram de novo ao Porto o celebrado Auto da Criação do Mundo, que vive em boa parte da interacção irrepetível com a plateia que assiste naquele dia em particular. Tradição por um lado, tanto que é a ela que é atribuída a autoria da cena, mas inovação contínua por outro, já que sem isso os bonecos não ganhariam vida.

 

No Circular, em Vila do Conde, dir-se-ia que (M)imosa tem como género performativo não a dança, o teatro ou o espectáculo de variedades, mas a própria ideia de vanguarda, já que parte do desafio do espectáculo é não ser convencional, tanto que é apresentado um pouco como um ensaio, com o guarda-roupa semi-improvisado espalhado pelas cadeiras da plateia e um aparente sorteio dos números que encerram o show. Boa parte do valor da cena vem de ultrapassar o snobismo voluntário das plateias internacionais, trocando os sinais de trânsito artístico. O espectáculo depende das referências a certos bailes dos anos sessenta nova-iorquinos filmados num famoso documentário, Paris is Burning, que a maior parte dos espectadores do Teatro Municipal de Vila do Conde, arrisco, tem de imaginar; mas sobrevive graças à reapresentação de canções e temas da indústria musical, ora cantados ora dançados ora ambos, cujas convenções de performance são viradas de cabeça para baixo, distorcidas e contorcidas, levadas ao espasmo e ao paroxismo, para rebentar com as convenções de género cénico e de género sexual. (Ao mesmo tempo mostrando como o show business reitera as identidades de género.) Máscaras, travestis e imitações revelam o grotesco e o burlesco da indústria do espectáculo; mas o talento e treino dos performers, por um lado, e o tom biográfico das actuações, por outro geram a empatia necessária. O espectáculo é um cabaret moderno, nalguns aspectos, mas apenas um Bravo Bravissimo para adultos, noutros. O que mesmo assim entretém.

A casa dos nossos sonhos

 
ODISSEIA: TEATRO DO MUNDO
Saturday Night, encenação de Matthew Lenton
Porto, 18 de Setembro [***]
  
Saturday Night encerra o programa Odisseia, que trouxe ao TNSJ e a outras salas do país espectáculos de muito bom nível, recuperando o espírito dos festivais PoNTI de outrora. Este espectáculo, uma estreia mundial de uma companhia escocesa com parte do elenco de nacionalidade portuguesa, lembra de imediato outras peças de viés naturalista apresentadas no palco do São João: um «Der Name», de Jon Fosse, com encenação de Ostermeier, em 2001, todo passado numa caixa que representava a sala de uma família; e o «European House – prólogo a un Hamlet sin palabras», de Alex Rigola, em que a história de Hamlet se passava numa vivenda de quatro pisos (por sua vez inspirado no «Hamlet Vai à Luta», de 1987, de Ari Kaurismaki). 
 
Naturalistas porque focam os gestos mais pequenos do quotidiano das personagens, tentando por essa via encontrar uma relação directa com a vida da plateia, e esperando que desse retrato emirjam significados, mas também porque se filia na tradição das linguagens do drama televisivo, cheia de simulações de vídeos caseiros; do cinema documental, que filma a realidade; ou da fotografia, o verdadeiro registo do real. Neste espectáculo, a proverbial ‘quarta parede’ da encenação do século XIX existe mesmo, só que é transparente. O cenário é uma casa, ou melhor, o corte de um dos alçados laterais de uma casa, da qual vemos a sala e o quarto-de-banho, no primeiro piso, habitados por um casal recém-chegado. No andar de cima, está a mesma personagem feminina do primeiro piso, mas sozinha, num episódio futuro. A passagem do tempo é mostrada por sinais concretos e objectivos, da ordem da experiência diária: infiltrações e plantas que crescem desgovernadamente. Saturday Night mostra os tempos do dia-a-dia, desde o transporte de todos os móveis para a casa nova até às idas ao quarto-de-banho de cada uma das personagens. Claro que às vezes fazem batota, sim, afinal de contas é teatro. Mas o espírito é o da representação detalhada – e neste caso, algo satírica – das pequenas coisas da vida. Boa parte disto se deve ao facto de ser uma produção internacional, que tem de se valer de coisas comuns a todos os europeus, pelo menos, para comunicar. Apesar de vermos os actores a falar, o espectáculo é mudo. Mas percebe-se tudo: as circunstâncias são evidentes, os gestos nítidos, os pensamentos claros.
 
Algumas situações resvalam para o absurdo, e há pelo menos duas infiltrações de género teatral: a vizinha de cima que tem um desmaio, em tom melodramático, e o vizinho abusador que invade a intimidade do casal, em tom farsesco.
 
O naturalismo não é tudo, porém. O espectáculo tem aparições misteriosas de alguns gorilas, alguns astronautas e alguns inspectores sanitários, cuja narrativa cabe ao espectador completar. A dimensão metafísica destas referências a O Planeta dos Macacos e a 2001 Odisseia no Espaço é mais difícil de apanhar. Uma ou outra canção pop trata de capturar pathos suficiente para comover o espectador. O tema The Suburbs, dos Arcade Fire, empacota a angústia possível e lembra que tudo isto é apenas de uma espécie de teledisco mais longo.
 
Os outros espectáculos de Odisseia: Teatro do Mundo eram caracterizados por uma relação directa com a história política de vários continentes. A escala microscópica de Saturday Night não permite fazer isso com facilidade, é certo, mas as notas surrealistas, embora aparentem, também não substituem um argumento mais elaborado sobre o mundo e a condição humana. É esse o problema do naturalismo, mesmo quando ele é modernaço.

Desdém e sobranceria [CITEMOR]

Sede Remix, a partir de Eugene O’Neill, encenação de Carlos J. Pessoa
Montemor-o-Velho, 30 de Julho [**]
 

Eugene O’Neill escreveu o texto que deu origem a este espectáculo inspirado, em parte, pelo desastre do Titanic. A peça, em um acto, começa com os três sobreviventes de um naufrágio à deriva numa jangada, cercada por tubarões. São eles um Cavalheiro, uma Bailarina e um Marinheiro Mulato das Índias Ocidentais. Ao fim de um tempo, a Bailarina colapsa. Como a sugestão de canibalismo feita pelo Marinheiro não é muito bem aceite pelo Cavalheiro, há uma luta e os dois homens caiem à água. Os tubarões ficam contentes.

A versão remisturada pelo Teatro da Garagem para o CITEMOR deste ano mantém a metáfora da condição humana dada pela situação dos náufragos na jangada e envolve o original numa teia de piadas, notas de rodapé e exercícios de retórica que pretendem actualizar o texto, explicitar argumentos e confrontar o espectador, dando a ver a imoralidade irresponsável dos tempos que correm, e que anda ocultada pelo véu mediático de imagens electrónicas. O desastre que inspira este espectáculo é o da civilização contemporânea, aqui denunciada num tom cínico. O teatro não escapa, antes pelo contrário. As possíveis expectativas, por parte do público, de uma acção dramática com princípio, meio e fim, são tratadas com desdém e sobranceria, uma vez que fazem parte, supõe este vosso crítico, dessa mesma civilização virtual.

Cínico vem do apelido dado àquele filósofo grego, Diógenes, que por não acreditar na importância de nenhuma convenção social, e considerar tudo hipocrisia, vivia como um cão, dormindo numa grande ânfora de barro. (O reconhecimento dos demais gregos não era pouco: uma vez, quando a ânfora se partiu, colectaram-se para lhe pagar uma nova habitação.) Mas para um espectáculo que pretende dizer as verdades, Sede Remix mina o próprio sentido do que anuncia: o elenco está a mentir. Os actores atravessam-se, é certo, mas deviam representar mais com a planta dos pés – sim, a planta dos pés, o baixo-ventre e a cabeça, também. Para ter efeito, a dramaturgia hiper-textual do espectáculo exigiria actores alimentados a corrente contínua, que dissessem as frases com propriedade, e passando-lhes pelo corpo. É claro que são actores, e estão apenas a fingir, mas podiam fingir melhor – com mais variedade, mudança, tensão, fantasia. Tentado assim, o projecto de distinguir o real do virtual cai por terra. Feito ao cabo de apenas algumas semanas, este trabalho mostra bem as virtudes e limitações do modelo de residência artística: rapidez, mas dispersão; frescura, mas ligeireza; coragem, mas indiferença.

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