Cambio, Escuto

Já passou um mês mas só agora chegou às mãos o volume que reúne textos sobre o Escenas do Cambio, o Festival de Inverno de Teatro, Danza e Arte en Acción de Santiago de Compostela, entre os quais há uma reflexão minha a propósito de alguns dos espectáculos que foram apresentados em 2015. Sobre a edição de 2016 escreveu a Inês Nadais aqui e aqui. O meu texto, de seguida:

 

CAMBIO, ESCUTO

Uma lista

No primeiro dia, houve aplausos de pé a Vontade de ter vontade, de Cláudia Dias, e a Atlas (Santiago de Compostela), de Ana Borralho e João Galante. A dose dupla de teatro-dança-performance portuguesa abriu o Escenas do Cambio e a recepção foi o mais calorosa possível. Gelo e neve no exterior da Cidade da Cultura, mas as caldeiras funcionavam bem. Sala ao rubro. No segundo dia foi a vez de uma peça galega, o mais simples possível, com uma atriz sozinha em palco a falar diretamente para a plateia e a levar um ou outro espectador para dentro de cena – era o Teatro invisible, do Matarile Teatro. Uma outra, catalã, sem atores, ou sem público, como se queira, em que os participantes votavam as respostas a perguntas as mais variadas projetadas num ecrã – era Pendiente de voto, de Roger Bernat. São obras teatrais, sim, mas sobretudo experiências teatrais, umas mais participativas que outras, que obrigam o espectador a pôr-se no papel dos artistas — ou até de cidadãos. No terceiro dia, Os contos de Joselín, em língua galega, de e com Quico Cadaval, Celso F. Sanmartín e José Luis Gutiérrez “Guti”; e De repente fica tudo preto de gente, de Marcelo Evelin, mudo, dir-se-ia, já que o discurso verbal do espectáculo fica por conta da mente de quem o vê. No quarto, Una Introducción, de Olga de Soto, memória e ação da dança.

Na semana seguinte, entre outros trabalhos, apresentou-se Acceso, primeira encenação de Pablo Larraín, chileno, uma rajada de perguntas contra o público, feitas por Sandokan, vendedor ambulante, vítima de abusos, criado em instituições de apoio; e ainda a versão original, argentina, de Mis documentos, concepção de Lola Arias, série de performances em forma de conferência, sobre memórias e experiências pessoais, acompanhada da versão local, dadas por criadores galegos. O festival encerrou na terceira semana, com La edad de oro, de Israel Galván, e By heart, de Tiago Rodrigues. O Escenas do Cambio mostrou vários espectáculos no cruzamento entre teatro, dança e performance, construídos a partir de documentos e de biografias reais, e ao mesmo tempo em busca da proximidade e participação dos espectadores, numa amostra representativa das tendências atuais das artes do espectáculo.

 

Encruzados

As várias formas de teatro, dança e performance, para usarmos três categorias abstractas relativamente consensuais, têm-se misturado ao ponto de não fazer mais sentido, aparentemente, distingui-las. As características de cada um desses géneros, ou sub-géneros, ou sub-sub-géneros, passam de uns espectáculos para os outros, combinando-se em cada peça de maneira própria e original. Estas misturas tornam praticamente irrelevante a discussão sobre a origem genética das obras. Quem quer saber se a criança é mais parecida com o pai, com a mãe ou com o eventual amante, a não ser pelo puro prazer de fazer conversa? Estas cenas híbridas, mestiças ou fronteiriças, sempre novas, que são cada vez mais frequentes e fáceis de encontrar na programação dos teatros e festivais, tornaram obsoletas algumas das formas mais convencionais, rígidas e estanques das artes do espectáculo. Obsoletas é forte demais, claro: aquilo que hoje parece obsoleto, regressa amanhã na forma de clássico.

Esta mistura que se vê nos palcos será será boa? Não fará mal? É ainda teatro ou quê? A ambivalência em relação à cena é recorrente ao longo dos tempos e tende a agravar-se em tempos de crise, quando, no palco, a repetição de comportamentos, que nos permite ver o outro como se fôssemos nós mesmos, se torna mais crítica ou política. Essa imitação de acções em cena, chamada arte quando é lúdica, ficcional, satírica, e ritual quando é séria, política, institucional, etc., também se cruza facilmente, tal como os géneros teatro, dança, performance de que é composta, dando origem a formas de arte sérias e a rituais lúdicos, ou a uma arte ritual lúdica e séria ao mesmo tempo, ou… por aí adiante. As combinações são infindáveis, e essa potência é que é ameaçadora para os conservadores de todas as áreas. Teatro, dança, performance, ritual, ficção, política, sátira, instituição, ócio e negócio, tudo parece cruzado neste começo de século, e as próprias distinções de que vos falo, como dizia, praticamente obsoletas. Mas será tudo tão obsoleto assim?

A mudança de uma cena estática para cenas mais fluidas, apesar de parecer de vanguarda, tem três características que a aproximam das formas ditas populares e tradicionais e pelo menos uma que me parece intemporal. [NOTA: Formas populares como o teatro amador, tanto o satírico como o religioso; a dança espontânea ou vernácula em bailes, discotecas, grupos de folclore; as performances quotidianas ou de celebração, dos rituais de passagem, das festas, dos protestos, etc. Deixo de fora rádio, cinema, TV e media digital, apenas para sublinhar o parentesco com o carácter imediato e presencial desta artes populares.] Essas cenas de mudança são mais pessoais, mais participativas, mais diversas, e correspondem a uma reflexão sobre a própria necessidade de expressão.

 

Eu, tu, eles

Talvez esta hipótese sirva apenas para entreter, mas façamos o teste, mesmo assim. Da programação do Escenas de Cambio, tentemos isolar Atlas (Santiago de Compostela), Pendiente de voto, By heart, De repente tudo fica preto de gente, Vontade de ter vontade e mais alguma experiência das que foram apresentadas, e ver se dessas semelhanças emerge algum padrão que seja interessante reconhecer.

Pessoais — Se alinharmos Vontade de ter vontade, Teatro invisible e By heart, é imediatamente reconhecível algo em comum: são partilhas de experiências pessoais, da reflexão pessoal sobre essas experiências, partilhadas de modo pessoalíssimo. Os três artistas expõem os seus corpos e pensamentos de um modo íntimo, com grande risco de serem rejeitados, e falhar no objectivo de envolver os outros, risco que paradoxalmente gera empatia imediata. A linguagem verbal e gestual geram a intimidade, o risco gera certa empatia, mas outros dois aspectos, especificamente artísticos, geram a comunidade, isto é, o espaço e tempo em comum. São eles a cena, apresentada de forma simples, quase crua, minimal, e a narrativa, na primeira pessoa, dirigida aos presentes, de algo que é próprio e contigente ao ator, mas podia ter acontecido a qualquer um, com os aspectos líricos enquadrado pela experiência concreta e pelo relato factual. A cena e a narrativa ordenam a experiência para que todos participem.

Participativas — Atlas, Pendiente de voto e By heart são os exemplos óbvios de espectáculos participativos. Estas obras existem apenas na mente dos criadores até ao momento em que começam a ser apresentadas e se constituem como experiência de ambos. Claro, Atlas tem ensaios e todo um trabalho de preparação dos participantes prévio à apresentação, mas na verdade realiza-se quando é feito perante uma plateia de iguais, entre pares, digamos assim. By heart desloca o lugar do espectador da plateia para o palco e Pendiente de voto torna esses lugares ativos, em vez de passivos. De todos, porém, aquele em que me parece que a participação se torna a própria matéria do espectáculo é o de Marcelo Evelin. Apesar da arena, da luz, do som, do movimento, da tinta no corpo dos atores [NOTA: Deveria chamar-lhes bailarinos? Performers? Ator passa a ideia de ação, que me parece mais relevante.], é ao incorporar e refletir sobre a reação ao movimento e à tinta que a peça se concretiza, tanto como expressão dos seus criadores quanto como fruição dos seus espectadores. Não consigo pensar em peça contemporânea que se revele mais útil e significativa nos tempos que correm, com crise de refugiados, fecho de fronteiras, segregação e execuções nas periferias, tudo com o conluio do frequentador de festivais de outono nas capitais europeias.

Diversas — Com a palavra diversa quero dizer que estas cenas são muito diferentes entre si, ou seja, originais e inéditas. Escolho a ideia de diversidade em vez de singularidade porque, enfim, a primeira inclui a segunda, e sublinha a relação dos trabalhos uns com os outros. A diversidade é interna, também, claro, mas esse aspecto já está sublinhado, e não quero carregar mais na tecla formalista. É difícil distinguir o que é dança do que é teatro do que é performance, como já aleguei, porque essa diversidade interna está genericamente muito bem articulada. As obras têm grande unidade, que em geral decorre da escolha e exploração de um dispositivo singular, capaz de resolver a variedade de meios. Essa singularidade gera uma dramaturgia própria, nada convencional. Ou melhor, a experiência, a cenografia, a música e a luz, o registo oral, a coreografia, etc, de cada uma, geram a convenção de cada espectáculo, que o espectador aprende ou reconhece em cada obra. Claro, podemos encontrar semelhanças com outros espectáculos, mas cada um destes objectos parece ser inclassificável, ou ter uma classe muito própria. Quando forma e conteúdo casam bem, realmente tornam-se um só, difícil de comparar com outros. O conjunto destas singularidades irredutíveis distingue estes trabalhos da produção em massa de outros contextos, e dá alguma esperança que não se tornem massivos antes de tempo.

São esses traços em comum (e outros, claro, que não excluo) que permitem que espectáculos tão díspares quanto os apresentados no Escenas do Cambio, com caracteres tão diferentes entre si, e vindos das mais diversas proveniências, seja da dança ou do campo da performance, seja do ritual ou da tradição, se articulem a cada vez num objecto novo, concreto, específico, particular. Tão particular que a generalização que faço do procedimento de mistura não faz jus à verdadeira originalidade de cada peça. Porém, a generalização é útil para apreciar o movimento geral das obras e respectivos criadores e a capacidade de mudança que este festival, chamado do Cambio, tem no panorama das artes cénicas do noroeste peninsular. Que interesse tem esta visão panorâmica? Entre outras coisas, o reconhecimento das artes da cena como um todo que nos permite viver melhor, em vez de apenas sobreviver. E, espero, viver com melhor conhecimento de causa.

 

Mundo

Pode-se explicar tudo, ou pelo menos o mundo, a partir de uma coisa? O todo a partir de uma das partes, ou pelo menos de algumas das partes que fazem o todo? No caso, as peças de teatro explicam ou ajudam a explicar algumas das coisas que nos intrigam? A que mundo corresponderá uma arte dos palcos mais pessoal, mais participativa e mais diversa? Por um lado, parece claro que corresponde a um mundo em que é mais fácil registar e reproduzir em cena imagens e sons os mais variados, nomeadamente documentos e testemunhos. É também, ao fim de um século de fotografias, gravações, filmes e vídeos caseiros, mais comum que existam no mundo esses registos, alimentando a memória e genealogia dos artistas, bem como modos de manusear e classificar esses materiais. Que muitos artistas criam em equipas muito pequenas, para não dizer completamente sozinhos, e precisam do público para que o espectáculo tenha alguma magnitude, é, por outro lado, um dos aspectos recorrentes de alguns espectáculos, sejam eles mais ou menos biográficos. E quando se lida com pessoas comuns, tem de se lidar com as suas biografias, que vêm inevitavelmente à tona. Colagens e alusões, diretas ou indirectas, são inevitáveis, porque possíveis. Finalmente, a inscrição numa corrente genealógica e histórica, tecnologicamente facilitada, talvez seja do interesse das classes sociais que participam em festivais, dos artistas aos espectadores: adultos com esperança na mobilidade social e numa sociedade mais justa, tentando definir os modos de participação e ação coletiva, em que a emancipação pessoal e a emancipação coletiva se articulem da melhor maneira possível. Foi a promessa feita nos anos setenta e oitenta aos portugueses e espanhóis que então nasceram: liberdade. Num mundo em que aquilo que se mostra e conta é facilmente embalado num pacote colorido e luzidio, e posto numa prateleira de supermercado ou folheto na caixa do correio, reduzindo o valor de qualquer expressão, individual ou coletiva, ao preço (e ao desconto de ocasião), cruzar as formas, ser pessoal, transmissível, diverso e singular, é a melhor maneira de saltar barreiras e chegar aos outros, para sermos mais os que somos nós.

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