Extra Visões Úteis

O Visões é dos grupo mais visados pelo crítico que vos escreve. Até 20-12-2008, foram criticados Adúlteros Desorientados, de Juan Jose Millás, O Resto do Mundo, a partir de Joseph Conrad, Mal Vistos, de Gemma Rodriguez, O Inimigo, a partir de Henrik Ibsen, e Cidade dos Diários, dos próprios Ana Vitorino, Carlos Costa, Catarina Martins e Pedro Carreira. Confira a crítica da crítica nos comentários aos posts citados e leia aqui a crítica a Cidade dos Diários, encontrada no fundo de uma memória electrónica perdida.

Cidade dos Diários, do Visões Úteis, no Balleteatro Auditório

A MANCHETE DO DIÁRIO POPULAR

O Visões Úteis é uma das companhias da colheita de 94/95 que melhor tem resistido aos recifes para onde os grupos são conduzidos como barcos pelos faróis do financiamento público. Para usar uma linguagem em voga, a companhia tem internacionalizado a produção, e com Cidade dos Diários deslocalizou a origem da matéria-prima para Itália, onde foi buscar inspiração a um arquivo biográfico. (Um projecto semelhante de resultados diversos existe no Porto, o Museu da Pessoa, que também serviu de base a algumas personagens do espectáculo O Rio, de José Carretas.) Cidade dos Diários não é só um espectáculo: é também um site na internet (www.visoesuteis.pt) com textos e um portfolio de Paulo Pimenta, fotógrafo do Público; e um dos passos da dramaturgia de programação do TeCA, que também a tem.

O projecto insere-se numa corrente da criação teatral que recorre à citação, à tradução e à dinâmica de jogo como técnicas de performance, identificáveis de imediato na prática experimental, tendo emergido nas décadas de 1990 e 2000. O que caracteriza este trabalho? Para além das preocupações com a inovação formal, o que significa ou quer dizer este espectáculo (e o conjunto das práticas artísticas que o antecedeu), num contexto sócio-cultural específico? Ele é informado por teorias pós-estruturalistas? Ou por outras? A resposta a essas perguntas está onde: no espectáculo, no programa? De facto, apesar de apresentado como uma proposta inovadora, e da imagem de trabalho de pesquisa (cujo receptáculo formal, o espectáculo, fosse multifacetado, surpreendente e, tal como a percepção das cidades, micro-episódico como videoclips ou flashes, com uma estética de circulação, encontros e desencontros), Cidade dos Diários é uma peça de teatro que merecia maior desenvolvimento. A dramaturgia estrita de Cidade focou as histórias de alguns indivíduos e traçou linhas de intersecção para construir um enredo dramático. A acção decorre numa sucessão indistinta de dias, aberta pelo aparecimento de um cadáver e encerrada por outro, ao longo dos quais vamos assistindo à exposição das personagens. O espectáculo parece querer apresentar-nos os dramas que se escondem por trás de existências anónimas e aparentemente vulgares, no espaço quotidiano de uma estação de comboios. Com um ponto de partida tão interessante, o desafio seria a dramatização dos diários e das biografias, e parece ter sido a isso que o espectáculo se propôs. Só que as falas das personagens são descritivas de mais, os corpos dos actores não traduzem emoções, e a peça não causa os arrepios nem os risos a que se propõe.

É comum dizer que no teatro ficamos a saber o que as personagens pensam porque vemos e ouvimos o que elas fazem, e na literatura sabemos o que as personagens fazem porque lemos o que elas pensam. Neste espectáculo as personagens passam o tempo todo a expor-se, numa poética do quotidiano derivada da diarística, e nunca agem com efeitos suficientemente cativantes para prender a atenção da plateia. Faz falta a esta fatia de vida um sentido de perspectiva que nos devolva o brilho no olhar de quem vê ou escreve o seu diário.

5 Respostas para “Extra Visões Úteis”

  1. JM Diz:

    Onde está a crítica à Cidade dos Diários? Procurei e não encontrei.
    E, já agora, se o Visões é a companhia mais visada, porque não colocá-la ali na barrinha do lado direito, onde se listam Teatros e Companhias? parece fazer sentido, não?

  2. Jorge Louraço Figueira Diz:

    Também não sei dela – foi perdida num dos caminhos electrónicos. No site do Público também não encontro. Por isso se a tiveres, envia-ma, por favor.

    Aquela não é uma lista das companhias mais visadas. Aliás, não tem nenhuma companhia do Porto. Isto por questões de integridade física.

  3. JM Diz:

    Não a tenho, por isso a procurei aqui.
    Quanto à lista de “Teatros e companhias”, por mais que olhe para ela, não faz sentido nenhum. E as razões de integridade física que evocas escapam-me completamente. Imagino que, quanto muito, haja gente, como eu, com vontade de te pregar um calduço precisamente por não teres os links para os sites das companhias sobre as quais escreves. ;)

  4. Jorge Louraço Figueira Diz:

    :) Oh, se fosse só por causa da lista…

    Realmente é uma lista de compras com coisas muito diferentes e não representa um conjunto de semelhantes. Como existem alguns blogues com a lista de links das companhias do Porto, optei por ter uma lista com outras coisas. O Teatrão e o Folias estão lá porque são companhias com quem colaboro regularmente, e em cujo trabalho me revejo; o Meridional, os Artistas Unidos e a CTA por fazerem um trabalho do mais valoroso que há; as estrangeiras por fazerem um trabalho de referência; os Nacionais por serem a melhor maneira de acompanhar o que se faz sem colocar os links todos… Mas tens razão, pode ser muito interessante para os leitores ler uma crítica e a seguir conferir o site do visado… vou ver se arranjo aqui um espaço onde colocar esses links.

  5. JM Diz:

    Se queres a minha opinião, o melhor espaço é mesmo o corpo da crítica. Ou um final com endereços relevantes, artigo a artigo.

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