O coração na caixa mágica [BRUTO]

Corações em Ferrugem, a partir de Ondjaki, pelo Teatro Bruto
Porto, 10 de Janeiro de 2008

O mais estanho a este espectáculo são as palavras. Os contos de Ondjaki foram radicalmente traduzidos para uma linguagem de caixas de madeira, ferros, cortinas e lâmpadas, usada pelos actores para contar as histórias, ao invés de serem simplesmente narrados ou interpretados. Vertidas num vernáculo cujos termos são marionetas, objectos e formas animadas, as narrativas do autor angolano não são de todo contadas, aliás, mas ao invés disso mostradas; como se acontecessem num universo não verbal, feito de coisas no lugar de palavras. De vez em quando, é certo, para garantir que é passado ao espectador algum dos factos de cada uma das cinco fábulas, os actores lá dizem partes do texto, que ou não foram traduzidas para essa língua de coisas, ou se achou por bem usar para fazer avançar a acção, e também um ou outro diálogo entre as personagens fantásticas do mundo maravilhoso em que os corações enferrujam, as gaiolas engolem as donas e os ossos das velhas riem de nós. Porém, num universo tão inventivo, em que até os corpos e os rostos são vistos de modo inesperado, tão grotescos e ao mesmo tempo tão mecânicos, as vozes e o texto soam demasiado convencionais, ditas à pressa, sem o cuidado, a reinterpretação e a originalidade que os restantes elementos do espectáculo contêm, e por isso pedem e prometem para todo o espectáculo. O melhor mesmo é o caixa de onde tudo sai, uma reinvenção de estrado e guarita de cena que parece ter vontade própria, não fosse vermos que é (habilmente) manipulada pelos actores. A encenação criou um palanque de tábuas e ripas que se monta e desmonta como por magia, onde moram aquelas pessoas de traços disformes, na vizinhança de marionetas de ferro-velho, que povoam o imaginário do escritor e do encenador. A manipulação é tão engenhosa que põe o espectador a perguntar-se «como é que eles conseguem?», mesmo quando está tudo à vista – uma das primeiras condições para haver espectacularidade. Os materiais usados na construção do cenário, figurinos, bonecos e demais objectos evocam os teatrinhos de fantoches das feiras e festas populares, ou as casotas das hortas e quintais. O espectáculo é uma ilustração dinâmica e surpreendente da ficção literária criada por Ondjaki, e a materialização de um teatro da memória, onde as coisas acontecem sem uma lógica causal estrita e se apresentam personagens reconhecíveis pela sua humanidade, feita de contradições irresolúveis e posturas inesperadas e inconsequentes. Estes contos com notas de surrealismo estão o mais perto possível da literatura de cordel e das histórias fantásticas que as crianças ouvem acontecer aos adultos, e por isso mesmo este espectáculo se parece tanto com essa reminiscência de palcos da infância que povoa o imaginário.

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