Infiltrações domésticas [PLÁSTICO]

Nada #2, de Edward Bond, pelo Teatro Plástico
Porto, 9 de Setembro de 2005

O teatro é a continuação da política por outros meios. Quais? «As formas simples do próprio drama, com o seu antigo-moderno poder que os humanos recriam nos jogos infantis», escreve Bond numa carta ao Teatro Plástico. E a remontagem de Nada tem muita matéria teatral para gozo estético e reflexão política. Se fizermos uma lista de aspectos deste espectáculo – luz, som, cenário, figurinos, fotografia, ilustração, design gráfico –, emerge uma concepção cénica muito estimulante. No início do espectáculo, durante uns bons minutos, a iluminação da plateia inclui os espectadores num contentor de chapa que é a moradia das personagens mas que poderia ser um tribunal ou a cabine alargada de um reality show. Esta sugestão compromete o público com a acção que se segue, e prepara-nos para um momento de confronto com a experiência real do teatro. Repetidas vezes, homem e mulher discutem por uma aparente banalidade: um deles acusa o outro de se sentar na cadeira errada. Parece que estão de volta aos bancos de escola. Manter o mesmo lugar à mesa é um dos minúsculos procedimentos de controlo que Bond nos tenta fazer desaprender. No final, com a mulher a suicidar-se, a preocupação do homem é manter o lugar na furgoneta de patrulha. Está alheado, noutro lugar, não neste sítio. Como fazer este jogo infantil? Sempre que a situação parece clara para os actores, a gama de sentimentos aumenta, os corpos ficam mais ligeiros, e a interpretação ganha ânimo. Por vezes, contudo, os actores sobrecarregam as falas com uma agressividade sem sentido aparente, ou fazem uso de uma indiferença átona, em ambos os modos reduzindo a expressividade. Será a tradução de um vazio gerado pelo apocalipse? Ou, num futuro sem imagens e sem irmãos, em que o Estado é pai de tudo e todos, a paranóia das personagens fá-las-ia dormir com um olho aberto? O que vai dentro das cabeças destas personagens não pode corresponder apenas a dois estados de consciência. Esse é o caminho da representação convencional, que não ressoa nas mentes e corpos dos espectadores, frustrando o objectivo da teatralidade. Seria melhor ter as personagens a simplesmente conversar, acumulando tensão, e que as explosões emocionais acontecessem no momento certo. A interpretação devia ser feita com a mesma magia – e crueldade, claro – com que as crianças brincam aos pais e às mães. A parábola de Bond mostra as infiltrações da violência em casa e no Estado, e o suicídio como acto de rebeldia individual e político. A força artística destas ideias reside na articulação entre as experiências íntima e pública dos espectadores; e por isso depende de uma concretização em palco mais real que a vida.

Em resumo: a parábola de Bond mostra as infiltrações da violência em casa e no Estado. Nada #2 tem matéria plástica para gozo estético e reflexão política, mas a interpretação devia ter a magia – e crueldade – dos jogos infantis.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Create a free website or blog at WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: