Salão de Festas, de Jérôme Deschamps e Macha Makeïeff
Porto, 11 de Dezembro
A dupla que encenou este espectáculo (Deschamps & Makeïeff) tornou-se reconhecível para o público do PONTI, o festival de teatro natalício do Porto que, nos últimos dez anos, abrilhantou as noites frias, mas límpidas, de Dezembro. Foi por isso com a promessa de reencontrar velhos amigos que uma parte dos espectadores do TNSJ se juntou para estas duas noites de teatro herdeiro de Tati e Charlot. Sobrou a nostalgia por estas apresentações (com as de Purificados, na semana anterior) serem apenas uma amostra do que seria o PONTI deste ano, cancelado pelas funestas razões que andam a estrangular o serviço público de teatro um pouco por todo o lado; e a pena por este espectáculo ser uma pálida amostra dos trabalhos anteriores (dizem), e em particular de Les Pensionnaires (que tive a ocasião de ver, em 2001).
Quanto à programação, que também é passível de crítica, nada a dizer, ou antes, bem. No espaço de uma semana, tivemos as duas caras do início de século, primeiro uma dramaturgia da imolação, em que o protagonista se sacrifica por um ganho afinal espúrio, quando tenta atingir a salvação; depois uma dramaturgia da festa, em que os heróis, empenhados em sucessos dos mais prosaicos, falham redondamente, redundando numa coreografia de fiascos, que pelo menos faz rir. Em ambas se revela a impotência dos indivíduos, um dos traços principais do teatro moderno, e nenhuma parece apontar saídas.
Para descrever um pouco mais este Salão de Festas, basta dizer que faz lembrar o mais familiar dos salões de bombeiros e centros paroquiais em noite de baile ou, mais modernamente, de karaoke. Não é o histórico Le Bal, da mesma genealogia teatral (uma produção original do Thêatre du Campagnol, cuja versão em filme foi realizada por Ettore Scola), mas tem canções pop, seja Staying Alive ou Smells Like Teen Spirit, que tentam capturar o ar dos tempos em versão o mais festiva possível; e uma série de gags, desde a mestre-de-cerimónias que não atina com os bancos altos do bar até a uma sangria fresquinha cuja fruta é esmagada pelos pés da criada, e logo prazenteiramente bebida por esta. O humor é físico, mas inteligente, e o espectáculo divertido, se não escapista. O desfasamento entre as intenções de cada personagem e as tentativas falhadas de concretização de planos, se nos faz rir da nossa própria vanidade geral, mal chega a teatralizar a noção de uma ordem superior às coisas, ridícula, precisamente, o que não só era uma marca da finura de humor deste tipo de trabalhos, como nos faria sair do teatro com algum sentido de comunidade entre espectadores. Enfim, o espectáculo é apenas para maiores de seis anos.
Deve ser dito ainda que os objectos, o cenário e a luz, ainda que simples, davam gosto ver, e que o tempo cómico destes actores, acertado pelas deixas de som, é precioso. Contudo, no balanço das coisas, faltou um pouco mais de argumento – isto é, enredo e pensamento. Se na semana passada o bombeiro de serviço no TNSJ quase entrava em cena cada vez que espreitava do camarote para assistir ao espectáculo do desespero, parecendo pronto a levar alguém para a unidade de cuidados intensivos, esta semana o senhor fazia parte da moldura. Para onde vai este espectáculo? – perguntava-se o crítico, já um pouco culpado por se rir tanto de coisa nenhuma. O que querem dizer estes artistas? Para lugar nenhum. – responderia o bombeiro – Não querem dizer nada.