Saltimbancos é inspirado na fábula Os Músicos de Bremen, dos irmãos Grimm. Chico Buarque localiza a acção num “certo país onde os animais eram tratados como bestas” e no tempo em que os animais cantavam. Um jumento, um cão, uma galinha e uma gata fogem dos respectivos donos e patrões e decidem tentar a sorte na grande cidade. Como não têm nenhum talento especial, os pobres animais tornam-se músicos.
O cenário é de circo ambulante, com um pequeno picadeiro e um palco de carroça, e os figurinos e a coreografia evocam as tradições populares brasileiras. Os actores têm vozes formosas e desempenhos firmes. Tudo é decorado com brilho e cor, de tal modo que, à primeira vista, o jumento tem o trote elegante de um cavalo, o cão uma juba de leão, a galinha o porte de um pavão. (A gata doméstica é mais vagabunda.) A música é maravilhosa.
Chico Buarque namora com a forma das peças didácticas de Brecht, e este texto tem algumas lições explicitadas ao público: primeira, o melhor amigo do bicho é o bicho; segunda, um bicho só é só um bicho, mas todos juntos são fortes; terceira, os homens voltam sempre. Quando finalmente descobrem uma hospedaria, está ocupada pelos antigos patrões. Os animais expulsam os bandidos, tal como na fábula recolhida pelos irmãos Grimm. A canção que sucede a este episódio identifica as armas dos bichos: “junte um bico com dez garras, quatro patas, trinta dentes e o valente dos valentes ainda vai te respeitar”. No final, a trupe ocupa a hospedaria. Em suma, os animais unidos jamais serão vencidos. Mas tudo é feito com uma graça e verdade inigualáveis, já contida na fábula, e belamente concretizadas nas canções e palavras das personagens.
O espectáculo acrescenta algumas músicas à peça original: um tema de Cats, o conhecido sucesso do West End e da Broadway, e Os Argonautas, de Caetano Veloso, e, Tanto mar II (a versão desiludida) de Chico Buarque. O final é com esta famosa canção alusiva ao 25 de Abril, altura em que surge um cravo iluminado no ar. (Vemos agora que desde o início estavam outros dois cravos na carroça dos Saltimbancos.)
A colagem de referências à Revolução dos Cravos, por um lado, e ao glamour de Cats, por outro, só apoucam a peça. Assim como a caracterização das personagens em animais finos (em vez de grosseiros) muda os dados da peça, também o uso da nostalgia da revolução mascara a violência da revolta dos animais. Tudo é emblema, nada é circunstância e acção. Se um bando de músicos usa armas naturais para tomar o lugar dos donos, celebrar com um número de Cats é transformar o rebelde em conformista – o que vai contra o espírito do texto. Talvez seja esse o ponto de vista da encenação, ou talvez haja uma finíssima ironia na demonstração de como a revolução se transformou num show musical. É fina de mais.
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