Antes só que mal acompanhado

Viajantes Solitários

Chega amanhã a Lisboa, ao D. Maria II, a dupla de atores camionistas Estêvão Antunes e Simon Frankel, a bordo do espectáculo “Viajantes Solitários”, estreado o ano passado em Viseu. No Porto, o espectáculo pôde ser visto uns tempos antes de “Espólios”. Este último espectáculo, recorde-se, tinha uma ligação mais estreita a “Esta é a minha cidade” (2012) e a “Até comprava o teu amor” (2014). Todas estas peças remetem para negócios propriamente ditos, ou para a compra e venda de mercadorias. Ironicamente, “Esta é a minha cidade” já não poderia ser feito da mesma maneira, porque a compra e venda de propriedades imobiliárias no Porto, à volta do Mosteiro de São Bento da Vitória, não o permitiria. E “Até comprava o teu amor” muito menos, visto que o Palacete Pinto Leite está nas mãos de milionários, salvo erro plutocratas de Angola.

Os negócios e os amores estão sempre associados, ainda que, a maior parte das vezes, em oposição. Um exemplo dos clássicos: “Medida por Medida”, de Shakespeare. Mas o que o Teatro do Vestido faz é mais de acordo com o princípio da dádiva que outra coisa. As suas práticas encantam os objectos, as casas, as ruas, ao explicitar as relações humanas que dão significado às coisas. Não é pouco, num mundo soterrado de mercadorias brilhantes e luzidias como é o nosso. E, claro, por isso é tão importante ver e ouvir as narrativas da intimidade que as pessoas têm com as coisas que as fazem recordar outras pessoas, outros lugares e outras épocas.

Voltando aos “Viajantes Solitários” (e usando “Espólios” para pensar neles): se as casas, e as coleções de objectos que habitam as casas, contam a história das pessoas, dá vontade de perguntar que histórias se podem contar acerca das pessoas que levam e trazem esses objectos. “Viajantes” mostra esse objecto total que é o camião, colado à estrada, como equivalente às casas e ruas de outras peças do Vestido.

A noção de que esses homens, como se fossem os últimos dos aventureiros, estão na linha da frente de um combate imaginário contra a transformação das pessoas em coisas, quem a tem? Talvez, ao ter ideia disso, possamos ter uma medida do desperdício das suas vidas. É precisamente por fazerem parte, eles próprios, do grupo de trabalhadores mais explorado que há, o grupo daqueles que carregam coisas mais valiosas que eles, que a sujeição total aos negócios deve ser recusada de modo absoluto. As histórias de amor e ócio destes viajantes dão-lhes a dignidade que a exploração do trabalho lhes tenta tirar.

Anúncios

Os comentários estão fechados.

Create a free website or blog at WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: