(2006) Fazer inimigos 

Como fazer inimigos e não influenciar pessoas O Melhor Anjo, Set. 2006

«I sometimes feel that theatre reviewing is the art of making enemies and failing to influence people», diz Eric Bentley num ensaio (What is Theatre?, de 1955-57), de The Theatre of Commitment, glosando o famoso título de Dale Carnegie (o livro está traduzido em português e publicado no Brasil como O Teatro Engajado). No meu caso, ao fim de apenas dezasseis críticas no Público, falando sobre vinte e dois espectáculos, quase nada, desde Maio de 2005 até à data, claro que me aborrece deixar os criadores aborrecidos comigo. Seria mais fácil continuar a dar e receber palmadinhas nas costas. Este é o assunto mais popular a respeito do exercício da crítica teatral no Porto, na forma do argumento: as pessoas conhecem-se todas, o meio é pequeno… como garantir que o crítico não se deixa influenciar pelos amigos?

É difícil. Cada vez que ele dá uma opinião sincera, tem de pedir desculpa, ou aceitar o desafio para o duelo e arranjar um padrinho de armas. Talvez por isso não tenha havido crítica teatral na imprensa do Porto durante anos, a não ser feita por críticos com morada fixa alhures. Como dizia Paulo Eduardo Carvalho num artigo de 1997, Entre a contracção e a expansão: esboço crítico de algumas convulsões do teatro no Porto e no Norte de Portugal – aliás um texto importantíssimo para conhecer a actividade teatral na Invicta -, «falta ainda completar a verdadeira tarefa descentralizadora, ultrapassando, por exemplo, a dependência que o teatro no norte do país continua a viver relativamente à crítica teatral, ainda toda ela centralizada em Lisboa». O que mudou nestes dez anos? Ao mesmo tempo que explodia a actividade teatral, com a reabilitação e abertura do Teatro Nacional S. João (TNSJ), a consolidação das companhias da cidade, a criação de novos grupos e o pleno funcionamento das escolas, o que aconteceu na crítica teatral? Nada. A emancipação não se deu. Ou não queriam fazer inimigos, ou não se queriam deixar influenciar, ou Lisboa não deixava. É preciso recuar aos anos setenta e oitenta para encontrar colunas de crítica assinadas nos jornais, por nomes como Jaime Lousa, Artur Miranda ou Manuel Dias, entre outros. Mas que importância isto tem, afinal? Nenhuma. O teatro é quase irrelevante, porque haveria a crítica teatral de ser diferente? O número de espectadores tem vindo a diminuir constantemente, a julgar pelos dados apresentados em Os Públicos do Teatro e a Inocência dos Criadores (1997), de João Teixeira Lopes, e Theatre as a Social System: Portugal (1998) de Maria Helena Serôdio. De resto, também não há estudos sobre a cidade do Porto em particular, ou como um todo, à excepção do valioso Públicos do Teatro S. João, editado pelo Observatório das Actividades Culturais – mas que é resultante de um «inquérito aos públicos do S. João ao longo de um ano de programação», 2000, e por isso circunscrito a um ano e uma instituição. Haverá públicos ou não? Não se sabe. A impassibilidade geral perante a concessão do Rivoli Teatro Municipal, um facto recente, estará relacionada com a diminuição de público? Não se sabe. Não há debate crítico e também não há debate sociológico sobre o teatro na cidade do Porto. Have you the making of a dramatic critic? Veja aqui. Parece ter caído completamente em saco roto o apelo que Bernard Dort faz, no capítulo As Duas Críticas de O Teatro e sua Realidade (edição em português dos volumes Thêatre Public e Thêatre Réel), para que a crítica seja ao mesmo tempo análise semiológica da representação teatral e análise sociológica da actividade teatral. E em saco ainda mais sem fundo a ideia do crítico enquanto iniciador do público na linguagem teatral, «fazendo-o reflectir na sua função: a função de público». Pelo menos na medida em que essas análises e iniciação não foram feitas ou não apareceram a ser feitas ao longo de anos, considerações como a de Dort foram vãs. Quem é Bernard Dort? Sabe-se lá! Estarei a fazer vista grossa às dezenas ou centenas de textos publicados na imprensa e nos programas que acompanham os espectáculos? Talvez. A maior parte deles refere-se a estudos de literatura dramática e encenação, ou às carreiras colectivas e individuais dos artistas, passando pela impressão pessoal que cada um teve do trabalho em causa. Isso não foi suficiente. Esses textos não dialogam entre si nem com nada externo, são apenas parte da máquina de propaganda dos espectáculos que alimenta os magazines de artes e os dossiers de candidatura a apoios públicos. Uma das causas que impede o aparecimento de um debate crítico no Porto, quer sobre o teatro quer sobre a realidade, é a renúncia da maior parte dos criadores em procurar um pensamento crítico, em relação a algum objecto, que possa ser apresentado na forma de um espectáculo. Uma ideia que faça o teatro valer a pena ser frequentado. Para um bom debate é preciso que haja capacidade de distanciação por parte dos interlocutores; distanciação no sentido que as ciências sociais dão à palavra – um estranhamento deliberado para que a reflexão possa ser frutífera. E tal como se diz que o meio é pequeno de mais para a crítica, parece também ser pequeno de mais para a reflexão distanciada. Para piorar, essa reflexão tem de estar entranhada na matéria dramática e teatral do espectáculo, sob pena de alienar a maior parte dos espectadores e a própria natureza da arte a que pertence. Mas a dramaturgia original é incipiente e o repertório estrangeiro abordado superficialmente. O espelho que os criadores usam para se reverem, para nele rever a sociedade, para rever o mundo, está ocupado com uma cacofonia de imagens que se reproduz automaticamente. Sem se estranharem, os criadores não podem fazer nem desejar a crítica cultural. E sem um debate cultural entre criadores e público, não há grande uso para a crítica teatral. O desejo de contradição, cujo motor é a insatisfação com o mundo, provoca a criação artística. Mas sem conhecimento do mundo, é apenas amuo. Será? Cabe aos críticos parar a cacofonia de imagens que compõe o status quo, mesmo que isso obrigue a mudar o itinerário dos seus encontros sociais, a fazer inimigos e a não influenciar as pessoas. Ou não? Vamos ao debate.

Quantas estrelas dá?

“Dou cinco estrelas porque não posso dar mais”, era a resposta invariável de Beatriz Costa nos júris dos concursos televisivos quando gostava muito dos concorrentes. Para que conste, a escala de 0 a 5 do Público: ● mau / ✭ medíocre / ✭ ✭ razoável / ✭ ✭ ✭ bom / ✭ ✭ ✭ ✭ muito bom / ✭ ✭ ✭ ✭ ✭ excelente.

O crítico pensa?

transcrição e o vídeo de uma mesa-redonda com Eric Bentley, Robert Brustein e Stanley Kauffmann, três dos mais influentes críticos dos EUA.

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