Renascidos nos Estados Unidos

Ao lançar imigrantes desenraizados nos seus lugares de origem, os aparelhos de Estado condenaram-nos a uma morte, se não física, pelo menos social. Ressuscitar, como parecem fazer neste espectáculo, é teatral de sobra.

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I Don’t Belong Here
de Dinarte Branco e Nuno Costa Santos
TeCA, 21 de Janeiro, 21h

A cumplicidade gerada por este espectáculo de teatro, primeiro entre as pessoas que o fazem e depois entre essas pessoas e a plateia, é meio caminho andado para que I Don’t Belong Here seja uma peça memorável.

Em cena estão uma mão cheia de naturais dos Açores, emigrados na infância para os EUA e o Canadá e deportados na idade adulta para o arquipélago que não os viu crescer. É um espectáculo na forma de documentário, cujos sujeitos são os próprios performers, falando das suas experiências na primeira pessoa. Com eles estão dois actores profissionais e, nos bastidores, entre outros, Dinarte Branco, como encenador, e Nuno Costa Santos, escritor.

Julgados e condenados pelas justiças dos EUA e do Canadá, mesmo depois de terem pago a dívida à sociedade, viram ser-lhes cobradas penas de tal monta que para as saldarem tiveram de sair dessas pátrias que outrora os acolheram para o exílio. Se a expressão “exilado no próprio país” tem sentido irónico, é nestes casos.

As histórias que estes homens e mulheres contam são da queda para dentro do pesadelo americano, não do sonho. Ao relatarem o que lhes sucedeu, conseguem revelar o carácter absurdo das decisões legais e, como se a plateia fosse composta por jurados de um filme de Hollywood, conseguir a nossa simpatia. O que tentam recuperar é, em primeiro lugar, a dignidade que lhes foi retirada pela pena do exílio. Ao lançar imigrantes desenraizados nos seus lugares de origem, os aparelhos de Estado condenaram-nos a uma morte, se não física, pelo menos social. Ressuscitar, como parecem fazer neste espectáculo, é teatral de sobra.

Ao dar voz a estas histórias, fazendo com que ressoem pelos teatros onde se apresentam, Dinarte Branco obriga a reflectir também sobre o que é considerado açoriano, ou português, ou ambos. A familiaridade com o inglês em que o espectáculo é falado e com o imaginário de cada relato (clube de boxe, prisão feminina, tribunal, baile de finalistas, entre outras) contrasta com a estranheza da pronúncia açoriana e do dia-a-dia actual destes e/imigrantes. Qualquer um podia estar naqueles lugares, de facto. Onde nunca se consegue estar completamente é no país ou terra de origem.

A dada altura, uma cena fictícia criada para recriar a situação de chegada dos deportados a Portugal, com o retrato exagerado do forasteiro como uma fera infantil, expõe os limites do que gostaríamos de chamar lar, doce lar. E a peça encerra com uma nota trágica sobre os destinos dos migrantes. A mesma América que os recebeu de braços abertos nunca os abraçou completamente, em parte porque o primeiro abraço que podiam ter recebido, dos pais e do país, nunca se deu.

A estranheza com que tudo aparece faz o caminho da teatralidade, e é no reconhecimento dessa solidão em comum que o espectáculo se completa.

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