Pecadilhos no chá das cinco [SEIVA]

Estados eróticos imediatos de Soren Kierkegaard, pela Seiva Trupe
Porto, 26 de Setembro

Neste espectáculo, as personagens chegam entre painéis de cenário, como se estivéssemos nos bastidores de Don Giovanni. (Foi a ópera de Mozart que inspirou o texto de Kierkegaard onde Agustina se inspirou para escrever esta peça.) Do lado de lá estariam as personagens de ficção, do lado de cá as figuras cuja história verídica se conta, com a participação especial do próprio Don Juan, em aparições fugazes. A atitude corporal dos actores é consentânea com a vida da alta burguesia de qualquer capital norte-europeia do séc. XIX, tal como a imaginamos hoje: por um lado, etiqueta luterana e nome de família; por outro, explosões dionisíacas à porta fechada. Dentro do formalismo das relações sociais, altamente codificadas, corre uma corrente de sentimentos, para a qual os actores desenvolveram um estilo de interpretação, em tom de conversação, que não faz jus à intensidade dramática, ainda que abafada, dessa contradição básica. Com quem conversam eles, afinal?

Anne Bogart e Tina Landau, num manual de metodologia teatral (The Viewpoints Notebook), dão exemplos de como se foi alterando, ao longo da história do teatro ocidental, o destinatário principal das palavras dos actores. Nos anfiteatros de Roma e da Grécia Antiga, o actor dirigia-se aos deuses, representados em estátuas colocadas acima e atrás da assistência; durante o Renascimento, falavam para a corte, sentada nos lugares centrais do primeiro balcão; no séc. XIX, para a plateia, dando origem às formas populares do melodrama e do vaudeville; com o advento do naturalismo, e as peças de Ibsen e Tchekhov, os actores passaram a falar uns com os outros, como se houvesse uma quarta parede entre eles e o público; finalmente, com Beckett, a relação do actor é com o Nada. O foco da representação passou do cósmico, pelo humano, para o existencial. Este espectáculo é um exemplo dessa mudança que culmina no olhar para o vazio, no caso um pequeno inferno representado por um livro em chamas. No lugar de Deus está agora Don Juan. Esta tentativa de resolver o tabu erótico do cristianismo, tarefa de monta que redunda num abismo, precisaria de maior concretude, tanto nos factos quanto na interpretação deles. Apesar da etiqueta, as personagens lutam por dar sentido à existência, e só daí viria a força desta dramaturgia.

Assim como os europeus do Norte são atraídos pela pedra-de-toque que é o pecadilho meridional, também os latinos têm um fraquinho pelo luteranismo, com os seus dilemas morais, sentido de culpa e ligação directa a Deus. Estatísticas do Alto Minho revelam que sem filhos ilegítimos jamais teria havido gente nos seminários de Braga; mas um viúvo engravidar a criada no primeiro ano de luto é suficiente para causar escândalo em Copenhaga. O jovem dinamarquês saído dessa união só pôde identificar-se com a superação da ordem cristã por uma moral libertina, tal como o mito de Don Juan sugeria. Soren Kierkegaard recriou-se à imagem desse mártir de uma seita erótica de Sevilha. O público do Midi deleita-se com os remorsos do protagonista, porque está condicionado para salivar no confessionário.

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