Balanço de 2008

By Jorge Louraço Figueira

Cá estão, na forma de listas de compras, as short lists e a lista geral dos espectáculos que maior desgosto me daria não ter visto e maior gosto teria em rever. Esta e as listas dos outros críticos do Público estiveram na origem das escolhas do Ípsilon.

Short Lists

Peças feitas de cenas e actos
1. Platonov
2. O concerto de Gigli
3. O Mercador de Veneza
4. Persona
5. A doença de Machado-Joseph

Peças feitas de números e fragmentos
1. Buckett
2. Segundo Segundo
3. Desafinados
4. AVC
5. Catástrofe

Solos
1. Diário de um louco (integrado no ciclo Solidões)
2. Ensaio
3. O Decisivo na Política
4. Um mundo muito próprio (Tributo a Buster Keaton)
5. Adúlteros desorientados

Para todos
1. Diz-que-diz
2. História de uma Gaivota…
3. Corações em Ferrugem

Estrangeiros
1. Purificados
2. A boa pessoa de Sezuan
3. 10.000 Anos

Lista Geral

1. Platónov, de Tchékhov, encenação de Nuno Cardoso, pelo TNSJ
A singularidade deste espectáculo vem da coincidência de vários factores: uma imaginação cénica com rédea dramatúrgica; a maturação de um método de pesquisa teatral; e a cumplicidade artística de um grupo de pessoas que trabalham regularmente debaixo dos tectos do TNSJ. O resultado é uma obra teatral que come à garfada o vermelho e dourado do teatro à italiana e, a partir do palco, reedita as coordenadas espácio-temporais que eram válidas até então. A composição do colectivo de actores em cena é pensada ao milímetro mas, como deve ser, a cada dia viva. O carácter dissoluto da personagem principal, bem sacado pelos traços feéricos de Hugo Torres, e a desmesura do projecto de Tchekhov, insuflada pela estamina da juventude do autor, batem certo com a celebração da mise-en-scène perseguida por Nuno Cardoso. Tudo isto é temperado com rigor formal e sobriedade de linguagem q.b., dando origem a uma dos melhores trabalhos dos últimos tempos, e defendendo a encenação como uma das belas-artes.

2. Diário de Um Louco, de Nikolai Gogol, encenação de José Carretas, pela Panmixia
Este espectáculo foi um dos quatro monólogos do ciclo Solidões. A interpretação intensa e sofisticada de João Melo apresentou-nos uma personagem com subtis reservas quanto à eficácia do próprio discurso, e uma certa distância no uso das palavras, que causavam uma vertigem de identificação no espectador. O funcionário público que formula sonhos de grandeza aparecia assim como qualquer um de nós, em mais uma lúcida exploração do carácter nacional feita pelo encenador e dramaturgo José Carretas.

3. Purificados, de Sarah Kane, encenação de Krzysztof Warlikowski, pelo Wrocławski Teatr Współczesny, no TNSJ
Esta encenação é uma alegoria do desejo homossexual, figurada por trocas de roupa e amputação de membros, que ecoa o horror de um campo de concentração. Os actores encarnam as personagens e as falas com grande clareza de sentido, tornando credível uma ficção em que a sucessão de picos dramáticos é apresentada sem preparação explícita dos conflitos. O que mais impressiona é a beleza das representações da violência, assentes no poder de sugestão dos gestos para reconstituir a força desse desejo.

4. Buckett, de Ricardo Alves, enc. Ricardo Alves, Palmilha Dentada
5. O concerto de Gigli, de Tom Murphy, enc. Nuno Carinhas, Assédio
6. Diz-que-diz, do Teatro do Frio, direcção de Catarina Lacerda
7. Segundo Segundo, do Mau Artista, direcção de Rodrigo Santos
8. O Mercador de Veneza, de Shakespeare, enc. Ricardo Pais, TNSJ
9. Persona, de Bergman, enc. João Pedro Vaz, As Boas…
10. Ensaio, a partir de Susan Sontag, direcção de Victor Hugo Pontes

E amanhã, para fechar o ano em grande, sairá uma selecção de espectáculos feita por um painel (anónimo) de dramaturgos do Porto…

Uma Resposta para “Balanço de 2008”

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