A casa dos nossos sonhos

 
ODISSEIA: TEATRO DO MUNDO
Saturday Night, encenação de Matthew Lenton
Porto, 18 de Setembro [***]
  
Saturday Night encerra o programa Odisseia, que trouxe ao TNSJ e a outras salas do país espectáculos de muito bom nível, recuperando o espírito dos festivais PoNTI de outrora. Este espectáculo, uma estreia mundial de uma companhia escocesa com parte do elenco de nacionalidade portuguesa, lembra de imediato outras peças de viés naturalista apresentadas no palco do São João: um «Der Name», de Jon Fosse, com encenação de Ostermeier, em 2001, todo passado numa caixa que representava a sala de uma família; e o «European House – prólogo a un Hamlet sin palabras», de Alex Rigola, em que a história de Hamlet se passava numa vivenda de quatro pisos (por sua vez inspirado no «Hamlet Vai à Luta», de 1987, de Ari Kaurismaki). 
 
Naturalistas porque focam os gestos mais pequenos do quotidiano das personagens, tentando por essa via encontrar uma relação directa com a vida da plateia, e esperando que desse retrato emirjam significados, mas também porque se filia na tradição das linguagens do drama televisivo, cheia de simulações de vídeos caseiros; do cinema documental, que filma a realidade; ou da fotografia, o verdadeiro registo do real. Neste espectáculo, a proverbial ‘quarta parede’ da encenação do século XIX existe mesmo, só que é transparente. O cenário é uma casa, ou melhor, o corte de um dos alçados laterais de uma casa, da qual vemos a sala e o quarto-de-banho, no primeiro piso, habitados por um casal recém-chegado. No andar de cima, está a mesma personagem feminina do primeiro piso, mas sozinha, num episódio futuro. A passagem do tempo é mostrada por sinais concretos e objectivos, da ordem da experiência diária: infiltrações e plantas que crescem desgovernadamente. Saturday Night mostra os tempos do dia-a-dia, desde o transporte de todos os móveis para a casa nova até às idas ao quarto-de-banho de cada uma das personagens. Claro que às vezes fazem batota, sim, afinal de contas é teatro. Mas o espírito é o da representação detalhada – e neste caso, algo satírica – das pequenas coisas da vida. Boa parte disto se deve ao facto de ser uma produção internacional, que tem de se valer de coisas comuns a todos os europeus, pelo menos, para comunicar. Apesar de vermos os actores a falar, o espectáculo é mudo. Mas percebe-se tudo: as circunstâncias são evidentes, os gestos nítidos, os pensamentos claros.
 
Algumas situações resvalam para o absurdo, e há pelo menos duas infiltrações de género teatral: a vizinha de cima que tem um desmaio, em tom melodramático, e o vizinho abusador que invade a intimidade do casal, em tom farsesco.
 
O naturalismo não é tudo, porém. O espectáculo tem aparições misteriosas de alguns gorilas, alguns astronautas e alguns inspectores sanitários, cuja narrativa cabe ao espectador completar. A dimensão metafísica destas referências a O Planeta dos Macacos e a 2001 Odisseia no Espaço é mais difícil de apanhar. Uma ou outra canção pop trata de capturar pathos suficiente para comover o espectador. O tema The Suburbs, dos Arcade Fire, empacota a angústia possível e lembra que tudo isto é apenas de uma espécie de teledisco mais longo.
 
Os outros espectáculos de Odisseia: Teatro do Mundo eram caracterizados por uma relação directa com a história política de vários continentes. A escala microscópica de Saturday Night não permite fazer isso com facilidade, é certo, mas as notas surrealistas, embora aparentem, também não substituem um argumento mais elaborado sobre o mundo e a condição humana. É esse o problema do naturalismo, mesmo quando ele é modernaço.
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