As voltas do caixeiro-viajante [TEP]

A Morte de um Caixeiro-Viajante, encenação de Gonçalo Amorim
Gaia, 30 de Setembro [Três estrelas e meia – bom a muito bom]

A fasquia deste espectáculo foi posta bem alto. Não só se propõe comemorar as montagens que António Pedro fez d”A Morte de um Caixeiro Viajante – aclamadas pelo público, pela classe e pela crítica nos anos 50 -, como o encenador, Gonçalo Amorim, foi convidado para ser o futuro director do TEP, assumindo a herança histórica (o convite, por enquanto, não foi aceite). Ao crítico coube a ingrata tarefa de avaliar a concretização desta proposta de encenação que pretende partir do passado para fazer coisas novas, a que só por si já reconheceria várias estrelas de avanço.

O público mais avisado facilmente apontará o dedo à realização plástica. Mas isso que importará daqui a outros 50 anos? Não será pela iluminação nem pela sonoplastia que o espectador deve ir ver este espectáculo, certo. Além disso, se há bondade no argumento que diz que a idade e inocência dos actores deve corresponder o mais possível à idade e inocência das personagens, a distribuição de papéis parecia comprometida à partida. Mas, de facto, o melhor deste espectáculo são as interpretações, onde se destacam, pela propriedade e vigor, Cláudio da Silva, Maria João Pinho e Nuno Martins. Os actores entendem muito bem o jogo dramático e a peça evolui no ritmo certo até à morte do protagonista. O outro lado dessa naturalidade é uma certa banalização dos diálogos, que por vezes saem do tom trágico a que a peça, apesar da aparência, pretende chegar. O espectáculo é dinâmico, a história é bem contada, e não se dá pelas três horas.

Arthur Miller considerou dramático que uma família levasse 25 anos a pagar o empréstimo de uma casa. Mal sabia o que nos esperava. Na peça, Willy Lohman, um caixeiro-viajante sucessivamente despromovido até ficar sem emprego, mata-se na esperança de que a família receba o dinheiro do seguro. Que um vendedor, agente do consumismo de massas, tenha de dar a vida para prover o sustento da família, há muito deixou de ser uma metáfora. A peça demonstra que mais valia à “classe média” reconhecer-se como “classe baixa” do que desperdiçar os talentos a correr atrás de promessas de ascensão social. A figura do velho caixeiro-viajante que aos 84 anos continuava a trabalhar – e que servia de inspiração a Lohman – devia ter sido vista como um mau agouro.

A dificuldade em acordar do sonho americano está no centro da peça e da encenação. São fluidas as passagens entre cenas do passado e do presente, cenas dentro e fora do palco, e cenas de ficção e de performance, mas ganhariam efeito-surpresa em ser mais distintas. Por outro lado, os vários momentos em que, recorrendo a dispositivos épicos, se faz da apresentação da peça um espectáculo diferente são poucos para constituir uma forma original. A realização cénica devia ter feito o caixeiro-viajante dar mais voltas no caixão, indo mais longe na explicitação e manipulação dos meios teatrais ao seu dispor. Trata-se de um teatro vivo, cujo significado cultural podia ser mais relevante se atacasse de frente a sociedade do espectáculo que, em última análise, ilude os voluntariosos agentes comerciais, delegados de propaganda médica e relações públicas deste mundo.

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