Oração aos santos da sexualidade popular

3059_800x800

Nossa Senhora da Açoteia
de Luís Campião
Theatro Circo, 21 de Fevereiro, 21h30

A palavra popular tem as costas largas. Mas quando uma peça evoca Santareno e Régio de um só trago, já para não falar em García Lorca e García Márquez, estamos em pleno campo da poética do povo, nem que seja aparentemente. Os autores citados são antepassados ilustres desta peça, que ganhou em 2012 o prémio luso-brasileiro de dramaturgia António José da Silva, entretanto desactivado pelas instituições que o atribuíam.

Esta versão de Nossa Senhora da Açoteia, cortada — o texto original é maior — mas também enriquecida pelo actor e encenador Luís Vicente, é um retrato da pronúncia regional e das atitudes em relação ao sexo e ao casamento numa pequena comuni- dade piscatória, no caso do Algarve, nos anos 60 do século passado, que mostra, em especial, a tensão entre o desejo feminino e o desejo masculino, e o modo com cada um deles é, quando era, permitido. A história desta linhagem de mulheres foi inspirada por uma visita do autor, com a mãe e uma tia, a uma antiga fábrica de conservas transformada em museu.

O texto é o relato na primeira pessoa, como se falasse sozinha, mas na presença do marido, estendido na cama, dos segredos de família de uma mulher cujas antepassa- das sempre mataram, mais tarde ou mais cedo, os cônjuges. A razão principal, entre outras, era a violência iniciada por eles quando elas não lhes davam filhos varões.

As mortes sangrentas são contadas com aparente descaso, como se outra coisa não pudesse ter acontecido, dada a sucessão de acontecimentos. Os actos sexuais são contados com gozo, em tom de confidência, mas sem fazer disso bicho de sete cabeças. Sem culpa nem censura, e sem pathos absolutamente nenhum, a mulher revela-se inocente, no fundo expondo uma ordem de valores que sai da esfera da mora- lidade burguesa — ou pelo menos a provoca. Não é todos os dias que se vê isto em cena. Mostrando-se como marioneta nas mãos do destino, ou pelo menos nas mãos da bisavó, da avó e da mãe, por sua vez vítimas dos homens do mar, esta mulher é quase santa. Depois de ganhar a nossa simpatia dessa maneira, as revelações finais — que não vamos contar — surgem como naturais, ao invés de monstruosas. Esse trabalho de desnaturalizar preconceitos é igualmente precioso.

O tom é realista, e vem das fontes documentais, biográficas e/ou etnográficas, mas o que conta na peça, como no espectáculo, são as metáforas e a simbologia dos actos e das circunstâncias. O lado feminino executa o lado masculino, não tanto de acordo com a cartilha freudiana, mas sobretudo segundo uma tradição de grotesco marítimo e rural, no qual se incluem os eventos milagrosos, que vem da literatura oral, e também graças ao ar desabrido da narradora, que permite conjugar erotismo e culto religioso. Também não é frequente. Devia ser mais.

Correr para ficar quieto

Depois da estreia em clima de festa no Lisbon & Estoril Film Festival, Os Belos Dias de Aranjuez, de Peter Handke, chega à cena de forma mais íntima no São Luiz: de 19 a 28 de Fevereiro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

São menos de 500 km de Arronches, no distrito de Portalegre, onde começaram com tempo e tranquilidade os ensaios desta peça, até Aranjuez, perto de Madrid, onde se situa a ação.

Ou melhor, a conversa entre um casal de intimidade tão antiga que as suas almas parece que se conhecem desde sempre, e que só podia ter lugar numa cidade banhada pela parte espanhola do Tejo, com um palácio real reconstruído. Ou talvez Os Belos Dias de Aranjuez se passe num outro lugar, sem tempo nem espaço concretos — o da paixão que docemente se transforma em amor e depois em amizade. Os dias foram igualmente belos.

Tiago Guedes, o realizador de Entre os Dedos (2008) e Coisa Ruim (2006), não encenava uma peça de teatro desde 2010, quando estreou Blackbird, de David Harrower, no Teatro Dona Maria II, em Lisboa. João Pedro Vaz levava já quatro anos sem pisar um palco, pelo menos enquanto actor, dedicado que estava ao projecto das Comédias do Minho, em Paredes de Coura, Cerveira, Valença, Monção e Melgaço. Mas Peter Handke, autor do argumento de As Asas do Desejo (1987) e de peças como Insulto ao Público (1966) e A hora em que não sabíamos nada uns dos outros (1992), vinha ao Lisbon & Estoril Film Festival, onde seria membro do júri, e escrevera uma peça nova, ou melhor, Um diálogo de Verão, entre dois antigos amantes, como é subintitulado Os Belos Dias de Aranjuez.

Quando Paulo Branco desafiou o casal Tiago Guedes e Isabel Abreu a estrear a peça no Festival, os dois pensaram logo em João Pedro Vaz para fazer a personagem masculina. Tiago, aliás, só aceitou o repto do produtor depois de João Pedro Vaz ter alinhado. O actor nem hesitou: era hora. Tinha vontade de trabalhar com estas pessoas, com quem se identifica, mais do que qualquer outra coisa, e disse que sim ainda antes de ler o texto. Depois, compreendeu, julga, porque se lembraram dele: tem feito muitas personagens em que a reflexão está desfasada da ação física, tipos que “elaboram muito, verbalmente” — uma “especialização por falta de recursos”, como diz. De resto, é rara a oportunidade de fazer uma peça do autor austríaco.

Handke é um dos dramaturgos mais importantes dos séc. XX e XXI, pela inovação, profundidade e relevância das suas obras no teatro contemporâneo (e até na performance). Os Belos Dias poderá originar um dos próximos filmes de Wim Wenders. Outra das suas peças recentes, Immer Noch Sturm (Ainda e Sempre Tempestade), foi uma das peças do ano em 2011.

Isabel, actriz de, entre outras peças, Três Dedos Abaixo do Joelho (2012), também “aceitou às cegas”, mesmo sem ter lido o texto. Difícil foi descodificar os significados ocultos da peça, escondidos nas alusões a poemas, filmes, lugares. “Tudo era misterioso, mesmo a decorar o texto.” A princípio, “não compreendia o que o autor estava a querer dizer… porque estava ele a falar sobre isto aqui, perguntava-me. Mas à medida que avancei fui-me apaixonando cada vez mais pela peça.”

A tranquilidade dos primeiros tempos de estudo e ensaio da peça, em que trabalhavam quase sem horários, o tempo todo, de forma muito pessoal, contrastaram com a urgência das semanas antes da estreia, no CCB. Os atores tiveram um dia para se habituar ao espaço, conhecer a acústica da sala e preparar a voz para chegar ao último espectador da sala. Foi “sem rede”, diz Isabel Abreu. Porém, a lembrança daqueles primeiros ensaios, realmente “debaixo de árvores, com os sons do verão” em fundo, que instalaram o ambiente da peça, e criaram o tom pessoal do espectáculo, nunca os largou.

A intimidade da sala estúdio do São Luiz vai devolver ao espectáculo esse estado de espirito inicial, espera Tiago Guedes. “Esta sala está mais perto de nós, a conversa que eles têm precisa dessa paz”, diz o encenador. É também por ter lido a peça como uma conversa serena que teve “dificuldade em criar impulsos para os actores se mexerem. Está tudo no texto.” A peça foi montada com planos aproximado. “Numa sala menor, o foco é diferente, estamos mais perto dos atores, das suas expressões. Para quem ficar sentado na primeira fila será como se estivesse à mesa com as personagens.”

Handke não viu a estreia, justificando-se com o excesso de foco que estaria sobre ele, e não sobre a obra. Mas a esposa, a quem a peça é dedicada, viu e ficou encantada — mais do que com a montagem original de Luc Bondy, e precisamente pela encenação em tom de conversa. E Isabel Abreu queria ver o autor. Um dia depois da apresentação única, a atriz meteu-se no táxi em direção ao aeroporto, para se despedir de Sophie e saudar Peter Handke, que acabara por não assistir à peça. Tanto tempo a tentar descodificar o texto, conhecer os seus mistérios, identificar as referências ocultas, entrar na cabeça do autor, e agora não lhe poder ver o rosto? À última hora, correu para lá. A última peça do puzzle seria encontrada já depois dessa despedida. Uma referência obscura a um tal Fernando e a uma Soledad, no fim do texto. A resposta veio por email: trata-se de um poeta austríaco que Handke invocou, na boca das personagens, sem nenhuma razão aparente. Fernando é também o nome do rei que, no século XVIII, mandou reconstruir o palácio real de Aranjuez, depois de um incêndio.

O trabalho de ligar as alusões não acaba. Quando falou com o Ípsilon, Tiago Guedes contou que ainda estava a tentar navegar no texto, a tentar encontrar os seus significados. “Se calhar vamos ter que repensar o final”, dizia Isabel Abreu, porque tinham encontrado novas pistas. O texto “vai um pouco contra a corrente, em termos de dramaturgia, contra o ar dos tempos”, afirma João Pedro Vaz. “Aranjuez é um lugar de fantasia, onde as personagens tentam evocar um tempo que já passou.” Essa sensação de fragilidade, esse estado de abandono, é a sua graça.

Depois da estreia em clima de festa no Lisbon & Estoril Film Festival, Os Belos Dias de Aranjuez, de Peter Handke, chega à cena de forma mais íntima no São Luiz. A apresentação única, no CCB, tornou-se um aperitivo para uma curta temporada na sala estúdio Mário Viegas, de 19 a 28 de Fevereiro.

Um memorial do music-hall

514945

Music-Hall
de Jean Luc Lagarce
TeCA, 13 de Fevereiro, 21h

Rogério de Carvalho e Jorge Ribeiro têm uma parceria que é das mais duradouras, consistentes e criativas do teatro português. A mesma cumplicidade têm As Boas Raparigas com o encenador. A expectativa em torno de uma montagem de Music-Hall, de Lagarce, uma peça sobre todas as peças de teatro, e como elas se vão construindo enquanto se apresentam, e reconstruindo depois, mais tarde, na memória, é compreensível.

Vejam as fotos do Paulo Pimenta aqui.

O texto é a reconstituição de um espectáculo, contada ao público pelos seus actores, em especial pela Rapariga, artista de variedades, que protagoniza, por assim dizer, o espectáculo, e domina a peça o tempo quase todo, mas também, ocasionalmente, pelos seus partenaires.

Com ecos das peças de Beckett, em especial À Espera de Godot, pelo lado das lembranças de números do music-hall, mas também de Horovitz, em particular o texto precisamente intitulado Didascálias, Lagarce consegue o feito de criar uma cena a partir da memória da cena, e com isso sublinhar o modo como actuar, no teatro, é uma metáfora das actuações na vida real. Claro, o teatro também é real. Este espectáculo é sobre todos os espectáculos, mas é também sobre a vida comum.

O espectador rever-se-á na situação encarnada por Maria do Céu Ribeiro, António Júlio e Paulo Mota. Para isso concorrem a destreza dos actores, capazes de desferir golpes com as palavras na consciência de cada membro do público.

O encenador levou os actores a encontrarem o seu caminho no labirinto de relatos de Lagarce, de modo a que se apropriem do texto e a cena emirja dessa apropriação, sem mais efeitos. Não só o espaço e os actores são iluminados. É sobre a narrativa que incide a luz desenhada por Jorge Ribeiro, criando significados não-verbais que completam as palavras, sim, mas também o tom, o sentido, a ironia e a comoção jogados pelo pequeno elenco.

Rogério de Carvalho foi encontrando na sucessão de cenas criadas pela iluminação uma outra memória de vários espectáculos, concretizando uma espécie de comentário aos shows de variedades que a Rapariga evoca.

No final do espectáculo, é evocada uma actuação, ou uma série de actuações, perante uma plateia vazia. O mundo todo é trazido para a cena. O espectáculo reproduz um universo que se basta a si mesmo, paralelo ao universo real, em que o público tem um lugar, como se um espectáculo de teatro fosse um microcosmos.

A peça parece querer levar o espectador a perguntar-se qual o seu papel no meio disto tudo. Como obra de ficção, por um lado, e experiência real, por outro, o texto de Lagarce é uma pérola da dramaturgia contemporânea, que provoca o espectador e, eventualmente, o fará assumir as suas responsabilidades, ou pelo menos reflectir sobre elas. A encenação de Rogério de Carvalho materializa esse gesto inicial do autor e, com o desenho de luz e as falas dos actores, supera-o.

Os massacres da Noruega aconteceram na Politécnica

foto de Jorge Gonçalves

Os Acontecimentos
de David Greig, enc. de António Simão
Teatro da Politécnica, 11 de Fevereiro, 19h

Os acontecimentos deste espectáculo não se resumem ao título e ao tema — um massacre feito por um atirador solitário, num centro comunitário onde ensaiava um coro composto por cidadãos das mais variadas origens. O texto foi escrito em reacção aos atentados na Noruega cometidos por Andreas Breivik, e tenta dialogar com esses factos sem os suprimir ou resolver cabalmente.

Seria isso possível, ou desejável? A peça tem a forma de uma sequência de acontecimentos cujo significado último — se existe — cabe ao espectador construir. A única questão importante é saber o que fazer com o que aconteceu, diz às tantas o actor que encarna o rapaz, assassino (João Pedro Mamede). Claire, a outra personagem em foco, a sobrevivente (Andreia Bento), corre esses factos em busca de uma explicação para o massacre. E essa busca de significado ecoa a tarefa do próprio dramaturgo, também ele fazendo uma tentativa de compreender como no coração da social-democracia escandinava (mas podia ser outra) se incuba o terror.

Esta estreia é em si um acontecimento, tal como é a publicação das últimas peças de Greig. Ir ao Teatro da Politécnica ver esta produção dos Artistas Unidos é um acto político que reverbera noutro acto político. Os Artistas Unidos já tinham montado A 20 de Novembro, de Lars Norén, motivada pela mesma chacina.

Uma e outra fazem parte de um teatro, uma cidade, outras, um país. Se havia dúvidas sobre a função da dramaturgia, está aqui: não apenas um espelho da sociedade, mas um martelo para moldá-la, como disse Brecht. Não pelo discurso, mas pela forma. Para terminar esta generalização da ideia de acontecimento à peça como um todo, falta o principal. É o que acontece em cena que é relevante, não apenas narrativa ou dramaticamente, mas no corpo dos actores, de cada um e de todos, sentido pelos espectadores. Os gestos, movimentos, olhares, frases, esgares, tudo é irreversível e irredutível, constituindo um conjunto de pequenos actos que, somados, dão lugar à obra e experiência teatral.

Andreia Bento e João Pedro Mamede reconstituem as cenas em redor do massacre entrando e saindo das várias situações com fluidez e fantasia. O actor tem de mudar de pele várias vezes, já que faz inúmeras personagens. Mas a actriz tem de imaginar que o rapaz é uma e outra figura. Ambos são concretos nesse jogo de cena.

Os Acontecimentos expõe o tema por vezes de forma directa, misturando ficção com comentário, diálogo dramático com interpelação da plateia, e acção teatral com coro musical. Face à complexidade do texto, com cenas encadeadas umas nas outras, ao arrepio das fórmulas mais convencionais, e figuras e personagens feitas pelos mesmos actores num piscar de olhos, a encenação e a cenografia dispõem a cena com cuidado e simplicidade, para fazer os actores brilhar.

A irracionalidade do assassino — ou, pior ainda, a sua racionalidade tortuosa — contrasta com o código divino da música coral, atenuando a angústia e aumentando a esperança. A música torna a vida suportável, para usar outro lugar-comum. A arte teatral mostra o que ela tem de insuportável.

O Kilimanjaro visto de cima

889238

Kilimanjaro
de Hemingway, enc. de Rodrigo Francisco
Teatro Joaquim Benite, 25 de Janeiro, 16h

Se Harry, a personagem de As Neves de Kilimanjaro, era um alter ego de Hemingway, serão as personagens desta peça alter egos dos actores? Dir-se-ia que sim, tal a propriedade com que assumem as falas escritas e reescritas por Rodrigo Francisco para as suas bocas e corpos.

Esse é um dos feitos deste espectáculo: um elenco que no todo vale mais do que a soma das partes. Atenção que os actores, contados um a um, não vão nada mal, antes pelo contrário: Ana Cris, Duarte Guimarães, Elias Nazaré, João Farraia, João Tempera, Luís Vicente, Pedro Lima, Pedro Walter, Rita Loureiro (José Evaristo tem uma participação especial) actuam com convicção e graça, cada um deles apropriando-se das ideias e emoções das personagens à sua maneira, ou aliás, melhor dizendo, recriando as ideias e emoções das personagens a partir das palavras do texto. Essas mesmas palavras são o outro trunfo da peça: os diálogos agarram, as expressões caracterizam, o português corre agilmente, a prosa reconhece-se mas surpreende também.

Há um certo sabor a Joel Pommerat na economia das cenas, seja na maneira como foram desenhadas para desenrolar aos poucos cada personagem, seja na alternância entre escuros e acção, seja ainda no modo como começam e acabam abruptamente, como vinhetas. Isto é um mérito. A circulação da camilha onde Harry padece, os avanços e recuos no tempo, as viagens pelos vários países do mundo ficcional de Hemingway, e o modo como luz, música, cenário e figurinos concorrem para materializar essas histórias são outros tantos méritos da encenação.

O espectáculo não tem propriamente um pico dramático. No momento mais tenso da actuação de João Tempera, quando se confronta com os horrores da guerra, a sua loucura temporária desvia a tensão dramática e alivia, indirectamente, a situação de confronto. Os momentos de insinuação sexual entre Rita Loureiro e Pedro Lima também poderiam ser menos pudicos.

A contenção serve uma poética própria, apurada pela encenação para oferecer uma vista panorâmica, sobre o caminho que vai da juventude ao abandono da vida, em que o destino parece ser obra do acaso, mais do que estar nas mãos de cada um.

Este espectáculo presta-se a ser metáfora de várias coisas. Cada pessoa que o vir escolherá as suas metáforas preferidas. Pode-se pensar que esta peça é sobre Hemingway, sobre a Europa e África, sobre o séc. XX. Mas é sobretudo, através desses filtros, acerca de um certo país, uma certa maneira de estar, uma certa maneira de pôr as coisas, muito familiar, reproduzida aqui com fantasia e fidelidade, e não apenas pelo texto, mas pela maneira como os actores ocupam a cena.

Rodrigo Francisco assina uma encenação e uma dramaturgia dignas de nota, por várias razões, mas sobretudo por ser escrita e encenada para os actores levantarem voo, um por um e no conjunto, e assim devolverem aos espectadores o adormecido condão de voar.

O cineasta Pablo Larraín estreia-se num novo festival de teatro

903279

Acceso, primeira encenação de Pablo Larraín, estreia um novo festival, o Escenas do Cambio, em Santiago de Compostela.

É a primeira vez que o chileno, realizador de No (2012) e Tony Manero (2007), encena um espectáculo de teatro. É a primeira vez que o espectáculo se apresenta na Europa. E é a primeira vez que o festival onde foi programado se realiza. Acceso, com Roberto Farías, pode ser visto sexta-feira e sábado, no Escenas do Cambio, na Cidade da Cultura, em Santiago de Compostela, numa espécie de aposta tripla.

Estreado o ano passado no Teatro La Memoria, em Santiago do Chile, é uma rajada de perguntas contra o público, feitas por Sandokan, vendedor ambulante, vítima de abusos, criado em instituições de apoio. Nos mesmos dias, estreia a versão local de Mis Documentos, concepção de Lola Arias, série de performances em forma de conferência, dadas por criadores galegos, sobre memórias e experiências pessoais. A versão original foi também apresentada. O festival teve início a 4 de fevereiro com Vontade de ter Vontade, de Cláudia Dias, e Atlas, de Ana Borralho e João Galante e encerra na próxima semana, com La Edad de Oro, de Israel Galván, e By Heart, de Tiago Rodrigues.

O Escenas do Cambio mostrou vários espectáculos no cruzamento entre teatro, dança e performance, construídos a partir de documentos e de biografias reais, e ao mesmo tempo em busca da proximidade e participação dos espectadores, como Os Contos de Joselín, de Quico Cadaval, ou Una Introducción, de Olga de Soto, ou ainda Pendiente de Voto, de Roger Bernat, ou De repente fica tudo preto de gente, de Marcelo Evelin, numa amostra representativa das tendências atuais das artes do espectáculo.

Teatro e parlamento

Pendiente de voto

Pendiente de Voto na Cidade da Cultura (foto Amanda Pardal)

O segundo dia do Escenas do Cambio teve uma peça galega, o mais simples possível, com uma atriz sozinha em palco a falar diretamente para a plateia e a levar um ou outro espectador para dentro de cena – Teatro Invisible, do Matarile Teatro; e outra catalã, sem atores, em que o público votava as respostas a perguntas num ecrã – Pendiente de Voto, de Roger Bernat. São obras teatrais, sim, mas sobretudo experiências teatrais, uma mais participativa que a outra, que obrigam o espectador a pôr-se no papel dos artistas, ainda que por meros instantes.

Thomas Walgrave (foto Amanda Pardal)

À tarde, Thomas Walgrave, do Alkantara, apresentou o projeto para uma plateia muito interessada em saber como funcionam as estruturas de criação e produção em Portugal (e como são financiadas). Hoje, às 17h, María Muñoz falou do centro de criação L’animal a l’Esquena, situado em Girona. Seguem-se Os contos de Joselín, em língua galega, de e com Quico Cadaval, Celso F. Sanmartín e José Luis Gutiérrez “Guti”, e De repente fica tudo preto de gente, de Marcelo Evelin.