Primeiro a dose, depois a divindade

Anjos com Fome, encenação e dramaturgia de Natália Luiza
LISBOA, Teatro Meridional, 18 de Março * * * *

Logo no início deste espectáculo, enquanto o olhar se perde nas telas, nas cordas, nos espelhos, nas árvores e na ribalta de sapatos velhos que nos separa da área de jogo, passa no topo da plataforma um vulto fugaz de mulher que desaparece em segundos, como se nada fosse, mas se imprime instantânea e duradouramente na memória. Não sabemos quem é, de onde vem e ainda menos para onde vai o corpo dessa mulher em fuga; essas seriam as perguntas do drama aristotélico, não desta casa de sonhos, teatro de sensações e figuras, que é Anjos com Fome. A encenadora e dramaturga Natália Luiza e a cenógrafa Marta Carreiras criaram no Teatro Meridional um espaço onde tudo pode acontecer (pontuado pela música de Fernando Mota e pela luz de Miguel Seabra, mais masculinas e determinadas, mas isso é outro assunto). A mulher que corre na noite evoca o que cada um quiser. A sua figura articular-se-á narrativamente com os episódios pessoais que ocorram ao espectador, ora em cena, ora nesse outro palco que é a mente. O que não quer dizer que valha tudo. Este espectáculo é composto de filamentos assim, pequenos flashes, lembranças de gestos, caretas e números de circo colados entre si sem maior relação de causa e efeito, mas com total necessidade de associação, dada a natureza de cada fragmento apresentado, e arranjados de modo a fazer romper a superfície das histórias.

Para tornar aladas estas mulheres com coisas de tronco, coisas de raiz, Natália Luiza e as actrizes Ana Lúcia Palminha, Carla Galvão e Susana Madeira socorreram-se de versos de vários poetas, de fábulas e contos de fadas intemporais e de mitos de deusas gregas. Porém, o imaginário que mais inspirou a materialização cénica desses espíritos parece ter sido (aos olhos deste escriba, pelo menos) o mesmo de boa parte da obra de Paula Rego, na sua mistura de referências populares, episódios traumáticos e corpos em espera que ilustram as tensões entre homem e mulher num regime patriarcal. A continuidade cultural entre estas referências todas e o trabalho do Meridional inscreve esta peça numa espécie de surrealismo vernacular, já não de vanguarda, mas tradicional, popular, espontâneo, que qualquer um pode reconhecer, que floresce no mesmo lugar de outras peças do grupo que fazem a ponte entre as memórias do país e a universalidade da linguagem teatral.

Como medir isto em estrelas? O espectáculo é difícil de classificar. Mas vamos lá. Três estrelas estão logo garantidas pelas actrizes, que se atravessam o tempo todo, carentes da sua dose diária de mundo. Noutros tempos, estas mulheres seriam queimadas na fogueira. É nelas que arde toda a concepção cénica. O único pecado desta produção é que parece pedir autorização para existir. A sua maior virtude é ser imperfeito. Só isso dá direito a mais uma estrela. Uma dose mais de loucura e viraria de vez o lugar do pecado, da virtude e da perfeição nas artes teatrais portuguesas.

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