Reviver o passado em Santa Apolónia

Casas Pardas, de Maria Velho da Costa, encenação de Nuno Carinhas
Porto, 9 de Dezembro * * * 1/2

Casas Pardas contém uma promessa de futuro – na ficção, mas também no desempenho dos actores e na liberdade da encenação Ler no Público

O que interessa ao público, e o que interessa ao crítico, neste Casas Pardas do Teatro Nacional São João? Começando pela primeira imagem, interessa o transporte para uma certa classe e uma certa época que a arquitectura do cenário faz, seguido da possibilidade de jogo teatral que a sobreposição de soalho, relvado e terra promete. Aqui poderíamos reviver o passado e anunciar o futuro, diria. Saltando para a última imagem, interessa, e muito, a anunciação profana, invertida, da cena final, em que Elvira (Catarina Lacerda) – tudo menos virgem – derrama pela plateia a descoberta do prazer e o prazer da descoberta, com António (Paulo Moura Lopes).

Estes são dois exemplos de como o espectáculo Casas Pardas atravessa o fosso entre espectador e espectáculo para se materializar num lugar imaginário que é o da cultura do público dessa noite, feito de memórias de vidas passadas e agora daquilo que lhe está a acontecer mesmo ali à nossa frente. A transformação desses e de outros filamentos desta peça em acontecimentos extraordinários, comuns a criadores e a espectadores, garante a teatralidade – e o interesse – deste espectáculo.

Casas Pardas tem diálogos, narração e ainda uma hábil mistura dos dois, trazendo para a cena um português saboroso que só o teatro (nem a TV nem o cinema) se atreve a pronunciar. O poder da prosa nas cenas, porém, varia muito. Sempre que os actores se apossam das palavras da romancista Maria Velho da Costa, adaptadas por Luísa Costa Gomes, e transitam entre a voz das personagens, a voz da personagem narradora e a voz da autora, com fluidez, mas distinguindo-as, o espectáculo levanta voo. Ao contrário, quando misturam os diferentes registos sem os perceber e proferem as sentenças sem as dar a entender, nem ao público, nem às personagens, nem a si mesmos, a obra cai no chão com o peso literário. O mesmo se pode dizer dos corpos, que falam tanto ou mais que os vocábulos: quando se agarram ao texto, realizam-no; quando se ausentam, desguarnecem-no. Dar aos braços e saltitar não significa nada.

O espírito da obra parece ser o de denúncia da decadência da burguesia portuguesa do fim dos anos sessenta, como táctica de sobrevivência da autora. Essa denúncia é formulada nos termos da própria burguesia, tendo como referência uma certa nobreza de valores. As criadas não escapam à denúncia. É a armadilha de caça – ainda que dourada – em que está presa a elite nacional. Quem se salva? A meio da peça, sobressai a imagem do desmemoriado pai de Elvira (Jorge Mota), chegado nesses dias à estação de Santa Apolónia, e agora acordando sobressaltado a meio da noite, sem saber onde se encontra. O homem repete para a filha: “Quem és tu?”. Aqui há uma promessa de futuro. A inocência de ambos contrasta com a hipocrisia que a autora denuncia, e da qual nem a própria se safa. Nessa impossibilidade de reviver o passado está a esperança desta encenação – na ficção, mas também no desempenho dos actores e na liberdade da encenação.

metacrítica

Este espectáculo pode ser avaliado por comparação com o romance original, ou com o que o encenador se propôs fazer (tal como enunciado no programa e na imprensa), mas não pode ser comparado com outra versão, que não existe, nem com o que poderia ser, que isso é inimaginável. Ou nem tanto. Talvez seja possível, a partir do romance e dos materiais disponíveis sobre ele e/ou sobre a época (por exemplo, até, os do como sempre excelente Manual de Leitura do TNSJ), imaginar um outro espectáculo e criticar este em função desse. Ou ainda, a espaços, comparar uma cena em particular com outra cena de outra peça, que se recorde subitamente; ou a interpretação de uma acção (por exemplo, defender um genro) com outra similar, vista noutro espectáculo; ou ainda um actor com outro, deste mesmo elenco. «Quem és tu?», a pergunta do pai de Elvira, cria uma ligação com a versão de Frei Luís de Sousa, que também era sobre os anos sessenta, montada por José Wallenstein neste mesmo palco. A mudança constante entre os tempos presente e passados e a permanência traz à memória a encenação de The Sound and The Fury, de Faulkner, pelo Elevator Repair Service, apresentada na Culturgest. E o terramoto, com a mesa de jantar cheia de copos imóveis, evoca o a mesa cheia de cálices coloridos de Discurso, do chileno Guillermo Calderón, vista na Gulbenkian. O crítico tem que ter olhos para ver o que não se vê.

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