Apocalipse já aqui ao lado [VISÕES]

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XXX FITEI
O Resto do Mundo, a partir de Joseph Conrad, pelo Visões Úteis
Porto, 12 de Julho de 2007

«Vou ao Porto», dizem as pessoas no bairro de São João de Deus, do Cerco ou do Lagarteiro quando de lá saem para vir à cidade. Quantos leitores terá o Público ou a crítica de teatro nesses bairros, e quantos espectadores as companhias de teatro do Porto? Não se sabe. A «cidade para lá da circunvalação», tão distante de nós como o Cambodja e o Vietname de Coppola, é um espelho onde se vê o oposto do leitor de jornal e espectador de teatro. Ou talvez não. Mas por esta zona ser um complexo de guetos, os Visões Úteis acharam que era o cenário apropriado para uma viagem com as palavras de «O Coração das Trevas», de Conrad. E embora no início apenas pareça ficção, o táxi é a sério, a cintura externa do Porto existe, e o dia escurece durante o percurso. Mas não só: as consequências são reais no que a ficção pode ter de real. A imaginação e a memória do espectador mudam. Depois da performance, nada continua na mesma. E isso não é porque o percurso pela zona oriental nos dê a ver a miséria ou a marginalidade, que dá, nem sequer pelo voyeurismo que nos é devolvido, que é, mas porque o espectáculo se debruça sobre nós próprios, sobre o nosso medo quotidiano, irremediável, que ocultamos debaixo do tapete de asfalto. Um dos momentos sublimes da viagem é quando, já quase noite, se multiplicam os táxis à volta do nosso, como se eles pudessem ser os espectadores e nós os consumidores do produto. Fica claro o quanto dependemos uns dos outros. O audiodrive começa e termina nas estações de metro, lugares neutros, depois de uma excursão aos vestígios da ruralidade (no Azevedo) e da habitação social (nos tais bairros). É apenas uma viagem de táxi para três pessoas e dois actores, e seria injusto compará-la com os outros espectáculos em cartaz, mas pelo menos este faz algum sentido. Apetece dizer como no refrão de Panic, dos Smiths, que apela à revolução: «Hang the blessed DJ / Because the music that they constantly play / It says nothing to me about my life». Ao fazer uso das fábulas de Conrad sem aniquilar o mistério, o grupo coloca-se como mediador impecável entre a realidade do público e a intuição do escritor, ao mesmo tempo que explora os limites da arte para nos falar sobre o mundo. Apocalypse Now, o filme, já era uma espécie de conto infantil que, obviamente, não fala sobre o Vietname, tal como o Capuchinho Vermelho não fala sobre lobos. O Resto do Mundo não é apenas sobre o apocalipse diário no outro lado das vias rápidas, de onde se vê, em contraste, omnipresentes e luminosos, o estádio do Dragão e o centro comercial Dolce Vita. Os Visões causam uma experiência pessoal que sintetiza reflexão e emoção. O espectáculo é um exercício sobre o que significam as palavras de Conrad para o grupo e para o seu público e sobre como usar a arte para explorar significados, celebrando a versatilidade e adaptabilidade de uma fábula aos mais variados contextos e realidades. Quais as consequências deste trabalho? Pelo menos, há novos projectos previstos pelos Visões Úteis, naqueles bairros, para Setembro de 2007, e estes não serão apenas sujeito das nossas visões. O estádio e o centro comercial foram vistos de outro lado, e os significados de Dragão e Dolce Vita são menos literais e têm outras ramificações, que chegam ao extremo oriental passando por cima da via rápida. O apocalipse está mais perto.

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One thought on “Apocalipse já aqui ao lado [VISÕES]

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  1. Que pena não ter podido ver. Mas, sou de Lisboa. Tenho de esperar que eles venham para Lisboa fazer uma versão alfacinha…?
    Fico muito contente que a performance (?) das minhas amigas visões seja inesquecível.

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