Tragédia rural à la Nelson Rodrigues

Estranhas Galinhas, do Grupontapé de Teatro
São Paulo, 21 de Abril de 2010 (V Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo
)

Apesar de inspirado num dos contos mais conhecidos de García Márquez, «Um senhor muito velho com umas asas enormes», este espectáculo pouco mais usa, do conto original, que a ideia de um anjo aprisionado num galinheiro. A partir daí é criada uma nova história, a do banho de sangue de três irmãs devotas de São Roque que, numa semana de carnaval, são encontradas mortas, duas a tiro e uma estrangulada, suspeitando-se de um homem vestido de anjo que foi visto a saltar o muro. Isto sabemos no final, quando se ouve em off uma notícia radiofónica. Durante o espectáculo, vemos que estas três irmãs, que vivem como galinhas, aprisionaram um anjo a quem acabaram por pedir (ou ceder) favores sexuais, com alguma culpa e falso pudor derivados de um evento traumático no passado.

A irmã mais nova, que é louca, acaba por matar as outras; o anjo estrangula-a e foge. O trauma parece ter sido o abuso sexual por parte do pai e a respectiva vingança delas, a que as irmãs se referem como o segredo ou a consagração a São Roque. Em efígie num dos cantos do cenário, a potencia erótica do pai é sublimada na figura do santo. O drama é exagerado, porque é a via pela qual as personagens expressam os seus desejos e tentam lidar com a culpa sexual. As irmãs entregam-se a um jogo de papéis em que representam uma família de substituição, cheia de ressentimentos e apetites insatisfeitos. Nos seus jeitos de falar e de estar, a irmã mais velha representa o pai severo, a irmã do meio a mãe pudica, e a caçula a filha casadoira. O anjo é o novo fetiche, que ameaça desequilibrar o baile de máscaras.

Esta entrega das irmãs galinha a um ritual de fingimento faz imediatamente lembrar Genet e ao ouvir a notícia de rádio vem à memória As Criadas, precisamente inspirada num fait divers policial (mas real). E o traço mais marcante desta encenação e dramaturgia será precisamente essa herança cruzada de Genet e Artaud que traz para a boca de cena a relação entre desvio e prazer, como um rito a que os espectadores assistem. É em tom assumidamente rodriguiano que são mostradas as perversões do cenário rural brasileiro. Mas o pecado mora ao lado. Esta investigação pelas sombras do desejo feminino revela a tensão sexual na sociedade urbana oficialmente monogâmica e patriarcal, sem a atacar de frente. Um pouco mais de metateatralidade, talvez, revelando o grupo por trás da actuação, e o assombro seria ainda maior.

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