Dia mundial do teatro em domingo de Páscoa

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Custa-me escrever estas linhas a remeter para o faccioso Observador, mas é lá que se pode ler o que várias pessoas disseram sobre a paixão do teatro português, entre as quais o Francisco Frazão, cujas palavras eu subscreveria:

“O que está mal (e a culpa também é minha): falta de memória e discurso crítico, ambos reduzidos às listas de final do ano; precariedade laboral, desigualdade no acesso aos “meios de produção”; “festivalização” dos programas das grandes instituições (proliferação de “eventos”, carreiras muito curtas), sem espaço para o teatro como coisa normal, quotidiana; tempos de criação demasiado concentrados que, aliados às parcas possibilidades de circulação, fazem com que os espectáculos raras vezes cheguem a ser o que deviam. O que está bem (graças ao esforço de muita gente): projectos novos que ainda arriscam na ideia de criar companhias; espaços (periféricos) que as apresentam; muita coisa para ver, pelo menos nas grandes cidades (é o reverso da medalha da “festivalização”); grupos com vontade, capacidade e relevância para se internacionalizarem (até porque por cá o futuro permanece pouco animador).”

Para compensar, remeto não para uma, mas para duas mensagens do dia mundial do teatro, de três instituições mais recomendáveis. A mensagem conjunta do CENA (Sindicato dos Músicos, dos Profissionais do Espectáculo e do Audiovisual) e do STE (Sindicato dos Trabalhadores de Espectáculos):

Dia mundial do teatro – gostaríamos de dizer que muito mudou desde o ano passado mas para a Cultura temos novamente um Orçamento do Estado de miséria que nos limita a vida, a estabilidade e a criação. (…)

E a mensagem do ITI (International Theatre Institute), este ano escrita pelo encenador russo Anatoli Vassiliev (cuja Ilíada, na foto — do João Tuna — esteve no Porto em 2004):

Precisamos do teatro? Esta é a questão que colocam milhares de profissionais desapontados com o teatro e milhões de pessoas cansados dele. Para que precisamos dele? Nos anos em que a cena é tão insignificante em comparação com os quadrados urbanos e as terras estatais, onde se deselaçam as tragédias autênticas da vida real. Que é ele para nós? (…)

Ressuscitará, já não digo ao terceiro, mas algum dia?

 

Ó tempo, anda prà frente

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Estalo Novo (MAISMENOS) / Salazar de Emergência, em caso de falta de Fé (Jorge Pereira)

Em atualização…

Estive ontem em Montemor-o-Velho, no Teatro Esther de Carvalho, a convite do CITEC, a falar sobre a memória da revolução nos 40 anos da dita. Eis a lista de espectáculos, por ordem cronológica, que evocam directa ou indirectamente o Estado Novo e o 25 de Abril, em que me baseei:

— (2010) 1974;
— (2012) Diz-lhes que não falarei nem que me matem; Três dedos abaixo do joelho; O medo que o general não tinha; Madrugada;
— (2013) Estalo novo; Um dia os réus serão vocês;
— (2014) TSF ocupada; Coriolano; Tropa fandanga; Al Mada Nada; Pílades;
— (2015) La vida es sonho; 24A74 – Salgueiro Maia; Um museu vivo de memórias pequenas e esquecidas; Museu Saal; No limite da dor; Ifigénia, Agamémnon e Electra; Três irmãs (making of).

Comecei por classificar os espectáculos conforme a(s) época(s) a que se referem, e o modo como articulam essas épocas entre si. Por exemplo, Um Museu Vivo vai da origem da ditadura aos nossos dias, cada palestra tratando de períodos específicos, que podem ter a duração de anos (a guerra colonial), ou um dia (o golpe). Alguns espectáculos tratam de apenas um caso em particular, ao longo de algum tempo, como em Um dia os réus serão vocês (o julgamento de Álvaro Cunhal); outros de vários casos, ou mesmo partes de casos, ao longo de vários anos, como Três dedos abaixo de um joelho; outros tratam do caso geral, digamos assim, ao longo de um período mais indeterminado, como 1974. aAguns espectáculos que só evocam metaforicamente a cronologia da ditadura e da revolução, por terem uma fábula que não corresponde à letra mas apenas ao espírito da história, criam uma cronologia alternativa, como numa dimensão paralela, mas ainda assim linear, como é caso de Coriolano, de Pílades ou da trilogia Ifigénia, Agamémnon, Electra. Estes exemplos seguem mais ou menos um linha do tempo que avança sem recuar, do passado para o presente. Mas noutros espectáculos os episódios são apresentados sem seguir a ordem cronológica, invertendo e revertendo a ordem dos factos na montagem das cenas, ou às vezes em simultâneo no palco, justapondo épocas não contíguas, como no terceiro ato de Três irmãs (making of), apresentando o que vemos como memória das personagens em cena. Noutros espectáculos ainda as figuras e eventos históricos são evocados por falas e imagens do passado em sobreposição com outras imagens e falas, ou gestos e situações, seja do presente da cena seja da atualidade do país, fundindo as épocas e os tempos, como em O medo que o general não tinha e, também, Três dedos ou Um museu vivo, ou, ainda, no final de Tropa Fandanga, quando se ilustra a frase “a revolução é um momento” com a existência de cravos nas canos das armas (ou vice-versa). Finalmente, a ocupação simulada da TSF pelo Bando não apenas sobrepõe como faz coincidir a época histórica com a atualidade. Não será demais dizer que a concepção do tempo e, em particular, da história são importantes na concepção destes espectáculos.

Assim como o tempo é reproduzido de várias formas, também os factos são apresentados de diferente modo. Nalguns espectáculos os atores encarnam figuras históricas, noutros recriam personagens fictícias, noutros narram os episódios. Nalguns espectáculos são representados discursos verídicos, noutros são apresentados documentos, noutros são reconstituídas situações. E há espectáculos onde estas modalidades se cruzam. Esta questão tem a ver, de novo, com o modo como a história é recriada. A revolução é mais ou menos distanciada, mais ou menos imitada, mais ou menos reconstituída, mais ou menos atualizada, conforme o momento presente é mais ou menos assumido. Entre o ator que finge ser uma figura do tempo da revolução e o espectador que revela um documento do passado em palco, há um mundo de combinações possíveis, que dizem respeito à memória, à atualidade e à urgência da revolução — em cena. Não se trata apenas de averiguar qual a concepção de tempo e de história por trás destes espectáculos, mas de saber como estes autores olham o processo histórico (de frente, de lado, de soslaio, etc.), qual a posição que adoptam dentro do processo histórico e, sobretudo, como imaginam o futuro. Espectáculos como Três dedos, O medo e Um museu vivo têm como matéria tanto a informação sobre o passado quanto as circunstâncias atuais dos seus criadores, e como forma a montagem, a colagem, o tempo narrativo não-linear, o espaço cénico feito de sobreposições e justaposições; enquanto outras peças praticamente excluem a referência explícita ao momento presente, e moldam a matéria histórica segundo a forma da reconstituição ou da ficção, num tempo narrativo linear e unidirecional, num espaço cénico estático. Qual destes tipos, passe a simplificação, aponta para o futuro? O tempo linear parece preso ao passado, mas pressupõe uma continuidade. O tempo não-linear está em permanente atualização, mas não avança. Qual destas simplificações será mais revolucionária? Os espectáculos que melhor conseguirem estruturar uma experiência de transformação levarão a palma.

O exercício de classificação revela que uma das principais questões destes trabalhos é como formular o momento da revolução sem trair a sua forma de ruptura do tempo. Como mostrar a mudança da história sem a travar? Como mostrar o movimento num lugar parado? O teatro, preso na contradição entre repetir e acontecer, está simultaneamente obrigado e habilitado a responder a essa pergunta. A geração nascida nos anos 70 conseguirá, depois dos 40, falar, olhos nos olhos, com a revolução? Só o tempo dirá.

O eixo Belém-Ajuda era a Re-exposição do Mundo Português?

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Rios de tinta correram a propósito da demissão de Antonio Lamas do CCB, e na internet há pelo menos duas petições electrónicas, uma a pedir que João Soares se vá embora, outra a pedir que Lamas regresse ao CCB. Tanto barulho para quê? Entretanto, o novo presidente do CCB, que também é do património, tem outra estratégia, e a Câmara de Lisboa até já propôs uma alternativa. O que mudou?

Há duas ideias que o eng.º Lamas trouxe para a presidência do CCB. Uma foi a de promover a comemoração da Exposição do Mundo Português de 1940 com uma outra exposição, documental. Esta exposição, como o próprio declarou, não iria “enquadrar a ideologia que fomentou” a mostra original, mas sim ter tão somente “um olhar urbanístico”. (Como se as coisas apresentadas sem ideologia visível não fossem, afinal, as mais carregadas dessa mesma ideologia. O objectivo era refazer a memória do espaço.)

A outra ideia foi criar um eixo Belém-Ajuda que desse mais lucro ao CCB, vendendo como um pacote cultural a experiência de visita aos monumentos. São duas faces da mesma ideia. Tanto a celebração da exposição de 1940 quanto a celebração do turismo de 2015 reeditam a Exposição do Mundo Português. Suprimem-se as referências à ideologia dos anos 1940 para se poder fruir à vontade o espaço dos anos 2010, tendo como única referência histórica os descobrimentos. E o projeto ainda pode alimentar um certo orgulho pátrio nos engenheiros, arquitectos e propagandistas que, em plena Segunda Grande Guerra, conseguiram levar a cabo a empreitada. É oferecido para consumo interno e externo o sentimento de predestinação coletiva. Deve ser por isso que se acumulam na imprensa as referências ao papel do Eng.º Lamas na edificação do CCB, junto com o facto curioso de ter nascido na Junqueira.

A mistura de cultura com turismo e com renovação urbana é mais uma ideia brilhante do novo senso comum. Essa mistura contém a promessa da regeneração de uma dada área, que apesar de ser destinada ao consumo turístico, poderá afinal ser aproveitada por todos. E fará aumentar as receitas, o que acabará, acredita-se, por regenerar a cidade. Quem pode discordar disto? O problema é que as regenerações são sempre feitas à custa de algo ou alguém. No caso, do próprio CCB, dos que lá trabalham e dos que o frequentam.

Ninguém Ajuda Ninguém

O projecto de acentuar o carácter emblemático da zona, tornando-a num grande fetiche histórico, só teve paralelo no projecto de reduzir as actividades artísticas do CCB, mitigando o carácter emblemático da instituição na cultura do país. Apesar de ter afirmado, a poucos dias de ser demitido, que fazia falta um director de programação, foi precisamente a presidência do eng.º Lamas que conseguiu a proeza de nunca nomear ninguém para o cargo. Em vez de racionalização, o que houve foi precarização laboral, posta em marcha desde a primeira hora. Até os serviços de cafetaria passaram a internos, quando antes era concessionados. A lógica do lucro é implacável. A missão do CCB estava a ser adaptada a essa lógica. O que estava a ser montado era uma máquina de fazer dinheiro, mascarada de terra dos sonhos. Uma máquina assente na precariedade de uns e no turismo dos outros — como em Sintra, aliás. Mas que mal tem essa lógica? Só para quem fica de fora.

O plano Belém-Ajuda Lamas tinha dois prejudicados principais: as tesourarias da Direção-Geral do Património Cultural e da Câmara Municipal de Lisboa. Com o plano, ambas perderiam fontes de receita muito importantes, assim que saíssem das respectivas alçadas alguns dos lugares mais visitados do país. E talvez estas instituições também temessem a concorrência do eixo Lamas na caça ao turista. Terá sido por isso que o principal argumento utilizado para a demissão do eng.º Lamas foi a falta de solidariedade com a Câmara Municipal de Lisboa? E que o governo PSD/CDS não aprovou o eixo, nem nos últimos dias do seu mandato? A substituição de Lamas obedeceu à mesma lógica do lucro? Ninguém queria o parque Bel-Aju. Ou queria? Até ver, ao instinto de propaganda e à queda para os negócios da administração Lamas sobrepôs-se finalmente o interesse público, na pessoa de quadros do Estado que têm por obrigação defender as artes e o património cultural, acima de qualquer outra coisa. Veremos como resistem ao espírito comercial dos tempos.

O eixo Belém-Ajuda Lamas era a re-Exposição do Mundo Português?

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Rios de tinta correram a propósito da demissão de Antonio Lamas do CCB, e na internet há pelo menos duas petições electrónicas, uma a pedir que João Soares se vá embora, outra a pedir que Lamas regresse ao CCB. Tanto barulho para quê? Entretanto, o novo presidente do CCB, que também é do património, tem outra estratégia, e a Câmara de Lisboa até já propôs uma alternativa. O que mudou? Que fará a nova administração do CCB com a re-Exposição do Mundo Português?

Há duas ideias que o eng.º Lamas trouxe para a presidência do CCB. Uma foi a de promover a comemoração da Exposição do Mundo Português de 1940 com uma outra exposição, documental. Esta exposição, como o próprio declarou, não iria “enquadrar a ideologia que fomentou” a mostra original, mas sim ter tão somente “um olhar urbanístico”. (Como se as coisas apresentadas sem ideologia visível não fossem, afinal, as mais carregadas dessa mesma ideologia. O objectivo era refazer a memória do espaço.)

A outra ideia foi criar um eixo Belém-Ajuda que desse mais lucro ao CCB, vendendo como um pacote cultural a experiência de visita aos monumentos. São duas faces da mesma ideia. Tanto a celebração da exposição de 1940 quanto a celebração do turismo de 2015 reeditam a Exposição do Mundo Português. Suprimem-se as referências à ideologia dos anos 1940 para se poder fruir à vontade o espaço dos anos 2010, tendo como única referência histórica os descobrimentos. E o projeto ainda pode alimentar um certo orgulho pátrio nos engenheiros, arquitectos e propagandistas que, em plena Segunda Grande Guerra, conseguiram levar a cabo a empreitada. É oferecido para consumo interno e externo o sentimento de predestinação coletiva. Deve ser por isso que se acumulam na imprensa as referências ao papel do Eng.º Lamas na edificação do CCB, junto com o facto curioso de ter nascido na Junqueira.

A mistura de cultura com turismo e com renovação urbana é mais uma ideia brilhante do novo senso comum. Essa mistura contém a promessa da regeneração de uma dada área, que apesar de ser destinada ao consumo turístico, poderá afinal ser aproveitada por todos. E fará aumentar as receitas, o que acabará, acredita-se, por regenerar a cidade. Quem pode discordar disto? O problema é que as regenerações são sempre feitas à custa de algo ou alguém. No caso, do próprio CCB, dos que lá trabalham e dos que o frequentam.

 

Ninguém Ajuda Ninguém

O projecto de acentuar o carácter emblemático da zona, tornando-a num grande fetiche histórico, só teve paralelo no projecto de reduzir as actividades artísticas do CCB, mitigando o carácter emblemático da instituição na cultura do país. Apesar de ter afirmado, a poucos dias de ser demitido, que fazia falta um director de programação, foi precisamente a presidência do eng.º Lamas que conseguiu a proeza de nunca nomear ninguém para o cargo. Em vez de racionalização, o que houve foi precarização laboral, posta em marcha desde a primeira hora. Até os serviços de cafetaria passaram a internos, quando antes era concessionados. A lógica do lucro é implacável. A missão do CCB estava a ser adaptada a essa lógica. O que estava a ser montado era uma máquina de fazer dinheiro, mascarada de terra dos sonhos. Uma máquina assente na precariedade de uns e no turismo dos outros — como em Sintra, aliás. Mas que mal tem essa lógica? Só para quem fica de fora.

O plano Belém-Ajuda Lamas tinha dois prejudicados principais: as tesourarias da Direção-Geral do Património Cultural e da Câmara Municipal de Lisboa. Com o plano, ambas perderiam fontes de receita muito importantes, assim que saíssem das respectivas alçadas alguns dos lugares mais visitados do país. E talvez estas instituições também temessem a concorrência do eixo Lamas na caça ao turista. Terá sido por isso que o principal argumento utilizado para a demissão do eng.º Lamas foi a falta de solidariedade com a Câmara Municipal de Lisboa? E que o governo PSD/CDS não aprovou o eixo, nem nos últimos dias do seu mandato? A substituição de Lamas obedeceu à mesma lógica do lucro? Ninguém queria o parque Bel-Aju. Ou queria? Até ver, ao instinto de propaganda e à queda para os negócios da administração Lamas sobrepôs-se finalmente o interesse público, na pessoa de quadros do Estado que têm por obrigação defender as artes e o património cultural, acima de qualquer outra coisa. Veremos como resistem ao espírito comercial dos tempos.

E o novo prémio foi para OS PATO BRAVO!

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Para os Prémios Novos deste ano estavam nomeados (na categoria Teatro) o Rui Monteiro, o Elmano Sancho e Os Pato Bravo. O Elmano, afinal, já tem mais de 35 anos, limite do prémio, apesar de haver informação divergente na internet, disse Fernando Alvim, o promotor do evento e co-apresentador da gala, com Beatriz Gosta. O João Carneiro (do Expresso), o Rui Monteiro (da Time Out) e este que vos escreve foram os membros do júri. Ganharam OS PATO BRAVO. Quem não conhece o grupo, pode vê-los quarta, 23, na Pensão Amor, num ciclo de leituras a partir de Cesariny. Parabéns!

 

Sobre um Sol Subterrâneo

Na festa que assinalou a ocupação do Coliseu do Porto pelo Balleteatro, a Né Barros, o Alexandre Soares e o Flávio Rodrigues celebraram a sua adoração ao sol com este espectáculo. E eu escrevi algumas palavras de adoração aos artistas:

 

SOBRE UM SOL SUBTERRÂNEO

Entrar no coliseu e corrê-lo como se fosse uma criança, como se fosse um das dezenas de crianças que circulavam pelo espaço nesse dia de inauguração das actividades do Balleteatro ali, entrar naquele salão onde antes uma orquestra tocava e os pares dançavam mais ou menos agarradinhos, imaginar uma versão de O Baile, de Ettore Scola, entrar e encontrar um guitarrista e um bailarino coberto com um manto dourado, ou quase dourado, de tanto brilhar por dentro, sentar-me no chão e esperar — tudo isso preparou a experiência que estava para vir, o ato de assistir a esta criação da coreógrafa Né Barros, com o músico Alexandre Soares e o performer Flávio Rodrigues, uma espécie de prova, a demonstração de existência de um Sol Subterrâneo.

Depois, leria no programa que o título do espectáculo se deve a um poema de Luís Miguel Nava:

O sol é subterrâneo, aquele a que eu

me quero hoje estender é o do meu espírito, é preciso

cavar bem fundo até o fazer surgir.

Nesse momento, já a minha experiência se havia constituído de tal forma que as palavras do poema pareciam traduzir o que acontecera. Pois o som e o movimento naquele espaço tinham-me posto em comunhão com os performers através da partilha desse sol invisível, escondido, alquímico, de cada um, e o que eu vira fora dois artistas arrancando da terra com as mãos a própria vida, luz em todas as formas. No programa lia-se ainda que “este projeto coreográfico e musical encontra a sua ordem e desordem entre o céu aberto e o grito mais íntimo e profundo”. Foi então que fui convertido. Estas palavras descreviam o sucedido em mim. Acabara de participar numa cerimónia de iniciação a um culto sagrado da física dos corpos celestes e dos elementos subatómicos. Órfãos do xamanismo, os contemporâneos têm que reinventar esse contacto original com o sol interior, e reaprender a alquimia para descobrir a pedra filosofal que é cada um de nós e, ao mesmo tempo, todos nós somos. O Coliseu já me parecia um templo das ciências do oculto, na viragem do séc. XIX para o XX, em que dança, bombismo e astrologia se intersectavam doidamente.

O misticismo tem limites. A minha base é material. Os dois performers mostraram não só o repertório vasto que possuem, e o domínio total que têm das respectivas linguagens artísticas, mas também o que não têm e o que não sabem ainda. Explico-me: explorando as suas capacidades técnicas para ir mais além, além da execução perfeita, com o fim de descobrir outras coisas, abriram o campo de possibilidades da forma musical e e da forma coreográfica, permitindo aqui e ali vislumbres do que até então era invisível na experiência do mundo. Falo da experiência concreta do mundo, tanto dos corpos em movimento nas ruas e nas instituições — colégios, cafés, shopping center — que se vêem nos media — cinema, TV e internet — como nos sons e ruídos mais ou menos espontâneos, mais ou menos artificiais, que povoam o nosso dia-a-dia, os nossos sonhos, o nosso imaginário partilhado. O espectáculo fez-se percorrendo todas as dimensões possíveis do corpo e dos instrumentos, todas as imagens do corpo masculino em esforço e propulsão, do desporto à luta, do sexo à dança, e todo o espectro auditivo, acordes, barulhos, notas cristalinas, com uma banda sonora que saía dessa função e categoria para se alçar ao trabalho de interpretação e contracena — quanto mais não seja porque ali estava também um compositor e intérprete, em diálogo com a cena e o outro intérprete. E foi ao percorrer esse caminho, ao gerar esse fluxo, que se viu emergir o campo quântico, onde fulge o tal sol subterrâneo, e onde o poema coreográfico se junta ao poema original.

A guitarra em distorção como tensão e alívio, a corrida, o salto, a repetição, enfim, inúmeros outros aspectos desta criação, são como partículas elementares da vitalidade em arte, articulações não-verbais, postas no mesmo lugar da voz, essa coisa que já não é corpo e ainda não é fala (como coloca o antropólogo Joaquim Pais de Brito), elementos cuja combinação faz irromper em chamas o que até então eram apenas brasas desse fogo interior antigo, que nos consome, do qual nos afastamos vezes sem conta quando nos mortificamos, fogo que ao arder em euforia, se nos reduz à matéria-prima, também nos faz regressar, uma e outra vez, das cinzas, lavrando com destemor.