O sonho do judeu e o pesadelo do cristão [TNSJ]

 
O Mercador de Veneza, de Shakespeare, encenação de Ricardo Pais
Porto, 7 de Novembro

Para ajudar Bassânio a conquistar Pórcia, António, um mercador de Veneza, recorre ao agiota Shylock, a quem reprovara a prática da usura, e aceita dar a própria carne como garantia de empréstimo. Prazo decorrido, o judeu exige a execução. Bassânio é salvo pela intervenção miraculosa de Pórcia, e Shylock é condenado por atentar contra um cristão. O Mercador de Veneza retrata a crescente racialização das relações sociais no século XVI, e as suas contradições. É a anunciada última encenação de Ricardo Pais no TNSJ. Voltará em Janeiro, depois de uma carreira breve com lotações esgotadas.

Na cena fulcral do espectáculo, Shylock (António Durães) está deitado de costas, por cima de António (Albano Jerónimo), esmagando-o com o peso. Envoltos em fumo, numa figuração de auto-de-fé e câmara de gás ao mesmo tempo, as personagens fundem-se uma na outra, representando um centro de onde tudo emana e para onde tudo reverte. É nesse ponto que Ricardo Pais faz a colagem de excertos que lhe é característica, pondo na boca de António falas de várias personagens. Dado que a cena de tribunal, clímax do texto original, foi deslocada para a primeira parte, é este pesadelo de António que toma o lugar principal na economia do espectáculo, e é nele que mais se nota a assinatura da encenação, não só pela mudança formal que introduz, mas também por ilustrar as ideias por trás da montagem, em especial a do sacrifício comum do mercador cristão e do agiota judeu, em benefício dos mais novos, e a da ansiedade do cristão em relação a esse parente mais velho que é o judeu. A cena é memorável.

As acções paralelas que, na peça, decorrem ora no Rialto, ora em Belmonte, são aqui separadas, a primeira parte localizando-se apenas em Veneza, a segunda apenas em Belmonte. O costume de juntar as cenas segundo a localização remonta ao final do século XIX, diz Barbara Heliodora no seu Falando de Shakespeare, tendo origem na necessidade de adaptar os textos isabelinos aos palcos à italiana (F. R. Benson terá sido o primeiro a ter essa ousadia).

O espectáculo é formado mais por um conjunto de retratos dos sentimentos dominantes das personagens, desenhado com as palavras, cena a cena, do que por um enredo concreto, constituído por acções e circunstâncias. Como resultado, a teatralização das emoções é mais verbal que vocal, mais sentimental que somática, mais visual que cinética. Pessoalmente, preferiria mais carnalidade; mas eu sou daqueles que ficam a torcer para que o judeu espete a faca. A peça é encenada como uma grande sequência de painéis vicentinos, onde se desenrolam várias fábulas de conversão, acompanhadas por uma banda sonora omnisciente. O negrume, a luz e o fumo sugerem um ambiente de celebração negra. E o sacrifício da carne para redenção do pecado quase acontece. Na segunda parte, Belmonte parece ser um castelo de conto de fadas. Os sonhos de Jessica (Sara Carinhas) e Lorenzo (José Eduardo Silva), que encerram muito bem o espectáculo, assentam nos pesadelos de Shylock e António. Por trás de um grande cristão está sempre um grande judeu.

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