A Boa Pessoa de Sezuán, de Brecht, encenação de Nuno Cardoso
Santiago de Compostela, 25 de Outubro
A Boa Pessoa de Sezuán conta a história de Shen Te, uma prostituta bondosa que acolhe três deuses disfarçados. O trio, apostado em acabar com a cidade, acaba por poupá-la, e até recompensa a prostituta com uma quantia suficiente para abrir uma tabacaria. De imediato, todos os cidadãos a procuram. Para sobreviver no mundo da mercadoria, Shen Te inventa um alter-ego, o primo Shui Ta, negociante implacável. A encenação de Nuno Cardoso para o Centro Dramático Galego está em digressão por várias cidades da Galiza, até Dezembro.
Brecht, dizem, compunha em cena imagens detalhadas. A linguagem não verbal era tão cuidada, e retratava tão bem as personagens, que as suas encenações eram adoradas mesmo por plateias estrangeiras. As imagens contam uma história tanto quanto as palavras, e cada encenação procura novos “ideogramas” com os quais possa compor a cena. Nos espectáculos de Nuno Cardoso essas imagens são procuradas nos ensaios, autênticos centros de pesquisa física e psíquica. Os actores tornam-se mediadores, mestres-sala, inventores, como diria Schechner. Em particular, as encenações de Nuno Cardoso repetem sobretudo os motivos e movimentos de um jogo cujas regras foram criadas de propósito. O cenário, área de jogo, chega a ter elementos do mundo do desporto, desde a tabela de básquete de Purificados, passando pela pista radical de Woyzeck, até às balizas de Ricardo II. Daí a grande vivacidade da cena, e uma estrutura tempo-rítmica própria do jogo, em prejuízo de uma enunciação mais realista da circunstância dada pelo texto. A concepção cénica global liga-se ao mundo através da realização de uma mitologia tirada tanto das linhas de força das personagens, como das energias do elenco, como ainda do imaginário da plateia. Por outro lado, a administração desse tempo-ritmo de cada actor, os crescendos e diminuendos, os diferentes andamentos, enfim, a manipulação da forma, tudo isso valoriza o ritualismo do drama.
A encenação de A Boa Pessoa de Sezuán problematiza a questão de ser bom num mundo mau, contida na narrativa, equiparando masculino a mau e feminino a bom. Apesar das referências ao noticiário de crises financeiras e militares no programa, e da profusão de letreiros luminosos que ilustram a cidade como um mercado de marcas, a fábula inventada por Nuno Cardoso para se apropriar do texto original tenta transpor tudo isso para a escala mitológica, ao representar a possibilidade de superação dessas oposições no reconhecimento do lado feminino e masculino de cada um de nós, o desejo de paz como feminino, a revolta como masculina. A tensão entre subjectividade feminina e objectividade masculina, e a superação dessa dialéctica em direcção a uma unidade transcendente correm como águas subterrâneas nesta montagem. O trabalho de Rocío Gonzalez e Hugo Torres salta à vista, bem com o da dupla F. Ribeiro e José Álvaro Correia, na cenografia e na iluminação, respectivamente. Mas isso é claro. Que Nuno Cardoso consegue traduzir ideias para palco, mesmo em galego, e que filosofa em cena, é que é preciso ver.