Dez espectáculos deste ano que eu revia a correr. Dez deles. Ler no Ípsilon.
Os Lusíadas (António Fonseca) - António Fonseca sabe Os Lusíadas de cor e salteado. Sozinho em palco, contando piadas sem perder a métrica, consegue fazer jus à beleza poética da obra camoniana e aos genes políticos do poeta inconformado. A falação dos 8.816 versos de Camões marcará a história de todos os lusíadas, incluindo os cem que assistiram às dez horas de decassílabos e as dez famílias que disseram o último canto com o actor. A gesta é de cada um. Regressa em Março, em Lisboa e outras cidades a anunciar.
Estaleiros (Marco Martins) - Este espectáculo é pungente quer pelas histórias de vida dos funcionários dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (que estão prestes a ser privatizados, neste final de 2012), quer pela encenação dessas dores, em especial através da composição de luz e sombra desenhada para elas por Nuno Meira. Os relatos revelam o sacrifício que é construir cada navio, baptizado pelos operários com sangue, suor e lágrimas. Agora estes homens estão parados. Os navios invisíveis nunca partem. Regressa em Abril, em Lisboa.
O medo que o general não tinha (Palmilha Dentada)
O texto deste espectáculo é uma torrente que só tem paralelo no modo irrequieto como Rodrigo Santos salta de personagem em personagem, é ele próprio, volta à personagem, interage com o espectador e ainda improvisa. Um desassossego que serve o tema: o medo, ou a falta dele, ou a coragem para o enfrentar, ou a inconsciência que é fazer espectáculos de teatro em Portugal, em especial sobre temas tão ideologicamente vigiados como o da resistência à ditadura salazarista. Uma medalha de mau-comportamento. Regressa em Março, no Porto.
Esta é a minha cidade (Teatro do Vestido) - Sete cenas para sete actores em ruas, largos, jardins, casas e estabelecimentos comerciais da zona do Mosteiro de São Bento da Vitória, no Porto, disputaram com o público e os moradores locais as versões do que é esta cidade. Partindo de um dispositivo experimentado em Lisboa, mas adaptado e reescrito para o Porto, o Teatro do Vestido traçou um novo mapa poético da Vitória, assente numa teatralização dos lugares que deve muito à literatura e à performance, mas sobretudo ao desejo de encontrar interlocutores concretos num mundo onde o espectáculo das imagens é o real.
Nora (Tg STAN)
Anjos com fome (Teatro Meridional)
Gladys (Elisa Zulueta) - Foi um convite para nos sentarmos à mesa de mais uma família disfuncional do teatro sul-americano, numa ocasião especial, um jantar de Reis. Gladys contou a história do Chile através da história dessa família. Podia ser a de qualquer país traumatizado por uma ditadura recente, por exemplo, Portugal – a diferença está no sentido de humor, bem conhecido das sitcoms mais sofisticadas, que faz o drama passar como comédia televisiva, de tal modo que temos de procurar a alegoria da nação por entre as piadas e os bordões (feitos com mestria pelos actores). Começando por nos desarmar, a peça vai revelando o espelhamento da geração mais velha na geração dos mais novos, e como os tabus de uns ecoam nas liberdades dos outros. A mise-en-scène é impecável, fazendo os seis imparáveis actores correr, lutar, sorrir, cantar e chorar como se o mundo acabasse amanhã. Com personagens, diálogo, situação, enredo e, sobretudo, compaixão, Gladys tem a força do realismo metafórico, um dos mais poderosos trunfos da dramaturgia moderna. Impróprio para snobes.
Fingido e Verdadeiro (Teatro da Cornucópia) - Inspirado na visão de Genet, o trabalho mais recente da Cornucópia teve um ponto alto nesta colagem de textos sobre a figura do mártir S. Gens, actor que se converteu ao cristianismo enquanto representava um baptismo. “Farto de imposturas”, como disse então ao PÚBLICO, Luís Miguel Cintra pôs em cena a sala de ensaios, a mesa do encenador, os volumes copiosos de referências eruditas e o tempo que preside à pesquisa de uma obra artística. Ir à Cornucópia é um dos sacramentos da nossa cultura.
+/- zero (Christoph Marthaler)
O Sr. Ibrahim e as flores do Corão (Teatro Meridional)
Vermelho (Teatro Aberto)

























O Sr. Ibrahim e as Flores do Corão, com Miguel Seabra e Rui Rebelo
Almada, 16 de Julho * * * *