AVC e A doença de Machado-Joseph

AS DOENÇAS DE SER PORTUGUÊS

AVC, de e encenado por Fernando Moreira, pelo Jangada Teatro
LOUSADA, Auditório Municipal, 6 de Novembro de 2008, 21h30

A doença de Machado-Joseph, de e encenado por José Carretas, pela Panmixia
PORTO, CACE cultural, 21 de Novembro de 2008, 21h30

AVC, do Jangada, e A doença de Machado-Joseph, da Panmixia, são duas obras originais de dramaturgos que, grande parte das vezes, encenam as suas próprias peças. No primeiro caso, Fernando Moreira aproveita algumas cenas de O doente imaginário, de Molière, e excertos de De Profundis: Valsa Lenta, de José Cardoso Pires, para contar a história de uma companhia de teatro em crise quanto ao rumo artístico. Cruzando essas citações com uma situação de ensaio aberto, para a qual escreveu diálogos, o encenador equipara a crise artística à causada por um acidente vascular cerebral. A sucessão de cenas é imprevisível e vai introduzindo novas linguagens com grande liberdade. A forma é arriscada, mas o risco é compensado pelos resultados. O encenador soube tirar o melhor de cada actor e com isso construir um código de encenação claro e coerente que põe em causa as ideias feitas sobre o repertório possível fora das capitais. Ao mesmo tempo, é um álbum de recortes das várias tendências cénicas em voga que tenta provocar o debate estético. O espectáculo andará em digressão pelo país e voltará depois a Lousada.

A doença de Machado-Joseph começou por ser um espectáculo sobre uma maleita de origem «portuguesa», mas acabou por ser um texto sobre o dia-a-dia de um doente crónico, antigo construtor de cavaquinhos, tratado por uma mulher mais nova, e da visita de um rapaz, luso-descendente, admirador da sua arte. A história de uma doença genética que se espalhou, como o cavaquinho, por esse mundo fora, é uma boa metáfora do melhor e do pior que há em nós. Nos últimos anos, José Carretas tem escrito várias peças situadas em contextos que nos são familiares, fazendo lembrar o conjunto de township plays de Athol Fugard, criadas com grupos de actores a partir de histórias reais, e sempre colocando questões sobre os nossos juízos de valor habituais. O melhor dessa familiaridade é o reconhecimento dos duplos sentidos, das entrelinhas e dos subentendidos das falas que, com muita habilidade, definem as atitudes das personagens. Uma dramaturgia que desmonta os nossos hábitos e nos faz rir deles, usando com propriedade a língua-mãe, devia ser considerada um bem nacional. A doença de Machado-Joseph tem um óptimo ponto de partida: um músico que sabe que vai definhar, mas encontra uma oportunidade de prolongar a sua vida através de outros. João Melo faz mais uma vez uma interpretação brilhante, metendo num saco os actores que, mais pó de talco, menos pó de talco, tentam fazer personagens idosos ou debilitados. O desenvolvimento das cenas, porém, deixa-nos água na boca, e tanto o enredo como as personagens podiam ser mais recheados. Estes dois espectáculos retratam o carácter de incorrigível sonhador de cada português através de situações dramáticas bem ancoradas na realidade, com um grande domínio da teatralidade. Deviam ser comparticipados.

Deixar uma Resposta