Livros 

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— no Arena ainda tive a sorte de receber em mãos o livro da Roberta Estrela d’Alva, Teatro Hip-Hop.

— na livraria da Edusp, saquei a preço de doutorando (os doutorandos estão muito em conta) o Brasil em Portugal no Brasil: A forma do meio (2011), da Clara Rowland, e Gilberto Freyre: novas leituras do outro lado do atlântico (2015), organizado por Marcos Cardão e Cláudia Castelo.

— e do Chile tinha trazido: No Leer, de Alejandro Zambra. Ah, não ler, não escrever, não ver.

A rua é o mar

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Se há razões para viajar de propósito a fim de ver teatro, uma delas é que alguns espectáculos são criados para certos lugares específicos, e é aí que faz pleno sentido vê-los. É o caso de A rua é o mar por onde eu vou navegar, do Bartolomeu, em frente ao Teatro de Arena (onde estão temporariamente sediados); do último do XIX, Teorema 21, a partir de Pasolini, numa ruína da Vila Maria Zélia; de Cabras, de Luís Alberto de Abreu, no Espaço Missão do Centro Cultural São Paulo; e em especial do Museu Encantador, em plena praça da Sé, na Caixa Cultural. Como ouvi ontem na rádio, todos os anos há pelo menos um enredo de escola de samba que mete índios, caravelas, cabral, zumbi; e parece que há sempre uma peça de teatro sobre as figuras do sertão, da escravatura e da colonização. O teatro está no meio da conversa sobre o que é o país.

Porque o fadista nunca sabe trabalhar

de Ary Kerney e Mário de Andrade

Quando da brisa no açoite a flor da noite se acurvou
Fui encontra coma a Maróca meu amor
Eu senti n’alma um golpe duro
Quando ao muro já no escuro
Meu olhar andou buscando a cara dela e não achou

Minha viola gemeu
Meu coração estremeceu
Minha viola quebrou
Meu coração me deixou

Minha Maróca resolveu prá gosto seu me abandonar
Porque o fadista nunca sabe trabalhar
Isto é besteira pois da flor
Que brilha e cheira a noite inteira
Vem de´pois a fruta que dá gosto de saborear

Minha viola gemeu
Meu coração estremeceu
Minha viola quebrou
Meu coração me deixou

Por causa dela sou um rapaz muito capaz de trabalhar
E todos os dias todas as noites capinar
Eu sei carpir porque minh’alma está arada e loteada
Capinada com as foiçadas desta luz do seu olhar

Bixiga

O Teatro Oficina, no bairro do Bixiga, ainda agora foi escolhido como um dos teatros mais lindos do mundo e já está outra vez em risco. Ao contrário do Museu da Luz, cujo edifício nem sequer estava licenciado, este não desperta a solidariedade de ninguém em Portugal. Para o ano faz cinquenta anos que Zé Celso inventou a tropicália, com a encenação de O Rei da Vela, dizem. Se parece estranho comemorar um movimento dito de vanguarda, mais estranho é não fazer nada. Em Portugal, como se assinalará a data?

Chile: três destaques — de três peças cada

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O primeiro destaque vai desde logo para os argentinos, com três obras, muito acima da média, e muito diferentes entre si, de três mestres contemporâneos: Los Corderos, de Veronese; Las ideias, de Léon (que vem ao Alkantara); e Dínamo, de Tolcachir [na foto].

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Outro destaque vai para as criações chilenas Pájaros, Hilda Peña e Hijos de… [na foto] — as três peças cruzam sexo e poder de maneira diferente, mas procurando repartir por igual a importância dessas duas forças na definição das figuras do Chile contemporâneo que aparecem nos enredos. A perversão sexual aparece em resultado do abuso de poder, implícita nos atos e nas palavras, como vontade, memória ou revelação, nunca exposta como acção cénica. Estas dramaturgias são fortes mas subtis, ocultando tanto quanto revelam.

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Mas o que mais me interessou foram as três peças mais cómicas, explícitas e politicamente incorrectas deste conjunto: Los millonarios, No teremos [Na foto] e Concierto. Na primeira, um grupo de advogados procura argumentos para defender da acusação de homicídio um homem Mapuche que até já se confessou culpado. Os advogados usam cinicamente as muitas razões invocadas pelos Mapuche na defesa dos seus direitos, de modo a sensibilizar o júri. A peça é uma farsa que denuncia o fundamentalismo dos próprios activistas sociais, ao mesmo tempo que revela a perversidade dos juristas e dos empresários que controlam o antigo território Mapuche. “No tenemos que sacrificarnos por los que vendrán”, assim com o nome em aspas por ser uma citação, usa as atas das reuniões que mudaram as leis laborais no Chile para reconstituir essas mesmas reuniões, com o ministro do trabalho, vários militares e o próprio Pinochet a serem absolutamente ridicularizados.

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Concierto — um espectáculo quase sem palavras — mostra a manipulação alegoricamente, nos jogos de cena em que o espectáculo se sustenta ao início. Depois de uma explosão libertária, com direito a insultos ao público em jeito de apoteose punk, sobrevem uma coreografia de celebração horizontal, ou igualitária, sem escadinhas nem hierarquia nem corpo de baile. Tal e qual se vê, a todas as horas, nos pátios e áreas abertas do GAM, Centro Cultural Gabriela Mistral [na foto], grupos de miúdos e miúdas de 12, 15 anos, a ensaiarem passos de dança tirados de vídeos, servindo-se dos vidros do edifício como espelho, através dos quais se podiam ver a mesa de recepção do Santiago a Mil e vários programadores em reuniões ininterruptas com outros programadores, de outros festivais. Foram os três espectáculos em que a cena e a realidade estiveram mais coladas uma à outra e — atenção — aqueles em que a composição teatral mais artificial se apresentava — revelando a sua própria realidade de mero jogo cénico.

Chile: a agenda

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— com estrelinhas e tudo:

Domingo
The Tempest (Coreia) ***

Segunda
Los corderos (Argentina) ***** [na foto]
No despiertes a los niños (Chile) **
Perdiendo la batalla del Ebr(i)o (Chile) ***

Terça
Feos (Chile) ***
Las ideas (Argentina) *****
La ira de Narciso (Uruguay) **

Quarta
Historias de amputación a la hora del té (Chile) *
Los millonarios (Chile) — no Museo de la Memoria *****

Quinta
Pájaros (Chile) ****
Los hijos de… (Chile) — no Santiago Off, um ensaio
Concierto (Chile) — no Santiago Off ****

Sexta
Dínamo (Argentina) ****

Sábado
Hilda Peña (Chile) ***
“No tenemos que sacrificarnos por los que vendrán” (Chile) *****
A house in Asia (España) ***

Estrelas à minha maneira, claro está.

E se viu o Museu de Bellas Artes, o Museo de la Memoria e a casa de Neruda em Valparaiso. Escusado será dizer que, ao fim de uma semana, o portuñol era muy fluyente.