A multiplicação dos corpos

Antígona, de Sófocles, encenação de Nuno Carinhas
Porto, 14 de Abril de 2010

Um corpo está no centro desta tragédia, o de Polinices, que, tendo traído e atacado Tebas, conheceu a morte às mãos do próprio irmão, Etéocles. Ambos são irmãos de Antígona e Ismena, filhos amaldiçoados de Édipo. Creonte, rei absoluto, proíbe o enterro do traidor. Opõe-se-lhe Antígona, a futura nora. Quando a peça começa, Antígona revela à irmã que pretende sepultar o irmão levando a cabo as cerimónias habituais, para que o cadáver não fique à mercê dos animais. Ainda que na peça o incumprimento desses rituais seja também uma ofensa aos deuses, o carácter divino dessa obrigação decorre do carácter abjecto daquele abandono. O rei inverte a ordem natural das coisas: impede o morto de descer à terra e condena a viva, Antígona, a ser encerrada numa caverna subterrânea. Começa a multiplicação dos corpos. A protagonista suicida-se. O filho de Creonte, seu noivo, suicida-se. Eurídice, mãe deste e esposa de Creonte, suicida-se. O castigo do tirano é viver sozinho.

O cenário, que sugere uma cratera vulcânica, é belíssimo, e o espectador não se cansará de olhá-lo. Representa a própria boca do Inferno, por onde as personagens caem, mas é também uma metáfora dos extremos característicos das personagens trágicas. Adormecidas durante muito tempo, destroem tudo à sua volta quando explodem, inclusive os próprios corpos. O mesmo vale para os deuses inventados à imagem dos gregos. Incomodados, reagem furiosamente. A insensatez do todo-poderoso rei, desordenando vivos e mortos, só pode despertar a fúria das forças divinas, cuja transcendência advém de uma certa racionalidade atribuída aos costumes e à natureza.

É, pois, num ambiente telúrico que decorre o duelo de vida ou morte entre o rei e a jovem princesa. A relação entre as coisas concretas e as ideias abstractas, essencial para levar os cidadãos atenienses a reviver os seus casos, esbarra, porém, na mínima expressão corporal desta montagem. No geral, o movimento e a acção física de cada um dos actores são demasiado estáticos para o gosto deste crítico. Não haveria mal nisso, mas a rigidez dos intérpretes limita a expressão verbal e visual da peça e, embora permita compor enquadramentos impressionantes, que encantam realmente, reduz a experiência tanto da performance como da ficção.

Pior, os cúmulos emocionais que a tragédia grega pede às personagens ficam sem chão. Apesar do talento de Maria do Céu Ribeiro, a interpretação que se destaca das outras é a de António Durães, no papel de Creonte. Habituado a fazer as figuras de autoridade, Durães é o actor que melhor cuida das questões de elocução, articulando-as com a presença corporal: voz, corpo e pensamento formam um conjunto de partes vivas, actuantes sobre as demais personagens. A estética do espectáculo encontra no trabalho deste actor o seu melhor intérprete, o que, aliado ao seu carisma, faz de Creonte a personagem principal desta Antígona.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Site no WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: