Sejam bem-vindos à cerimónia

Cem Lamentos, de Marta Freitas, encenação de Ana Luena
Porto, 10 de Setembro

Cortinas, portas, câmaras, o voyeurismo doméstico já não se distingue do mediático. O espectáculo da Tenda de Saias é uma fantasia construída a partir de elementos de reality show, inquérito judicial e cerimónia de iniciação que ficciona os espectadores como membros de uma sociedade secreta. Estas formas de espectáculo, das mais populares e presentes no imaginário colectivo, têm regras próprias de performance e narrativa, que aqui são retrabalhadas para montar um teatro dos pecados. Nessa arena de delitos apresentam-se três candidatas e respectivos segredos, ao som de aplausos e gargalhadas gravadas, e com direito a apostas da plateia. Uma mestre de cerimónias, de corpete vermelho e microfone parecendo uma chibata, bem poderia ser a domadora num circo de feras humanas. Porém, a estrutura mais profunda por trás deste aparato é a entrada ou não na Barca da Glória, situação dramática de base (a mais familiar de todas) de que o espectáculo é uma variação, e que serve de alegoria para todas as ansiedades de entrada ou não no mercado de trabalho, no mundo do espectáculo, na vida adulta, etc. O modo de interlocução favorito é o confessionário. No final, a sociedade condena as figuras a seguir a norma se quiserem sobreviver.

Neste espectáculo tudo é ficção, e nós sabemos. Apesar de começarem como parte de um evento que acontece aqui e agora, as actuações não tiram partido da presença do público, nem têm a força de se saber que as personagens são reais, ingrediente indispensável nos reality shows. As actrizes não estão a correr o risco de se exporem, e os espectadores tampouco. O resultado é um fingimento desgarrado da experiência concreta da performance. Por outro lado, como revelação do jogo de arquétipos, fetiches e clichés que constituem a moralidade das seitas, das polícias e das vizinhas (essa moralidade sendo ao fim e ao cabo apenas uma forma desviada do mesmo desejo que supostamente incrimina as candidatas), a cena podia ir mais longe. Actores com cabeças de cavalo ou de porco (e estas eram muito bem feitas) são signos estafados na mise en scène ocidental que ou têm lastro ou seguem à deriva. Se as actrizes não forem monstruosas de que vale pôr-lhes uma máscara?

A teatralização do voyeurismo parece pôr o dedo na ferida da sociedade do espectáculo, mas a protecção das actrizes atrás de uma e outra história de folhetim não sustenta a denúncia. É que não chega a estender-nos o tapete, quanto mais a tirá-lo. Os trunfos do espectáculo são o show de sadismo montado por Rute Pimenta e as histórias de vida das personagens, contadas na primeira pessoa, que nos dão a conhecer a violência das vidas anónimas e em ambos os casos nos fazem entrever a vitalidade das personagens. O texto tenta dar resposta a questões pertinentes sobre o limite da representação dramática ao mesmo tempo que busca a empatia da plateia, e a encenação procurou uma forma de dar corpo a essas questões, mas a teatralidade encontrada não rompeu a passividade que tenta ultrapassar.

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