Explode América Latina

E de novo, como no ano anterior, explode mais um espectáculo vindo das capitais da América Latina, fazendo sensação um pouco por todo o mundo, Europa incluída. Em Buenos Aires e São Paulo, há meio milhar de estreias por ano, em centenas de salas registadas ou espaços improvisados, promovidas por pequenos colectivos teatrais. A Portugal têm chegado mais timidamente ecos dessa vaga, nos festivais e em iniciativas pontuais, com as estreias de Rafael Spregelburd (La Estupidez) e Guillermo Calderón (Deciembre), no Festival de Almada, em 2007 e 2009, respectivamente; de Gerardo Naumann (Emily) na Culturgest, em 2008; de Claudio Tolcachir (La omisión de la família Coleman), em 2009, no Centro Cultural de Belém; e dos paulistanos XIX (Hysteria) no FITEI, em 2004. Nas próximas semanas poderemos ver dois espectáculos chilenos do Próximo Futuro, na Gulbenkian, e a versão que Daniel Veronese fez de Hedda Gabler (Todos os grandes governos evitaram o teatro íntimo), no Festival de Almada.

[Leia o artigo completo no Ípsilon]

Que aconteceu aos grupos históricos, entretanto? Em Bogotá, no ano passado, no encontro internacional do Instituto Hemisférico de Política e Performance, pude assistir a El Ultimo Ensayo, dos peruanos Yuyachkani, e a A Título Personal, do Teatro de La Candelaria, de Bogotá, onde eram postos em cena os impasses da criação perante o desabar tanto das ditaduras de direita quanto das esperanças de esquerda. Desde o início do milénio, não só a democracia se revelou uma desilusão, como as esquerdas não forneceram alternativa viável, e as memórias do terror da ditadura continuaram a reemergir constantemente, criando uma sensação de tempo cíclico, em que o futuro é o passado. Quebrar esse impasse parece ser um dos movimentos deste novo teatro. A cena é expressão da violência que decorre lá fora, para sempre, vê-se agora. E daí vem a força desta dramaturgia, da articulação estética dessa violência, no seio de sociedades globalizadas, mediocráticas, onde a representação autêntica da opressão se tornou um bem escasso. Em Manifesto de Niños, de Veronese, produção do El Periférico de Objectos, o público espreita para dentro de uma cabine onde a violência física pode ocorrer a qualquer momento. Os nomes de crianças assassinadas estão pintados nas paredes e são ditos em voz alta. O premiadíssimo Pedro de Valdivia, do Tryo Teatro Banda (a que assisti na V Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo) é outro exemplo disso: enquanto vai contando a história do conquistador do Chile, sugere os actos sanguinários do século XX. Os novos grupos da América Latina contam as suas histórias. Este teatro é real porque pretende reagir ao real, reflectindo-o, mas também porque é feito da diferença entre os sonhos e a vida real – a matéria que Arthur Miller aconselhou ao dramaturgo brasileiro Jorge Andrade registar nas suas peças.

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