A reinvenção da pólvora e da roda

Nora, a partir de Ibsen, criação colectiva
Lisboa, 7 de Julho * * * * 1/2
A Véspera do Dia Final, criação colectiva, encenação de Yael Ronen
Lisboa, 11 de Julho * * * 1/2
 

Almada chegou a meio do festival com teatro para todos os gostos. As duas propostas mais sóbrias, tão sóbrias que Dionísios parecia ter cedido o lugar a Apolo, foram, primeiro, Fantasia Fausto, a partir de Goethe, um recital de piano e declamação feito por um dos marabus do teatro ocidental, Peter Stein, com inquestionável maestria, erudição e germanidade; e, segundo, Para Louis de Funés, um monólogo de homenagem ao famoso actor francês e de instrução aos demais actores de todo o mundo, da autoria de Valère Novarina, cuja prosa refulge, mas em que o actor não fazia o que se pregava.

Nora, a versão que os Stan fizeram da Casa de Boneca, deixou mais claro, para os interessados, entre os quais o crítico, quais as verdadeiras razões de cada uma das personagens da pérola naturalista de Ibsen (em especial, os motivos de Krogstad, o chantagista, que noutras mãos passaria por ser apenas mais um tosco vilão de melodrama barato ou de peça-bem-feita, e de Kristine, a pragmática operária a quem afinal acontece essa coisa maravilhosa que Nora tanto ambicionara). Tudo se passa em frente às visitas, como se as personagens competissem pela atenção e aprovação de uma terceira personagem, nós, os espectadores. De uma assentada, fica feita a síntese entre os preceitos de Brecht e os de Stanislavski, e revelada a arte intemporal de Ibsen. Fica também claro o fundo materialista e individualista da aspiração de Nora, que é uma liberal nas duas acepções do termo. É bem visível a transformação emocional das personagens, feita pelos actores, ao longo da acção da peça, lembrando-nos que pode haver teatro com evolução do estado do actor, isto é, que a roda já foi inventada.

A Véspera do Dia Final, uma criação original de Yael Ronen com a sua trupe de actores alemães, israelistas e palestinianos, entre outros, é uma continuação de Third Generation, apresentada o ano passado em Portugal, um espectáculo sobre a inimputabilidade dos descendentes de quem fez o holocausto e a ocupação da Palestina. O presente projecto quer perceber como a identidade religiosa e étnica legitima as disputas territoriais. A primeira parte é uma tentativa de conferência sobre a possibilidade de uma terceira guerra mundial, dada por um professor judeu, enquanto um assistente se atrapalha com os cabos eléctricos como num sketch de Karl Valentin. Yael faz depois um uso brilhante das possibilidades técnicas, em especial da facilidade de edição e operação das legendas, com as personagens a ganharem consciência pirandelliana da sua condição fictícia, dada a predeterminação das falas em português projectadas na tela. De modo semelhante, o uso de minúsculas câmaras de vídeo permite a teatralização da vida electrónica dos fanáticos religiosos. A obra dá conta das contradições e segundas intenções dos discursos mais ortodoxos, jamais deixando que se imponha uma verdade. Essa imparcialidade não agradará a todos, em especial aos que acreditam que há que tomar partido, ou até fazer justiça. O espectáculo chega mais perto disto quando aponta as baterias contra a exploração laboral que sustenta o poderio económico das nações ao longo da história, mas pára antes de deixar claro como as questões de identidade servem ou não para ocultar a luta de classes. (Sim, a luta de classes.) O sentido de humor leva a melhor, o que é bem-vindo. Mas faltou dizer que quando as diferenças de classe se combinam com as diferenças culturais é que as bombas rebentam, uma ideia nem sequer é a invenção da pólvora.

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