Coragem para sonhar acordado [XXVII Festival de Teatro de Almada]

Ode Marítima, de Claude Régy, a partir de Álvaro de Campos
Almada, 14 de Julho
Cabaret Hamlet, de Matthias Langhoff, a partir de Shakespeare
Lisboa, 15 de Julho

Na encenação de Claude Régy da Ode Marítima, o actor está na ponta de um cais suspenso perante a plateia, com uma imensa onda de aço inoxidável nas suas costas, que também poderia ser o casco cromado de um navio imaginário. Jean-Quentin Châtelain, encarnando a autêntica personagem que é Álvaro de Campos, expõe-se perante um Tejo de espectadores. O ritmo compassado a que são reproduzidos os dois mil versos deste poema assemelha o actor a um xamã em vias de encantar o mundo e faz o público participar num ritual de transformação do engenheiro naval Álvaro de Campos em pirata de Stevenson, e mulher de pirata, e tudo. Régy trabalha a emissão da voz de modo a que ela ressoe completamente no espectador. É necessário um certo abandono de alma para que a coisa se dê. Mas o encenador e o actor acertam em cheio ao compreender a liberdade que vem da imaginação e do sonho de quem está junto ao cais, em estado de crescente excitação. A coragem de sonhar é um espectáculo por si só. A imobilidade do actor não satisfaz todos os gostos, mas a concepção cénica é absolutamente congruente. O espectáculo é um notável trabalho de exploração das possibilidades teatrais de um poema, que pretende ser fiel à génese do texto, procurando dispensar a ilustração directa ou indirecta das imagens contidas nas palavras.

Ao contrário do cenário monumental mas homogéneo da Ode Marítima, a cenografia de Cabaret Hamlet é composta de uma variedade infinita de elementos sobrepostos e materiais usados, constituindo uma parafernália de palcos onde se apresentam actores, músicos e até um cavalo. A tarefa de montar a peça de Shakespeare na íntegra impressiona. Mas o mais impressionante são as interferências várias na acção, a começar na distribuição inusitada dos papéis [por exemplo, Hamlet é representado por um actor com muito mais do que os trinta anos de idade que a personagem tem na ficção original, fazendo as contas pelas declarações do coveiro na célebre cena do crânio de Yorick], passando pelas inserções de canções, legendadas em painéis electrónicos, e culminando nas referências à história contemporânea feitas com a projecção de imagens de líderes e conflitos do século XX. O cenário e os actores são amontoados de cenário com truques teatrais à vista. O espectáculo busca uma estética da interrupção, com o sarcasmo furioso de Hamlet dando o tom. A peça é apresentada como um argumento sobre a sociedade das nações e as revoluções políticas em geral. A encenação desconfia em absoluto do espectáculo natural do heroísmo. O próprio fantasma do velho rei Hamlet parece o cavaleiro da triste figura – como se fosse Dom Quixote a exigir vingança e não um grande rei medieval. O corolário deste sarcasmo é que a cena final do massacre de Rei, Rainha, Laertes e Hamlet parece apenas uma atracção de feira (ou uma cena de robertos). Talvez seja uma superação da forma da tragédia, mas deixa de fora um certo horror que muito apraz alguns espectadores, ou pelo menos este vosso crítico.

O Festival de Almada é uma mostra de grande diversidade, como as diferenças entre estes dois espectáculos comprovam, mas sobretudo da vitalidade do pensamento feito acção, seja na forma de uma ode dita por um único actor ou de uma tragédia jogada mordazmente por um ensemble. Os actores de ambos as peças entregaram-se de tal maneira à cena, e os encenadores provaram tal coragem nas abordagens, com resultados tão impressionantes, que só nos resta aplaudir.

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