Nos negócios e no amor vale tudo [TNSJ]

By Jorge Louraço Figueira

O Café, de Fassbinder, direcção de Nuno M Cardoso
23 de Maio de 2008

Das Kafeehaus foi escrito a partir de La Bottega del Caffè, de Goldoni, numa visão mais cínica dos negócios de amor. No texto de Fassbinder, o vício do lucro tomou conta de tudo, até do hábito de tomar cafeína. Na segunda metade do século XX, o mundo da cultura, simbolizado pelo café, foi tomado de assalto pelo casino.

A peça do autor alemão foi apresentada no Teatro Nacional São João como um reflexo do espectáculo O Café, do italiano, estreado há cerca de um ano. A equiparação dos amores a negócios também aparece em O Mercador de Veneza, outro espectáculo recente do TNSJ. É, aliás, um dos temas centrais do repertório do TNSJ: pode a arte resistir ao jogo das finanças?

Nesta peça, Fassbinder pega primeiro na matéria-prima de Goldoni, e depois na mitologia viva dos anos 60, a de Hollywood. Baralhando e tornando a dar, o autor faz um cruzamento entre a linguagem do quiproquó goldoniano e a linguagem dos planos cinematográficos, entre as figuras da comedia dell’arte e os ícones dos filmes de cowboys e gangsters. Estes últimos são os actuais frequentadores do café tornado casino. Não se deve confiar neles. Existe sempre um desfasamento entre o que dizem, por um lado, e as intenções ocultas, não formuladas verbalmente, com que agem. É como se as palavras tivessem apenas valor de troca e jamais valor absoluto. A obra parece premonitória, e a sua montagem também, ao rever a vertigem do vício do dinheiro que acabou por chegar em força às mesas de café.

Iniciado com um projecto de experimentação cénica da equipa do TNSJ, o espectáculo tenta actualizar a linguagem teatral pondo em prática o programa contido na peça e embutido no desenho da acção. Nuno M. Cardoso explora os recursos vídeo e áudio para relançar a discussão sobre o mundo das finanças virtuais e da cultura das aparências, isto é, da imagem como valor.

A encenação criou uma área de jogo onde as falas são cartas lançadas num pano verde, e os actores peças dispostas num tabuleiro de jogo. A organização destas duas variáveis, texto e corpos, é feita como numa montagem cinematográfica que, neste caso, cabe aos espectadores completarem, enquadrando determinado actor ou aproximando o olhar de certo diálogo. O espectáculo tenta deste modo livrar-se de uma imitação simplista do real em busca de uma forma que imite com mais verdade a vertigem dos vícios. Em consonância com esse trabalho estético, e apesar de originados em sessões de improvisação, os passos dos actores foram rigorosamente marcados.

Ao colocar em cena verdades contra falsidades, personificadas por heróis de cinema, numa linguagem vídeo, o encenador apresenta o artificialismo galopante dos tempos que correm, revelando o que tem de real. O teatro não responde, só faz perguntas. Neste caso, expõe – e bem – as tentativas de sobreviver numa ordem financeira, digital, virtual, multimédia. Com um passo à frente dessa ordem, o amor, a arte ou a cultura poderão ser mais que meros negócios.

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