(2005) Escrever teatro

MINI-UTOPIAS Revista Artistas Unidos, nº 14, Nov. 2005, Lisboa: Cotovia

As personagens são para mim pessoas que existem na vida e no mundo real. Estão lá fora, circulando pelas ruas do Porto, da Nazaré e das outras cidades onde eu as situo. Por isso, para mim é muito importante rodear-me de guias de viagem e mapas onde imagino as minhas personagens a calcorrear as ruas e a encontrarem-se umas às outras. Tenho a secreta ambição de compor um políptico onde as peças se encaixem umas nas outras, todas num mundo imaginário que se sobreponha a este, um país alternativo, uma mini-utopia, uma eu-portugal-topia, da qual cada peça fosse uma cortina que se levanta sobre outra até tudo se situar num palco de uma cidade da província, Miranda do Douro, por exemplo. É esta uma das minhas distorções de autor, a da re-escrita e redescrição da história e da sociedade. Recorro ao motivo da marioneta e do boneco, da efígie e dos animais que falam, para povoar esse mapa. Pretendo que o meu trabalho seja a expressão dos lugares da minha vivência, e que estabeleça pontes para pessoas de outros lugares. Nesse sentido, as minhas peças articulam-se sempre em relação com o contexto. O que eu tento é que as minhas teorias enformem esse re-contexto. Que teorias? Raramente consigo tomar partido por apenas uma teoria, e procuro estar sempre atento às polémicas e às diversas perspectivas sobre os mais variados assuntos. Todas as teorias! O teatro é um sítio de liberdade, de confronto de ideias, de exercício da ironia.

A minha aprendizagem da dramaturgia é feita peça a peça, graças aos mestres com quem pude trabalhar. E nada como ver as peças a serem lidas, analisadas, encenadas ou representadas por outros. As peças brotam de ideias que tento ajustar à melhor forma, buscando a homologia entre os mais pequenos elementos da peça e a estrutura total. São concebidas como estruturas de opostos e de contradições. Procuro situações que traduzam o conflito emocional das personagens e provoquem no público uma síntese dessas emoções e dos conflitos em causa. Invento a história de cada personagem e da peça como um todo; frequentemente, quando abuso dos preceitos técnicos, a história morre sem que eu compreenda porquê, fica um enredo sem vida, os bonecos deixam de existir. Há uma zona na vida fictícia que apenas se pode tentar rodear, ou então esperar e deixar que nos toque. É aqui que não nos podemos deixar enganar pela mentira interior e devemos procurar no fundo de nós mesmos a verdade, uma verdade subjectiva que o corpo não rejeite. A melhor pista é a espontaneidade da voz de cada personagem.

A história é a concretização de uma ideia, a intermediação de uma abstracção com a realidade do palco. É uma metáfora, que ganha vida própria, porque os sentidos dela são amplos e instáveis, e encontram-se entre a ideia e a concretização. Planeio obter uma ligação directa com o comportamento instintivo, com a nossa fisiologia, através dos sentidos. Espero que a descodificação da acção teatral em impulsos neurológicos satisfaça os espectadores, encharcando de químicos naturais os respectivos cérebros. O modo de fazer isto acontecer é pela apresentação dos factos em palco, em acto, com uma estrutura planificada para provocar a viagem do cúmplice na plateia pelo palco do fingimento. Carinhos de Choque, de 2001, um diálogo poético de dois turistas perdidos numa estação arqueológica, é sobre as ruínas da herança clássica no séc. XX católico. Em TeleGanza, uma peça ainda em gestação, tento materializar um alter ego do protagonista à volta de uma fogueira no deserto, em Marrocos, onde se chega com a ajuda de um tapete voador. Em Xmas qd Kiseres, de 2002, os números musicais na sala de aula tornam-se os verdadeiros concertos da dupla de marginais. A história ou ficção dá lugar ao ritual, assim como as personagens dão lugar ao papel e à actuação. Os actores embrenham-se no respectivo papel ritual para que os espectadores possam participar nele.

Num texto que tenho em mãos, Círio dos Salvados, uso relatos autobiográficos acerca de naufrágios, literais e alegóricos, para expandir uma ficção por várias localidades nome idêntico. A vida que tento insuflar nas personagens, e que vem da possibilidade de me cruzar com elas nas ruas dentro de mim, é uma extensão da minha vida. Esta extensão é uma maneira de usar a ficção para prolongar os genes. Não estamos sós, e ao fazermos sentido das relações que temos uns com os outros, vamo-nos salvando. A escrita teatral é a preparação de um ritual para espantar a solidão.

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