Paisagem com Don Juan posando [S. JOÃO]

D. João, de Molière, pelo TNSJ
Porto, 28 de Fevereiro de 2006

O ego ou a morte. D. João despreza as críticas que lhe são feitas pela ex-mulher, pelo pai, pelo credor, enfim, pelas suas vítimas. Um homem faz as promessas que tem de fazer, por imperativo vital. Se as vítimas se deixam enganar, há D. João de ser castigado? É um conquistador, faria conquistas até noutro mundo. No fim, levado para os infernos, esperam-no novas vitórias, na forma de um jacto de bolhas de sabão, lançado com os últimos gemidos. Bolhas de sabão, sim. Os símbolos escolhidos para ilustrar a peça de Molière são geralmente sublimações, mostrando o lado higiénico da carne e da terra. Os destroços que compõem o piso cénico estão limpos. Os andrajos de D. João e a bata de médico de província de Esganarelo são esterilizados. O choro de D. Elvira é de notas cristalinas, não de soluços. A elegância é mantida a todo o custo. Os objectos parecem não ter história, a não ser a da sua própria composição, a de relações formais entre cor, volume, movimento. A ligação das falas ao desenho das situações é mínima: as vozes evocam os mesmos sentimentos ao longo da peça. O tom geral é cavalheiresco. Parte da acção é oculta por uma réplica das cortinas do TNSJ: o espectáculo é o próprio teatro. O impacto na plateia é desigual, conforme a riqueza de emoções que atinge os espectadores, vinda dos actores. Alguns incorporam mais e melhor as personagens, com mais mistério e encantamento, não se limitando a ilustrar uma ideia. Nessa altura a comédia atinge o seu melhor, fazendo-nos rir de algo que conhecemos intimamente. Mas não lhes bebemos as palavras. Porquê? O som das vozes está amplificado e bem audível. A dicção é impecável, sobretudo no dialecto. Talvez por isso mesmo: cada voz parece ter origem dentro do espectro sonoro gerado pelas colunas de som, não na zona do palco. Cada voz soa destacada da boca a que pertence. Os factos concretos e as circunstâncias da fala foram mitigados, em troca da exploração do arranjo das formas sonoras e verbais. Como os gestos e as intenções, estilizados. Como a deslocação dos corpos e a mecânica das várias partes da plataforma, abstractas. E com tudo isto, o espectáculo é mais um conjunto de paisagens estéticas (vocal, cénica, coreográfica) do que uma sequência de peripécias cómicas conduzindo a um clímax. O envolvimento emocional é arrefecido, o plástico levado ao expoente. O formalismo desta criação, cujo contexto de referência parece ser o passado e o presente da arte teatral, é depurado e erudito, mesmo na apropriação que faz do caxineiro – mas não encontra a cumplicidade dos espectadores, cujo contexto cultural será mais basto, mais feio, mais bruto.

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