Arte Revolucionária Amada

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Fui ver Esta é a minha cidade, do Teatro do Vestido, no último dia, um sábado em que a avenida da Liberdade e as ruas em redor dela onde o espectáculo decorre estavam à pinha de turistas e não-turistas, carros de som e carros com o som aos berros, DJs nas praças e despedidas de solteiro em cada esquina. O melhor (bom, talvez não exactamente o melhor, mas pelo menos uma das melhores coisas) do espectáculo é a tensão permanente com este mundo ruidoso de sábado à noite na avenida: às vezes não se consegue ouvir bem o que os atores dizem, às vezes não se consegue passar entre os carros, às vezes os transeuntes interferem, etc.

A própria ideia de peça teatral como uma coisa definida é posta em causa. A concentração pedida quer aos intérpretes, para actuarem, quer aos espectadores, para assistirem, está constantemente em risco de se perder. O que fica à vista são os aspectos do trabalho artístico que se prendem não apenas com a verosimilhança da ficção, a visão de mundo do autor ou a autonomia da linguagem e suas regras, mas também com coisas mais prosaicas como conhecer as ruas, entrevistar as pessoas, escolher palavras e decorar texto, manter o corpo aquecido. O domínio destes aspectos permite que a peça seja reconstituída diariamente e é nesse domínio que reside a sua arte, afinal.

Ao longo da noite, cada ator repete sete vezes a sua função de 15-20 minutos. Enquanto a cena no Parque Mayer expõe a vazia grandiosidade do Capitólio, renovado mas sem uso, o epílogo no salão nobre do Teatro Nacional, com a planta da cidade desenhada no chão, afirma a ambição de criar uma relação directa com as ruas e a vida dos lisboetas.

Esta (não) é a minha cidade

Em muitas das cenas há referências à prostituição naquela zona da cidade, que culminam com uma frase da cena na rua de S. José: — “Na Lisboa prostituida, porque as cidades também se prostituem, não são só as pessoas…” Uma das atrizes, pelo menos, já chegou a ser confundida com uma profissional, enquanto esperava a chegada do seu grupo de espectadores. Um carro de alta cilindrada aproximou-se, o vidro baixou como nos filmes, e de lá dentro, a voz de um homem perguntou: — “Trabajas?” O assistente de cena aproximou-se para salvar a atriz, mas ela ainda teve de responder: — “No.” A ironia desta anedota de bastidores é que a atriz estava, de facto, a trabalhar.

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O tema da equivalência entre trabalhadores do sexo e trabalhadores do palco não é novidade. Mas neste dia, por coincidência, aproveitei para ver a exposição Paisagem e Povoamento, no Museu Nacional de Etnologia, onde (entre muitas outras coisas dignas de nota, em especial sobre a articulação entre popular, tradicional, moderno e erudito nas artes em Portugal, que ora ficarão por dizer) estava expostas algumas das fotos de Posto de trabalho, a série de Valter Vinagre sobre, simplificando, prostituição de estrada. Deste projecto faz parte um monólogo de Jaime Rocha, “A culpa não foi minha”. É como se estes dois tipos de trabalhadores, igualmente abandonados à sua sorte, partilhassem os destinos de modo mais profundo do que o glamour normalmente trocado entre uns e outros. De facto, o trabalho corporal, repetitivo, sem ilusões, de profissionais que não são reconhecidos, mas, pelo contrário, descartáveis, une atores, atrizes, prostitutos e prostitutas. As cabanas de improviso retratadas com luz teatral por Valter Vinagre e os atores sem abrigo postos em campo pelo Teatro do Vestido são as imagens que melhor reproduzem Portugal do Séc. XXI. Felizmente, são também atos de combate, a Ação Revolucionária Armada das artes.

Estas são as nossas cidades

Se a este espectáculo juntarmos os retratos das versões do Porto e de Viseu (as outras localidades onde este projecto já foi feito), Joana Craveiro tem na sua posse uma dezena ou mais de monólogos sobre cidades em perpétuo movimento que formam um painel dos nossos tempos. Não serão equivalentes aos painéis de São Vicente, porque estes textos teatrais foram feitos para ser corporizados e porque os sujeitos recriados pelos atores não pertencem aos mais altos escalões da hierarquia social. Aliás, os retratos desta montagem são precisamente das pessoas e casas que estão de fora do toque de Midas do turismo de Lisboa. Mas é um conjunto singular, cuja forma devolve a quem quer que a veja uma reflexão profunda sobre os destinos individuais e coletivos dos habitantes de Lisboa, Porto e Viseu. (Nestes dois primeiros conjuntos, o amor é clandestino e luminoso porque a urbe é sombria, mas as sombras compõem a esperança. No último conjunto, o amor é o único refúgio na cidade ocupada pelo brilho das divisas estrangeiras.)

O toque de Midas

Quem não ficou de fora do toque de Midas do turismo foi o Palácio da Ajuda, cuja conclusão permitirá guardar e expor as jóias nacionais em duas caixas-fortes criadas para o efeito. (É sempre emocionante ler a palavra “caixa-forte” nos jornais porque de repente é como se vivêssemos em Patopólis, onde o Tio Patinhas dava mergulhos no mar de dinheiro da sua própria caixa-forte.) Mesmo assim, ainda há quem considere que é um projecto low-cost. Também não ficou de fora do toque de Midas a aquisição do retrato de D. João V para o Museu Nacional de Arte Antiga, com o que sobrou da coleta para comprar a Adoração dos Reis Magos.

A coincidência de estes projectos e anúncios de investimento serem para objectos directamente ligados a reis, coroas, ouro, etc. — num país onde o património dos Coches já custou uma fatia desproporcionada do orçamento para a Cultura (que devia ser dez vezes maior para pelo menos não envergonhar os cidadãos eleitores) — só torna mais dolorosa a cena em que, no espectáculo do Vestido, são mostradas imagens da visita da monarca inglesa a Portugal, em 1957. Estas personagens do Vestido são plebeias até ao tutano. Não haverá política cultural em Portugal que não seja elitista? A arte só retrata o poder? Vivemos num país de Gatas Borralheiras que julgam ser Cinderelas, subindo para coches que são carros de alta cilindrada?

Rainhas

Neste sábado, a principal fonte da cena do Parque Mayer foi ver essa parte. Trata-se de uma saudosa celebridade do teatro de revista, que assistiu deliciada ao desfiar da mistura de episódios reais com relatos fictícios feita por Ainhoa Vidal e Joana Craveiro. Foi um momento especial, em que a ligação daqueles teatros semi-abandonados do Parque Mayer com o próprio Teatro Nacional (o mesmo de Passa por mim no Rossio e de Tropa Fandanga, aliás), se materializou na ligação entre as três artistas, mediada pela ficção e pela memória, mas também pela invasão e presença.

No fim do ano, o Vestido montará, em co-produção com o São Luiz, em frente ao antigo edifício da PIDE, agora um condomínio de luxo, os “materiais, matérias, interrogações e ideias de Um Museu Vivo de Memórias Pequenas e Esquecidas“. À sombra da antiga Real Barraca, como foi chamado o edifício que antecedeu o Palácio da Ajuda, estão, mais abaixo, no Museu de Etnologia, as pequenas barracas das fotos de Valter Vinagre (e resto da exposição sobre os inquéritos ao território). O eixo que vai do Parque Mayer ao Nacional e até ao Trindade e ao São Luiz está debaixo do fogo gourmetizador, mas não será para sempre.

 

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