Assalto aos teatros do Porto [FITEI]

XXXII FITEI

Ariadna, de Carlos Iniesta, encenação de Ricardo Iniesta
Porto, 26 de Maio de 2009
Boris Godunov, encenação e dramaturgia de Alejandro Ollé e David Plana
Porto, 28 de Maio de 2009
Animales Artificiales, autoria e encenação de Ana Vallés
Porto, 8 de Junho de 2009

O FITEI deste ano ocupou vários pontos da metrópole, do Teatro Nacional São João ao renovado Constantino Nery, do Coliseu do Porto à Fábrica Social, da Torre dos Clérigos à praia de Matosinhos. De modo semelhante, expandiu o tipo de espectáculos apresentados, da performance ao teatro de rua, da dramaturgia contemporânea à dança, dos clássicos aos inclassificáveis. Toda esta diversidade de formas tinha em comum o uso da ficção teatral como modo de pensar a realidade.

Ariadna, por exemplo, vindo de Sevilha, revisitava o mito de Teseu e Ariana. A montagem tinha um cenário versátil e impressionante, mas o teor da interpretação era pomposo, sem a circunstância, acabando por soar a falso. Já Boris Godunov, vindo de Barcelona, que em tudo prometia ser falso, resultava melhor. O espectáculo simulava um ataque terrorista ao Coliseu do Porto, fazendo dos espectadores figurantes-reféns, e permitindo ver projectadas imagens do exército na Passos Manuel. Como a invasão do Coliseu interrompia, supostamente, uma representação de Boris Godunov, de Pushkin, a ficção dramatúrgica era utilizada para comentar o acto terrorista; e, a meio, um dos actores da companhia era obrigado a representar uma cena da peça, para gáudio de um dos sequestradores, com uma das terroristas que, noutra vida, havia sido actriz.

Felizmente não invadiram o Rivoli, ou correriam o risco de fazer uma cena de A Gaiola das Loucas. Embora os fãs de La Fura del Baus tenham ficado algo decepcionados pela falta de sustos e arrepios na espinha, os espectadores mais snobs, que já puseram para trás das costas o fascínio com as partidas que os Fura pregam ao público, iriam decerto apreciar o argumento por trás da representação. As actuações eram irrepreensíveis, o aparato impecável, os diálogos bem escritos, e o risco de a qualquer momento poder ser convocado ao palco, ainda que não se compare à tragédia de reféns reais, causava um certo terror, pelo menos ao crítico. Em todo o caso, valia pela fantasia de ver o Coliseu ser tomado por homens e mulheres armados.

Animales Artificiales, de Santiago de Compostela, começava por deixar claro que era um espectáculo sem trama, sem personagens e sem acção, afirmações feitas no início por uma clown corifeia, dali a pouco interrompida por um actor que lhe corrigia as falas mal decoradas. Afinal havia um texto, um guião, um propósito. O espectáculo é uma sequência de variações sobre a cultura da espécie humana, que inclui dança, canções, números cómicos, invasões da plateia e monólogos, tudo feito com tal fluidez e harmonia que o espectador não deixa de se enlevar.

Se Ariadna invocava os mitos gregos, e Boris Godunov trabalhava a experiência mediática, era Animales Artificiales quem mais perto chegava da experiência primitiva e ritual que precedeu o teatro clássico ateniense, por um lado, e mais rapidamente rompia os filtros hertzianos da nossa percepção, por outro, buscando a pura forma para estimular o pensamento. Um festival de teatro serve para isto.

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