Festival com eleições em fundo (Temporada Alta 2012)

Uma festa imperdível

A Catalunha também tem festival de outono; ou melhor, de tardor. O Temporada Alta, na 21ª edição, é um dos mais completos festivais europeus, com muito teatro, e ainda música, dança e circo para todos os gostos. Este ano, apesar do corte de um terço do orçamento, manteve a fasquia no alto, com setenta espectáculos desde 4 Outubro a 9 de Dezembro.

A festa é o regalo de Girona e de Salt, cidades encostadas uma à outra, e de Barcelona, a 100 km. Desde 2000 que o festival tem uma taxa de ocupação de salas de 90%. Salas cheias e o aplauso generalizado da crítica comprovam o êxito. Durante dois meses, o espectador pode fazer as mais variadas combinações, que acabará sempre com vários espectáculos de topo, como a encenação de Declan Donnelan, para uma companhia russa, de As Três Irmãs, de Tchekhov; mais um Shakespeare, Noite de Reis, da companhia britânica Proppeler; a dramaturgia catalã de Jordi Casanovas, com Pàtria; o último de La Zaranda, El Régimen del Pienso; ou ainda Jan Fabre, Neil Hannon, e o português Paulo Lameiro, com a sua música para bebés.

O Festival de Tardor de Catalunya, como é designado desde 2006, é uma festa das artes, mas também uma operação diplomática em nome da cultura. Em pleno período eleitoral, com a independência da Catalunha no centro do debate, o festival apresentou 11 propostas ao público em geral e a mais de 60 programadores de França, Itália, Austria, Alemanha e, claro, Espanha. Como reagem os criadores a este contexto? Para Joaquim Armengol, crítico do Punt/Avui, a peça Pàtria, por exemplo, que “pretendia ser uma crítica aos políticos e à sua demagogia, não se atreveu a explicar a realidade.” A realidade? “Que os partidos, em especial o partido que vai ganhar as eleições, são corruptos; esta ficção não chega ao fundo das questões”, conclui.

A última peça de Angélica Liddell, que recebeu este ano o Prémio Nacional de Arte Dramática de Espanha, abriu o fim-de-semana prolongado. Em estreia mundial, Ping Pang Qiu debruça-se sobre as réplicas da Revolução Cultural maoista do final dos anos 60 na China de hoje, onde a liberdade de expressão é reprimida. Dedicado à “beleza da cultura milenar chinesa”, o espectáculo tem ainda outro epicentro: a ausência de uma instrumentista chinesa que faria prova dessa tradição, e o relato dos motivos da sua ausência, que testemunham a censura violentíssima exercida sobre todos os chineses. “Não posso dizer mal do meu país”, argumentou a instrumentista, agora radicada em Espanha, mas que na época, adolescente, viu o seu professor de música ser torturado em público. «Vocês dizem mal de Espanha?» O público da estreia, composto também por admiradores, que conhecem bem o percurso da artista, segundo a própria Liddell, aplaudiu de pé esta viagem à China que há dentro dela. Para Armengol, Liddell, apesar de falar da China, “está a falar da política catalã, das suas misérias e do seu cinismo, que como demonstrou, são universais”. Questionada sobre como via actualmente a democracia em Espanha, Angélica Liddel respondeu: “sofro mais para decidir se voto ou não voto, do que para decidir em quem votaria”, afirmou.

Play, do bailarino e coreógrafo de origem marroquina Sidi Larbi Cherkaoui com a actriz e bailariana indiana Shantalla Shivalingappa, da companhia de Pina Bausch, também se inspira nas tradições não europeias, nomeadamente no testemunho do francês Matthieu Ricard, tornado monge budista e tradutor do Dalai Lama, revelaram em declarações ao Público. O espectáculo trata da felicidade que se encontra na prática do jogo e da representação, sentidos contidos no próprio título do espectáculo. Com quatro músicos em cena, os dois bailarinos apresentam uma série de jogos coreográficos que vão acumulando esperança e contentamento até alcançar a plenitude emocional.

Estas eram as duas propostas mais fortes para mostrar aos programadores dos teatros europeus. A tónica destes dias foi posta em produções que não dependem tanto da língua. Os outros dois destaques foram Big Berberecho, uma farsa, falada numa língua inventada, sobre dois pescadores que encontram um berbigão gigante, de e com Jordi Oriol e Oriol Vila, muito bons actores, e capazes de compor um enredo cómico; e Mazùt (na foto), uma extraordinária composição de novo circo, inspirada no movimento dos cavalos, sobre a liberdade animal do espírito e do corpo humanos, de e com Blaï Mateu Trias e Camille Decourtye, herdeiros da tradição circense da região, juntos na companhia franco-catalã Baród’ Evel Cirk.

 

Sobreviver aos cortes

O propósito deste encontro de programadores é “incentivar as trocas e as co-produções” , revelou Salvador Sunyer, fundador e director do Festival. Essa será a estratégia para sobreviver aos cortes, mais violentos nuns países que noutros, que já se fizeram ou que se anunciam. “Algumas obras são co-produzidas por mais 20 entidades diferentes, o que permite que a contribuição de cada uma seja relativamente baixa, e que ao mesmo tempo sem crie uma carreira de digressão para os espectáculos.” Durante o encontro de programadores, o Festival de Avignon apresentou aos parceiros o novo espectáculo de Vincent Macaigne. O Festival de Viena, o maior festival europeu, com 14 milhões de euros de orçamento, a nova produção de Angélica Liddell, que fechará com uma obra dedicada à Síndrome de Wendy a sua trilogia da China. O próximo espectáculo de Sidi Larbi Cherkaoui também estreará em Viena.

O Temporada Alta começou em 1992, “com quatro espectáculos e um milhão de pesetas” (seis mil euros) de apoio público, recorda Sunyer. O ano passado teve quase cem espectáculos. Este crescimento deveu-se a um programa europeu com a cidade de Perpignan, no âmbito do qual foram ainda construídos dois teatros, um de cada lado da fronteira. Em Salt foi criado o novíssimo El Canal – Centre d’Arts Escèniques Salt / Girona, numa antiga fábrica têxtil, de que Sunyer se lembra bem, porque era onde trabalhava a sua avó. Mas o festival decorre em treze espaços, desde o Teatro Municipal, com a decoração a vermelho e dourado e o palco à italiana das salas do séc. XIX, passando por naves de fábricas e igrejas convertidas em auditórios, até ao L’animal a L’esquena, um estúdio de dança em pleno campo, numa antiga quinta, entre lagares em ruínas e adegas com pipas abandonadas – onde foi criado, em parte, Mazut. E claro, à noite, na parte histórica de Girona, entre arcos e colunas de pedra, no topo das escadarias que trepam o call jueo, antigo bairro judeu, são recebidos nos restaurantes de charme os espectadores e os criadores, para provar as iguarias da afamada gastronomia espanhola, catalã, basca, etc. A própria autarquia promove um programa turístico especial, a Escapada Escénica, com descontos na estadia e nas entradas nos espectáculos.

Em dia de eleições, apresentou-se ainda Nueva Marinaleda, uma peça passada no ano 2112, depois de ter triunfado a revolução do 15 de Março. Na ressaca dos resultados, segunda-feira, terá lugar a segunda meia-final do II Torneio de Dramaturgia Catalã, uma competição por eliminatórias que põe em confronto oito escritores, como se fosse uma prova desportiva. Apesar de ser uma plataforma internacional e transfronteiriça, ou talvez por isso mesmo, o Temporada Alta está bem enraizado na realidade local.

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