Perdidos e achados na serra de Sintra

Modos de Ver: Sintra
Criação de Pedro Alves, Bruno Béu, Maria Carneiro, Catarina Lobo, Inês Oliveira, Tiago Patrício, Ricardo Reis e Pedro Silva
Música e design de som de Bruno Béu
Sintra, 16 de Julho de 2016

O mapa dado aos participantes neste percurso pelas ruas e ladeiras de Sintra — três horas, com auscultadores na cabeça, seguindo as instruções de uma voz que sai do MP3, o fluxo de pensamento do narrador que nos acompanha e as várias histórias que são contadas por ele — não tem cartografadas as lembranças, sensações e sentimentos despertados pela paisagem sonora que o Teatromosca sobrepõe ao terreno.

Pelo contrário, apesar da atenção e cuidado com os visitantes (aliás comprovadas pelo pão e vinho servidos no fim do percurso), o propósito não é controlar a imaginação de ninguém, mas sim deixá-la à solta, o mais possível. As gravações são todas diferentes umas das outras. Cada um sabe à partida que a sua experiência vai ser única. Começa aí a imaginação do que existirá não apenas nos outros MP3, mas também do que andará pela cabeça dos outros.

Modos de Ver: Sintra, anunciado como um “audiowalk pelos caminhos secretos da capital do romantismo” em que se espera que cada pessoa “percorra os lugares e os não-lugares mais emblemáticos de Sintra” é, em resultado disto, tanto um passeio turístico como uma viagem pela memória e pelos sonhos de cada um. No final, olhando para o mesmo mapa do início, já lá se vêem outras coisas, outros nomes de ruas, outros trajectos, mais aventuras.

Não que o texto ouvido nos auscultadores ou o cenário por onde somos levados, composto pelas casas, calçadas, miradouros e matos, seja rarefeito demais. Não, não é. É antes disposto na medida certa para deixar cada um sonhar acordado. Nem é efémero, visto que está tudo gravado dentro um leitor digital, qual lâmpada de Aladino. Aliás, se a forma deste trabalho é a da experiência de quem participa — a experiência de andar, ver e ouvir — essa forma parte, porém, de uma obra composta com rigor e arte. O que estes criadores fizeram foi apostar na capacidade de cada um fazer a sua invenção do real, a partir de uma coisa concreta. O encontro dá-se a meio caminho.

Só um conhecimento antigo dos recantos da vila e da serra, e uma curiosidade juvenil por caminhos desconhecidos, permitiria a invenção de uma proposta tão rica, apresentada com tanta generosidade. Mas essa experiência pessoal foi cruzada com um dos métodos de trabalho que este grupo teatral tem seguido, o de pôr em cena a narratividade própria de romances, contos e histórias, cruzando essa propriedade com os aspectos não-verbais, físicos e sensoriais da actuação teatral. Neste caso, a actuação é também dos “espectadores-caminhantes” e no fim do espectáculo esse grupo de caminhantes já é uma pequena comunidade. Talvez seja essa a propriedade teatral mais preciosa: é feita em bando. Faz-se este percurso como quem anda por um livro interior, mas a leitura é, afinal, feita em conjunto. Ao fechar o livro, o mundo à volta parece que mudou. Agora é visto com outros olhos.

Anúncios

Os comentários estão fechados.

Site no WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: